A Vida no Centro

Edson Franco

Franquezas

Edson Franco é jornalista com passagens por Folha de S.Paulo, revistas Galileu, Ele Ela, Guitar Player Brasil e IstoÉ e portal Terra. Atualmente é coordenador online do Canal Rural. Em quase todas essas publicações escreveu sobre música, fazendo críticas e entrevistando gente que vai de Wando a B.B. King. Músico diletante, toca guitarra nas horas vagas e discoteca em baladas de música brasileira dançante. É coautor do livro “Música Popular Brasileira Hoje” (Publifolha) e editor de “Zózimo Diariamente” (editora EP&A). Música é o centro da discussão aqui.

Um convite para dançar no Copan

Como uma das obras mais marcantes e conhecidas de Niemeyer reajustou a sintonia do DJ Franco com a música brasileira feita para sacolejar

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Nossa memória é generosa com tragédias. Quase todo mundo lembra o que estava fazendo no 11 de Setembro, na manhã da morte do Ayrton Senna ou durante as tretas do Gilmar e do Barroso no Supremo. Tento superar internamente isso, mantendo no meu HD emocional um espaço de vários gigas para as datas, horários e lugares em que um novo amor surgiu.

Um deles nasceu na noite de 25 de janeiro de 2004, no Copan! Mais exatamente no mezanino do restaurante Sapori di Rose (hoje rebatizado de Varanda). A convocação esclarecia que aconteceria ali uma festa chamada SamBaCana Groove, animada apenas por música pra dançar brasileira. O texto do convite era delicioso, saído do coração e da mente do colega de Folha de S.Paulo e irmão para a vida inteira, Israel do Vale, o idealizador da festança.

Confesso que, apesar do apelo irresistível da convocação, tomei banho, passei perfume e me dirigi ao Copan movido mais pelo espírito de solidariedade. Israel foi pauteiro da Ilustrada numa época em que eu era editor do extinto TV Folha. Juntos, enfrentamos o chefe mais despótico, alucinado e inconsistente com que cruzei em mais de 30 anos de carreira. O cara continua no jornal até hoje, mas, felizmente, não chefia mais equipes. Solitário e sorumbático, segue vagando pela redação, levemente vergado pelos traumas que carrega.

Dançar no Copan

Com o fígado devidamente desopilado, voltemos à festa. Na minha cabeça colonizada de blueseiro, discothéqueiro e roqueiro, aquilo tinha poucas chances de dar certo. Afinal, como juntar muitas pessoas interessadas em dançar uma noite inteira apenas ouvindo letras em português?

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Com essa síndrome de vira-latas, subi as escadas que levavam ao mezanino (na época chamado de Espaço Cultural José Lewgoy), e uma série de surpresas agradáveis começaram a retomar tudo o que os músicos gringos levaram décadas para conquistar. A primeira delas, se deu na bilheteria: os preços do ingresso e da cerveja faziam com que, raramente, os gastos da noite superassem os dois dígitos. A segunda, o público. Poucas vezes na vida, troquei tantos abraços e beijinhos com gente querida numa mesma noite, sem uma combinação prévia.

Só depois de atravessar essa muralha afetiva e de estar com o primeiro copo na mão, passei a prestar atenção no som que saía das caixas. Originais do Samba, Di Melo, Carlos Dafé, Tim Maia, Lady Zu, Jorge Ben, Trio Mocotó, Abílio Manoel, Roberto Carlos, Wanderléa, Ednardo, Chico Science, Clube do Balanço, Golden Boys, Evaldo Braga, Noriel Vilela, Branca Di Neve. Tudo gente que eu ouvia no rádio, mas que não dava muita atenção, hipnotizado que estava pela produção musical do lado de cima do Equador.

Entre goles de cerveja, conversas divertidas, reencontros inesperados e os primeiros e envergonhados sacolejos na pista, fui me deixando dominar. Como era um tempo pré-kassabização da noite paulistana, a festa se estendia até as seis da manhã. Lá pelas 2h, percebi que o caminho não tinha volta. E dancei, às vezes com os braços erguidos, ao som de “Deixa Eu Dizer”, “Não Adianta” e “Kid Brilhantina” (se você não conhece essas músicas, os vídeos com elas estão mais abaixo).

A regra é Clara… Nunes

Já na manhã do dia 26, saí de lá feliz. Assoviando várias das músicas que rolaram durante a festa e, ainda resistindo para descolonizar de vez meus ouvidos, me perguntava: “Pode isso, Arnaldo?”. E a resposta vinha no momento seguinte. Lógico que pode. A regra é Clara… Nunes!!!

Completamente arrebatado, virei habitué. Aquela junção de preço honesto, prédio histórico, povo inteligente e música pra pular fez de mim um ser agonizante, durante o espaço de 14 dias que separava uma edição da outra. Naquelas noites de sábado no Copan, fiz amizades que vão atravessar a eternidade, recebi e ofereci sessões gratuitas de terapia, vi famílias se formarem, dei alguns PTs e tive a felicidade de conquistar alguns crushes.

Esse é outro aspecto fundamental da noite sambacanense. Os desfechos amorosos sempre foram a consequência e nunca a causa que motivava as pessoas a irem à festa. O jogo era pautado pela elegância. Começava com um cruzar de olhares na pista, um papo bacana no balcão, cantar junto algumas das músicas, até que tomava conta do par recém-formado uma irrefreável disposição para, de comum acordo, fazer o dia nascer feliz ao lado de alguém que comunga do mesmo credo.

Ao notar a minha empolgação e assiduidade, lá pela décima edição da festa, Israel do Vale, o criador, me intimou: “Pô, Edsão, por que você não põe uns discos pra girar aqui?”. Nunca tinha pensado na hipótese pelo simples fato de eu não ter um arsenal decente de música brasileira dançante. Os músicos nacionais que eu mais admirava eram para ser ouvidos sentado na poltrona. Não iria conseguir movimentar a pista tocando Ivan Lins, Edu Lobo ou Hermeto Paschoal.

Mas não fugi do desafio.

Passei duas semanas visitando as lojas das grandes galerias e tirando poeira do acervo familiar. Adquiri coletâneas, trilhas nacionais de novela e alguns discos de gente que eu ouvira na festa. Fui todo confiante para dividir a noite com outro DJ. A festa durava cerca de oito horas. Minha coleção mal deu para duas. Fingindo felicidade, vi o outro DJ levantar a galera por um tempo que era para ter sido meu.

Ao sair de lá, com os meus disquinhos debaixo do braço, tinha uma decisão a tomar: me conformar com a condição de frequentador ou me armar para animar maratonas dançantes que durassem dias. Escolhi o segundo caminho e virei colecionador de música brasileira. Surpreso, constato que hoje tenho mais discos do Martinho da Vila do que dos Beatles e dos Rolling Stones. Somados!

DJ Franco em ação

Foram muitas as vezes que pus o povo pra dançar no SambaCana. Tive a honra e privilégio de dividir a noite com BiD, DJ Tudo, BNegão, Mattoli, Tony Hits, Dony Dancer, Theo Werneck e mais um monte de gente que admiro. Virei o DJ Franco.

Vi a festa crescer, ganhar corpo, virar semanal e atrair gente famosa.

Uma dessas pessoas era a Ana Paula Arósio, que chegou a discotecar em algumas ocasiões. Ela deu uma entrevista para a Veja SP e disse que o SambaCana era uma de suas baladas preferidas na cidade. Foi lindo. A festa cresceu mais ainda, mas teve como efeito colateral a profusão de gente que entrava na festa sem entender qual era a proposta. Com paciência e simpatia, tínhamos que responder educadamente a questões como “Vocês não tocam tecno?” ou “Só tem pagode aí?”.

Com o tilintar cada vez mais frequente das caixas registradoras, os donos do Sapori quiseram rever um acordo que era bom para todos. A coisa ficou draconiana demais, e a festa foi suspensa por um tempo. Renasceu na Barra Funda, num espaço chamado Livraria da Esquina. Foram noites felizes e irregulares. A magia do Copan fazia falta. A festa ficou de molho novamente quando o Israel do Vale resolveu ir ser pai da Clarice em Belo Horizonte. Ficamos, acreditava eu, definitivamente órfãos.

Mas a festa voltou há um ano. E hoje ocupa o mesmo lugar onde nasceu, o mezanino do Copan. Se você chegou até aqui no texto, merece saber que a próxima edição é no sábado, dia 7 de abril. Merece saber também que, na ocasião, vou comemorar o meu aniversário. Considere-se convidadíssima(o). Espero o seu abraço lá.

Depois das três músicas que prometi parágrafos acima, você encontra o convite completinho.

As canções

“Deixa Eu Dizer”, Claudia

https://home/wp_wm9wu9/avidanocentro.com.br.youtube.com/watch?v=sUFOF7GCfSg

“Não Adianta”, Trio Mocotó

https://home/wp_wm9wu9/avidanocentro.com.br.youtube.com/watch?v=lUup5aMlZFs

“Kid Brilhantina”, Branca Di Neve

https://home/wp_wm9wu9/avidanocentro.com.br.youtube.com/watch?v=AE_7uv3IYQ0

O convite

Eis a convocação oficial para a festa, sempre no texto delicioso do irmão Israel do Vale, o criador do SambaCana:

“O samba-rock foi a principal fonte de inspiração do SamBaCana Groove em 2004 –e fez do projeto nascido (e ainda realizado) no Edifício Copan um dos primeiros na pauliceia a celebrar o suingue fora dos circuitos tradicionais dos nossos mestres, que desde os anos 70 faziam os casais de pés-de-valsa trançarem as pernas e desatarem os nós nos braços enquanto rodopiavam pelos salões dos bailes black, na periferia ou do centro.

Pois a próxima festa, dia 7 de abril, relembra os primórdios do projeto, com um set especial focado em nomes como Jorge Ben, Branca Di Neve, Marku Ribas, Erasmo Carlos, Bebeto, Trio Mocotó e tantos outros craques.

Pra ajudar a programar o fuzuê [e a não perder o bonde samba-roqueiro], o lainapi da vez tá organizadinho assim, ó:”

19h às 21h
dj anônimo [lounge é um lugar que não existe]
21h às 22h
DJ Fernandão Abreu [suingue rebolativo]
22h às 22h30
dj anônimo [sambatuques & sambalanços]
22h30 às 23h30
DJ FRANCO [samba-rock na veia!]
23h30 à 1h
DUELO DE DEJOTAS [ou ninguém é de ninguém]

SERVIÇO

  • O quê? SamBaCana Groove • Especial Samba-rock
  • Quando? Sábado, 7 de abril, das 19h à 1h
  • Onde? Mezanino do restaurante Varanda Copan (Av. Ipiranga, 200, tel. 3120-4442)
  • Quanto? R$ 15 (na venda antecipada, aqui neste link): e R$ 30 [na hora]

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