A Vida no Centro

Edson Franco

Franquezas

Edson Franco é jornalista com passagens por Folha de S.Paulo, revistas Galileu, Ele Ela, Guitar Player Brasil e IstoÉ e portal Terra. Atualmente é coordenador online do Canal Rural. Em quase todas essas publicações escreveu sobre música, fazendo críticas e entrevistando gente que vai de Wando a B.B. King. Músico diletante, toca guitarra nas horas vagas e discoteca em baladas de música brasileira dançante. É coautor do livro “Música Popular Brasileira Hoje” (Publifolha) e editor de “Zózimo Diariamente” (editora EP&A). Música é o centro da discussão aqui.

Crônica das coisas eróticas que vi (e vivi) no Centro de São Paulo

Um relato divertido baseado em fatos reais que junta inferninhos, as proibidas do Juca Chaves, strip-teases, o primeiro filme pornô do cinema nacional e outras coisas eróticas do centrão

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Época repleta de descobertas, a minha adolescência foi marcada por um desejo maior: fazer 18 anos. Eu não via a hora, e as razões que adicionaram pitadas de angústia à minha espera por esse dia eram risíveis, como só aquelas que os meninos de subúrbio dos anos 70 poderiam imaginar.

Ao atingir a maioridade, eu estaria autorizado a ouvir os discos em que Juca Chaves juntava piadas “sujas” com músicas sacanas e bem humoradas. Ou comprar e escutar escondido o compacto com “Je T’Aime… Moi non Plus”, em que Serge Gainsbourg e Jane Birkin protagonizam a mais explícita transa da história fonográfica.

Aos 18, toda vez que um camburão apontasse na rua,  eu não precisaria largar correndo o taco de snooker no bar do seu Geraldo e fingir que estava comprando paçoquinha Amor. E, acima de tudo, quando atingisse a maioridade, poderia frequentar as boates e, no cinema, ignorar os avisos de proibido para menores.

 Coisas eróticas do Centro

Durante boa parte da minha adolescência invejei o Neguitanha. Ele era um mulato da vizinhança que vivia repetindo de ano. Isso talvez o tenha aproximado da minha geração, formada por garotos cerca de cinco anos mais novos que ele.

Já maior de idade e trabalhando em uma engarrafadora de gás em Mauá, Neguitanha deixava 70% do seu salário nos puteiros do Brás. Os outros 30% ele gastava em rios de penicilina, medicamento necessário para conter a efervescência que frequentemente tomava conta das partes do meu amigo.

Depois de bater uma bola no campinho, sentávamos em torno do Neguitanha para escutar os relatos de suas aventuras pelo Largo da Concórdia. Com uma baba bovina e elástica (valeu, Nelson Rodrigues!) pendendo de nossas bocas adolescentes, conhecemos histórias de mulheres que deixavam fazer tudo, de transas acrobáticas, de gozos intermináveis.

Por outro lado, foi nessas rodinhas que ouvimos pela primeira vez nomes aterrorizantes como gonorreia, sífilis e cancro (às vezes acompanhado do repelente adjetivo “perebento”). Ah, estreou também em nossos ouvidos uma segunda acepção de “chato”. Até então, usávamos essa palavra apenas para nos referir ao seu Camasão, um português bravíssimo que rasgava as nossas bolas (de futebol) a golpes de faca, todas as vezes em que elas caíam no quintal do homem.

Os relatos do Neguitanha me fascinavam e excitavam, mas eu também ficava apavorado. Tinha pesadelos com espuma vertendo da minha cueca ou nos quais eu ganhava novos orifícios e passava a urinar como se tivesse um regador entre as pernas.

Passeio na Santa Efigênia 

Quando, aos 15 anos, comecei a trabalhar na Folha, no Centro da cidade, adorava passear pela região da rua Santa Efigênia. Entre as lojas de eletrônicos que eu admirava, aninhavam-se algumas casas de tolerância. Na porta de algumas delas, moças praticavam um marketing agressivo e direto. “E aí, meu amor, vamos fazer um bebê?” era uma das frases mais recorrentes.

O medo (sabe nada) inocente de ter uma criança com aquelas senhoras e o pavor de tomar injeções diretamente no pênis me mantiveram firme na recusa a esses convites tentadores. Em meu socorro, havia o fato de, aos meus olhos, nenhuma ser bonita o suficiente para, como Odair, eu querer tirá-la daquele lugar.

Demorou, mas finalmente meus 18 anos chegaram. O primeiro efeito prático disso foi que, em pouco tempo, tornei-me o melhor jogador de snooker no bar do seu Geraldo. O segundo foi o fato de eu começar a beber cerveja, mesmo achando ruim. Só depois de muitos anos e com a chegada das bebidas artesanais constatei que, de fato, aquelas cervejas eram ruins e continuam nessa condição até hoje.

Resolvida a questão do snooker, sobrava a do mundo de libidinagem que o Neguitanha tão bem descrevia. A falta de coragem para entrar em um puteiro insistia teimosamente em criar uma barreira intransponível mim. Mas dei sorte.

Pouco depois de eu completar a maioridade, o Brasil sofreu uma de suas passagens mais traumáticas. No dia 5 de julho de 1982, a seleção brasileira perdeu por 3 a 2 da Itália e foi eliminada da Copa da Espanha, episódio que entrou para a nossa história como a tragédia de Sarriá.

Talvez para ajudar a cicatrizar a ferida na alma nacional, os censores do governo do general João Baptista de Figueiredo fizeram vista grossa e autorizaram a exibição nos cinemas de “Coisas Eróticas”, o primeiro filme de sexo explícito liberado em território nacional.

Risadas no Cine Windsor

Filas enormes se formaram no Cine Windsor, na avenida Ipiranga. Eu estava em uma das primeiras turmas. O público era 100% masculino, e isso alojou algumas pulgas atrás da minha orelha de jovem adulto. Afinal, eu passaria duas horas trancafiado em meio a uma horda de machos em busca de alívio.

Começa o filme, e logo na primeira cena o ator Oasis Minniti aparece sentado em um vaso sanitário folheando uma revista de mulher pelada. Ele termina a sua obra, puxa um pedaço de papel higiênico e faz uma assepsia questionável. Meus companheiros de sessão desandaram a rir. Senti que, daquela escatologia, nascia um traço de solidariedade. Isso teve um efeito tranquilizante em mim.

Terminada a exibição, saí do cinema destemido, pronto para frequentar lugares onde os machos exercitam o desejo, deixando a consumação para outro momento e lugar. Foi assim que visitei as boates da Nestor Pestana, objeto de um post anterior. Foi assim também que, numa aventura solo, entrei no Teatro Santana, pertinho do Cine Windsor.

A casa era uma espécie de Moulin  Rouge brasileiro. Sem o requinte e a produção da matriz francesa, o Teatro Santana se limitava a enfileirar strip-teases intercalados com apresentações de humoristas. O preço do bilhete era amigável, o que permitia o acesso a peões de obra, office-boys, porteiros e arquivistas como eu. Os mais corajosos assumiam as primeiras fileiras. Eu me instalei no fundo do teatro.

Fundo musical de strip-teases 

No começo do show, debaixo de um fundo musical hollywoodiano, entra no palco todo o elenco que, nas horas seguintes, vai revelar os seus contornos mais íntimos. Enquanto os strip-teases se sucediam, o comportamento da plateia era dominado por um silêncio respeitoso e ao mesmo tempo tenso.

Mas tudo estava sob controle. Tanto que uma moça negra, já completamente despida, sentou-se na beira do palco e convidou um espectador da primeira fila a conferir de perto a vermelhidão umedecida que resplandecia de seus interiores. Vestido com roupa de missa e com uma capanga de couro alojada sob a axila direita, o operário se aproximou do palco, observou a abertura generosa da moça com rigor científico e voltou para sua poltrona.

Um outro tipo de solidariedade surgiu naquela noite, pelo menos da minha parte. Tive muita pena dos sujeitos escalados para entreter o público entre as apresentações das moças. As piadas eram boas, mas, diferentemente do silêncio de minutos antes, agora a plateia se manifestava com uma ferocidade leonina, impaciente com o que considerava pura perda de tempo.

Além do tesão decorrente da performance das moças, saí do teatro em paz com o trabalho que eu executava na época. Afinal, podia ser muito pior. Imagine se eu ganhasse a vida coletando ódio como fazem os destemidos humoristas de strip-tease.

Vamos à playlist deste texto:

“Je T’Aime… Moi non Plus”, Serge Gainsbourg e Jane Birkin

O disco do Juca Chaves “proibido para menores”

“Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, Odair José

Por fim, uma entrevista em três partes que fiz com os jornalistas e autores do livro “Coisas Eróticas”, um tratado sobre o primeiro filme brasileiro de sexo explícito