A Vida no Centro

Francine Costanti

Olhar literário

Francine Costanti é jornalista, e seus textos - na maioria sobre cultura e entretenimento - já passearam pelas redações dos portais iG, R7 e Sesc-SP. Hoje é redatora na agência Vert e escreve sobre marketing de conteúdo. Como inspiração pessoal, a ideia aqui é explorar a cena de música e literatura do Centro de São Paulo, desde os contos literários de Mário de Andrade até as letras de Emicida. Esse espaço é feito para e por todos. Por isso fique à vontade para deixar sugestões.

Mário de Andrade e o Centro de São Paulo

O escritor modernista, que virou nome da principal biblioteca de São Paulo, era mestre em retratar as tradições e o jeito do paulistano, observando e registrando tudo à sua volta

Quantas vezes vocês, admiradores da poesia romântica dos anos 20, passeiam pelas ruas largas da capital e tentam decifrar um pouco de como era a vida nessa época? Muitas, aposto! Digo por experiência própria. Bate aquele sentimento puro de nostalgia ao lembrar dos grandes escritores que exploravam cada canto desse grande mundo que é São Paulo.

Mário de Andrade, personagem protagonista do texto de hoje, era mestre em retratar essa imensidão, os trejeitos do paulistano e as tradições simples conservadas até hoje, como sentar para tomar um café no final da tarde e observar tudo em volta ou provar um bom prato de feijoada, uma de suas refeições preferidas. Às vezes, dá até uma sensação de que o vi passar por aqui (rs…).

Ouso até fazer uma comparação do escritor brasileiro com o norte-americano Ernest Hemingway que fez de Paris sua casa por alguns longos anos e dali saiu “Paris é Uma Festa”, uma de suas obras mais famosas e que retrata justamente a sociedade francesa no mesmo período em que acontecia essa explosão do modernismo em São Paulo e que Mário lançou o livro “Pauliceia Desvairada”. Dois jovens com a mesma sensibilidade de notar a cidade e descrevê-la em suas obras.

Semana de Arte Moderna

O artista reunia todas as boas características ligadas à arte: escrevia, era crítico de arte, tocava piano e era musicólogo, além de um excelente jornalista e pesquisador da cultura popular brasileira e, em 1922, foi um dos organizadores da Semana de Arte de Moderna, que aconteceu no Teatro Municipal. Junto do “Grupo dos Cinco”, com Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, Mário revolucionou a história da arte no Brasil, criando um conceito novo com enfoque em elementos brasileiros.

Porque eu conto tudo isso? Para dizer que é inevitável passar por ali (isso acontece todos os dias) e não imaginar como seria toda aquela explosão de cultura, Villa-Lobos regendo sua orquestra e os tipos elegantes da sociedade desfilando pelos corredores do teatro.

Era tanta paixão que Mário a traduziu no poema “Quando eu morrer”, em que pedia para que enterrassem cada membro do seu corpo em uma rua da cidade:

“Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça,
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido direito,
o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.”

Seu nome também foi dado a uma das bibliotecas mais completas de São Paulo, que fica ali pertinho da estação de metrô Anhangabaú. E você ainda pode visitar a casa de Mário, que fica na Rua Lopes Chaves, n° 546, na Barra Funda, que tem uma programação extensa de eventos dedicados ao escritor.

E não deixe a preguiça de Macunaíma bater em você, hein? Vá andar pelo centro de São Paulo, porque tem muita história e literatura mais viva do que nunca em cada rua que a gente passa todos os dias!

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