A Vida no Centro

Francine Costanti

Olhar literário

Francine Costanti é jornalista, e seus textos - na maioria sobre cultura e entretenimento - já passearam por algumas redações de portais e agências. Como inspiração pessoal, a ideia aqui é explorar a cena de música e literatura do Centro de São Paulo, desde os contos literários de Mário de Andrade até as letras de Emicida. Esse espaço é feito para e por todos. Por isso fique à vontade para deixar sugestões.

Minha vida no Centro

Em seu post de estreia, a blogueira Francine Costanti conta como a mudança para o Centro de São Paulo transformou a sua vida

Vou começar me apresentando justamente pela grande transformação que o centro de São Paulo trouxe para minha vida ainda com pouca idade. Morei na periferia da capital desde que nasci. Isso faz exatos 34 anos. Essa vontade de querer me transformar em muitas pessoas começou na adolescência, aquela fase que todo mundo vivencia, em que criamos novos olhares sobre tudo que nos rodeia, seja politicamente, culturalmente ou mesmo sobre coisas comuns do dia a dia.

Minhas andanças pelas ruas populares da cidade começaram aos 14 anos, quando eu e minhas amigas de colégio explorávamos as grandes construções arquitetônicas, como o Teatro Municipal, o Edifício João Brícola e o Copan. Também passeávamos em ruas onde, ainda hoje, há mais gente do que asfalto, como a 25 de Março, a Barão de Itapetininga e, como boa roqueira, a rua 24 de Maio, que até hoje abriga a Galeria do Rock.

Adorava andar pelo Viaduto do Chá e observar as ciganas que, com aquelas roupas cheias de detalhes e cores, liam as mãos de quem se arriscava descobrir seu futuro (morro de medo de saber o que pode me acontecer…rs). Muitas barracas com roupas, frutas, produtos eletrônicos e ervas medicinais tomavam o resto de espaço que ainda tínhamos para nos movimentar.

No final da tarde, eu voltava pra casa agoniada e com muito mais ânsia de explorar os lugares que também eram protagonistas de algumas matérias na escola, especialmente nas aulas de português, em que os professores me fizeram descobrir um novo mundo de palavras e citaram a Semana de Arte Moderna (no Teatro Municipal em 1922), a música de Caetano em homenagem a duas grandes avenidas e as crônicas da mulher moderna de Clarice Lispector.

A mudança para o Centro de São Paulo

Todos esses acontecimentos fragmentados foram decisivos para minha mudança. Não só na localização, mas também no lado emocional – por não estar mais próxima da minha família, mas perto de onde eu teria mais possibilidades culturais.

Outra vantagem é estar bem mais perto do trabalho, cerca de 20 minutos a pé, o que também me faz conhecer sempre um lugar novo, a vendinha com as frutas da estação, a costureira, o sapateiro e a sorveteria. Tudo por aqui tem “cara de bairrinho”, basta manter os olhos atentos e os pés dispostos.

Quem mora em São Paulo valoriza qualquer tempinho extra na agenda, não é verdade? Seja para ver aquela exposição, tomar um café depois do trabalho ou chegar meia hora mais cedo em casa. Só que nem sempre é possível, porque vivemos nessa correria louca em que tudo é para hoje. Estou experimentando essa sensação de liberdade de tempo, de renovar meus olhares, tomar chuva no caminho de casa ou comprar um pão quentinho para o café da manhã na padaria da esquina.

Você não mora no Centro? Que tal acertar a agenda para conhecer esses lugares que eu te contei e muitos outros que merecem ser apreciados (muitas atrações em São Paulo costumam custar ZERO reais). Sempre há tempo de descobrir cantinhos escondidos desse centro cheio de árvores, casarões e pessoas de diferentes tipos, lugares e sotaques. O Centro é de todo mundo!

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