A Vida no Centro

Edson Franco

Franquezas

Edson Franco é jornalista com passagens por Folha de S.Paulo, revistas Galileu, Ele Ela, Guitar Player Brasil e IstoÉ e portal Terra. Atualmente é coordenador online do Canal Rural. Em quase todas essas publicações escreveu sobre música, fazendo críticas e entrevistando gente que vai de Wando a B.B. King. Músico diletante, toca guitarra nas horas vagas e discoteca em baladas de música brasileira dançante. É coautor do livro “Música Popular Brasileira Hoje” (Publifolha) e editor de “Zózimo Diariamente” (editora EP&A). Música é o centro da discussão aqui.

Na separação, não abro mão de uma coisa: minha coleção de discos!

Uma crônica sobre a dor das separações e sobre como a música pode fazer parte de uma receita de união que dure para sempre ( ou não)

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Casar é uma maravilha. Tanto que adoraria repassar pela experiência pelo menos uma vez por ano. E sou adepto dos casamentos completos. Daqueles com tias chorando no altar, irmãs com tanta maquiagem que eu precisaria do dentista da família para reconhecê-las e primos esticando ternos comprados uns 15 quilos atrás. E, apesar de não crer em nada, acredito que a troca de alianças só será perfeita se realizada no interior de um estabelecimento católico.

Isso sem falar daqueles pequenos deleites que cercam a cerimônia. A montagem da lista na Camicado, a elaboração do convite, o prazer mesquinho e vingativo de decidir quem fica de fora da relação de convidados, a busca pelo parente ou amigo que tem aquele carro diferentão, a disputa pelos sobrinhos mais fofos encarregados de levar as alianças e a escolha do bem-casado mais apetitoso.

Vestido tomara-que-caia

Entre todos esses prazeres, o que entrou com mais vigor na minha memória aconteceu quando já estávamos todos perfilados na capela da PUC, em Perdizes, na tarde de 17 de outubro de 1987, um sábado. Seguindo um comando vindo não sei de onde, a organista puxa a introdução da “Marcha Nupcial”, as portas se escancaram e termina a minha agonia: o vestido era tomara-que-caia. E eu apostava que seria de alcinha.

Toda essa celebração tem de ser precedida, meses ou anos antes, por uma troca de olhar, por várias noites de sono perdidas por conta daqueles olhos, pela criação da estratégia do primeiro contato e pelo delicioso jogo da conquista, que, no meu caso, sempre é suada e por pontos. Nunca por nocaute.

Depois, é o paraíso. Passeios de mãos dadas no parque, cineminha falando de perto e sentindo o aroma de Halls preto que exala da boca da pessoa amada, a espera pelo sono dos sogros e a liberação do sofá, os shows abraçadinhos, as viagens curtas às escondidas e a busca incessante por lugares onde a gente se satisfaz com R$ 50. E por três horas.

Isso tudo torna muito doloroso o momento em que a separação é inevitável. A gente teima em não acreditar na hipótese. Mesmo que os passeios no parque, quando acontecem, já são com cada um de fone de ouvido ou checando o WhatsApp. Mesmo que o gosto de cinema já não bata. Mesmo que a gente ache mais importante poupar os R$ 50 do que investi-los numa aventura libidinosa com uma pessoa que, infelizmente, não se ama mais.

Minhas duas separações (dolorosas)

Passei por duas separações, ambas extremamente dolorosas. Os casamentos seguiram o roteiro idílico dos parágrafos anteriores. No segundo, faltou apenas a celebração na igreja. Isso porque a Igreja não permite que os descasados tenham uma segunda chance para mostrar seu futebol com a anuência e as bênçãos de um padre católico. Aliás, conto com o papa Francisco para me conceder uma nova oportunidade para alugar um meio-fraque e levar a parentada e os amigos de volta a uma catedral. Desta vez, faço questão de ter o Agnaldo Rayol cantando!

Voltemos às separações e suas dores, tão bem descritas por Chico Buarque e Francis Hime em “Trocando em Miúdos”. É muito triste o momento do “eu fico com isso, você fica com aquilo”. Dói no coração lembrar o encaixotamento de pertences com lágrimas pingando nas caixas de papelão.

Meu primeiro casamento terminou de forma trágica. Acabei me apaixonando por outra moça. Com toda sinceridade (talvez excessiva), mostrei o quadro todo para a minha já ex-mulher. Passado o espanto, ela foi tomada de uma fúria materialista. Seguiu com determinação e método a máxima atribuída a Ivana Trump: “Não fique com raiva, fique com tudo”.

Foi assim que ela ficou (por um preço que meu ex-sogro não faria) com um apartamento de 113 metros quadrados nos Jardins. Mas tem mais. Ela exigiu a manutenção de todas as recordações de viagens que fiz a trabalho. Assim, vi deslizarem pelos meus dedos batiks vindos da Costa do Marfim, espadas de samurais compradas no Japão e pôsteres de blues das casas que eu mais amo em Chicago. Até a minha coleção em VHS com os filmes do James Bond ela fez questão de confiscar. Tudo bem, eu só queria ser feliz.

Para ela, o saldo foi tão generoso que, durante muito tempo, afirmei que casar comigo era o investimento mais rentável que existe. Um retorno que nem as mentes mais geniais da XP, do J.P. Morgan ou do Credit Suisse conseguem proporcionar.

Eu fico com os discos!

Mesmo com toda a raiva motivada pela separação, teve uma briga que, prudentemente, a minha ex optou por não encarar: os meus discos. Na época, eu já contabilizava uns mil LPs e quantidade similar de CDs. Nos 12 anos em que permanecemos casados, não houve um dia sequer em que ela tenha colocado um deles para rodar. De todos os discos da casa, apenas um era dela: “Thriller”, do Michael Jackson, presente de um amigo de faculdade e que está comigo até hoje. A verdade é essa, para a minha ex, música é uma coisa desimportante.

Veio o segundo casamento e dei sorte. Junto com a nova mulher veio toda a mobília para montar a casa. Entre um casamento e outro, comprei apenas um sofá-cama, única peça que fazia companhia aos discos ainda encaixotados. Além da mobília, veio um aparelho de som. O anterior, que eu havia comprado ainda solteiro, ficou com a ex.

Com aquele frescor e vitalidade de toda nova relação, passamos a fazer muitas coisas juntos. Cinema, viagens, jantares, visitas a amigos e, sobretudo, idas a shows. Parecia que a segunda mulher gostava mais de música, mas ouvir discos em casa ainda era um prazer que eu exercitava solitariamente, no máximo com a companhia do filho dela (sim, tive um enteado), que tinha três anos e começou a se interessar por aquele mundo de sons.

Com a mesma intensidade com que se formou, nosso casamento degringolou. Foram quatro anos de um fogo sexual que resgatou um adolescente que eu achava perdido para sempre. Mas também foi um tempo marcado por desentendimentos e situações que exigiam a intervenção de um coquetel de tarjas-pretas para serem contornadas. Em pouco tempo, passei a ir sozinho ou com amiga(o)s aos shows, chegava desacompanhado à casa dos amigos e achava um alívio quando tinha de viajar a trabalho.

Veio a nova separação. E, de novo, fiquei apenas com meus discos, acrescidos agora do sofá-cama. Repetiu-se o ritual do empacotamento lacrimoso, mas fomos poupados do momento “eu fico com isso, você fica com aquilo”. Como ela gostava um pouco mais de música que a anterior e tinha seus próprios discos, pediu apenas para ficar com um CD da Mônica Salmaso. Apesar de as negociações acontecerem de forma serena, doeu demais. A ponto de eu achar que, apesar de gostar tanto, jamais casaria de novo.

Passaram-se 16 anos e vários namoros desde este último casamento desfeito. Fui feliz em várias ocasiões, mas raramente senti evoluir a convicção de que alguma entre as mulheres maravilhosas que passaram pela minha vida era a escolhida para atravessar a porta da Nossa Senhora do Brasil, vestida de tomara-que-caia ou alcinha.

Bodas de ouro

Sempre invejei muito o casal formado pelo meu tio Horácio e a tia Cesária. Eles completaram bodas de ouro em um casamento perfeito. Mesmo depois de décadas de união, três filhos e alguns perrengues, eles estavam sempre juntos. Passeavam, ouviam música no rádio por horas, cultivavam a horta e recebiam visitas na companhia um do outro. Mais que isso, estavam sempre se tocando. Quando não eram as mãos que estavam entrelaçadas, os pés se uniam. Parece que estavam tão felizes em estarem juntos que usavam o tato para checar isso infinitamente.

Um dos raríssimos momentos em que os vi separados foi em 1974, quando o meu vô Prudêncio (casado com a vó Virgínia, irmã de Horácio) morreu. Na época, os velórios eram nas casas das pessoas. Enquanto as mulheres preparavam lanches de mortadela na cozinha, os homens conversavam no quintal, e as crianças se espalhavam pela casa, dando de vez em quando uma espiadela no caixão na sala. Afinal, era o primeiro cadáver de nossas vidas.

Foi quando uma tia chegou ao quintal dominado pelos homens com uma bandeja de sanduíches. Tio Horácio se serviu de um e perguntou: “Tá tudo bem com a Cesária lá na cozinha?”. Era lindo ver aquilo. Não lembro precisamente de quando, mas tia Cesária morreu com mais de 85 anos, na cama, dormindo. Vaidosa, ela jazia com as unhas que havia pintado de vermelho na noite anterior. Tio Horácio morreu duas semanas depois. A vida não fazia o menor sentido sem ela.

Ainda não desisti do projeto de ter uma Cesária para chamar de minha. O que a vida me ensinou e, na medida em que vou escrevendo fica mais claro, a candidata terá de passar por um teste. Horas ouvindo música na sala, fazendo cafuné e sonhando com o futuro. Durante vários fins de semana. Ah, é obrigatório também gostar de cachorro.

Com isso, aumentam muito as chances de o terceiro casamento ser o definitivo. Meu único receio é a moça gostar tanto de música que resolva ficar com parte do meu acervo caso a história não dê certo de novo.

Aqui vai a dolorosa trilha da semana:

“Trocando em Miúdos”, Chico Buarque e Francis Hime

 

“Hope She’ll Be Happier”, Bill Withers

 

“Bilhete”, Ivan Lins e Vitor Martins