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“A diversidade é a riqueza do Centro de São Paulo”, diz gerente regional do Sebrae

Entenda por que o Escritório Regional (ER) Capital Centro do Sebrae-SP levou sua sede para a Rua 24 de Maio, no Centro, onde está um dos berços da cultura empreendedora do Brasil. Leia a entrevista e saiba como a unidade ajuda os empreendedores, muitos deles da área cultural

Por Clayton Melo

Ao transferir sua sede para o número 32 da Rua 24 de Maio, pertinho do Teatro Municipal, do Sesc e da Galeria do Rock, o Escritório Regional (ER) Capital Centro do Sebrae-SP teve uma surpresa: uma quantidade expressiva de artistas passou a ir ao balcão de atendimento em busca de informações sobre como montar um negócio.

Músicos e grafiteiros, entre outros, chegam todos os dias ao Sebrae com o plano de transformar sua atividade em um empreendimento de fato. “Isso deve ocorrer muito provavelmente por estarmos ao lado do Sesc, do Teatro Municipal, da Praça das Artes e de outros aparelhos culturais do entorno”, afirma Alexandre Nunes Robazza, gerente do Escritório Regional (ER) Capital Centro do Sebrae, cujo espaço na 24 de Maio abriu no dia 5 de março. “É surpreendente não só por atendermos de três a quatro artistas por dia, mas também pelo fato de eles terem um olhar para o empreendedorismo, de quererem transformar a arte num negócio. Isso é muito interessante”, diz ao A Vida no Centro.

Outra característica da região destacada por Alexandre é a diversidade. “Diversidade: de pessoas, interesses, renda. Aqui existe restaurante cujo almoço custa sete reais e outros que chegam a duzentos reais. E esses públicos, tão diferentes um do outro, aqui no Centro aprenderam a conviver. Essa é a riqueza do Centro”, diz ele.

O escritório regional Centro do Sebrae-SP

O novo espaço está próximo às estações São Bento, Anhangabaú e República do metrô, bem no coração de São Paulo, numa região onde existem cerca de 180 mil empreendedores, segundo o Sebrae –  a sede anterior ficava na Liberdade. Centralizado e com acesso facilitado, o novo escritório funciona em um prédio próprio, adaptado para ser um centro de atendimento a empreendedores de pequenos negócios, do salão de beleza e barbearia a bares, restaurantes, lojas de roupas e eletrônicos, entre outros.

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No local, os donos ou futuros donos de negócios têm à disposição, gratuitamente e sem necessidade de agendamento, diversos serviços, como a formalização de Microempreendedor Individual (MEI), consultorias e cursos de gestão. A unidade também terá uma incubadora de startups e espaço para networking.

O Escritório Regional (ER) Capital Centro, como o próprio nome indica, já atendia a empreendedores da zona central. Mas a vinda para o miolo fervilhante da região, com uma atividade comercial intensa e diversificada, tem uma importância especial. “Aqui está o movimento empreendedor que se confunde com o progresso do país”, diz. “Aqui talvez seja o berço da cultura empreendedora do Brasil.”

Visão positiva do Centro

Além disso, a chegada do Sebrae transforma a 24 de Maio numa espécie de rua do “S, pois lá também estão o Sesc e o Senac. Isso aumenta o fluxo de pessoas na região, inclusive à noite, contribuindo para a segurança. “No começo, baseado na imagem que tínhamos daqui, programamos pouca coisa noturna. Mas o próprio comerciante está nos exigindo isso. Então já estamos ampliando a oferta de cursos à noite. Esse é um exemplo do nosso papel de resistir, de entender que precisamos garantir esse movimento também à noite”, afirma. “E posso te dizer: estamos tendo muito sucesso. Estamos recebendo um movimento de grande demanda, interesse e curiosidade”.

A presença diária no novo endereço permite sentir, mais de perto, algo que Alexandre e o Sebrae conhecem bem: que a vida pulsa no Centro, seja com novos negócios, seja com cultura e lazer, algo que costuma ficar ofuscado por uma visão excessivamente negativa da região, algo que não condiz mais com a realidade. “Temos esse papel de mostrar o lado positivo para contrabalançar a questão das notícias negativas. Porque a realidade do dia a dia é de coisas boas acontecendo no Centro, não de ruins.”

Veja abaixo entrevista com Alexandre Nunes Robazza, do Sebrae-SP:

Qual o perfil exato dos empreendedores do Centro de São Paulo?

Atendemos a uma diversidade muito grande. Não filtramos isso. No balcão, atendemos, por exemplo, artistas que querem transformar a sua arte em negócio e também grafiteiros, talvez até pela proximidade da Galeria do Rock.  Uma característica marcante na região é a forte presença dos varejistas de moda, salões de beleza e bares e restaurantes. Mas atendemos a região central toda. Temos também grupos de oficina mecânicas, artesãos, padeiros. Nosso trabalho é muito diversificado. Mas sem dúvida alguma a vocação maior está no varejo de moda, alimentação e beleza.

O que mais chamou a atenção do Sebrae nesse período de funcionamento do escritório regional na rua 24 de Maio?   

Já atuávamos no Centro. Portanto, já conhecíamos o perfil do empreendedor daqui. Mas uma surpresa para nós foi a quantidade de artistas que nos procuram no balcão, pelo menos nesse primeiro momento. Isso deve ocorrer muito provavelmente por estarmos ao lado do Sesc, do Teatro Municipal, Praça das Artes e outros aparelhos culturais do entorno. É surpreendente, não só por atendermos de 3 a 4 artistas por dia, mas também pelo fato de eles terem o olhar para o empreendedorismo, de quererem transformar a arte num negócio. Isso é muito interessante. Mas, no geral, o perfil é o mesmo daquele que atendíamos quando o escritório ficava na Liberdade.

O Centro de São Paulo tem um histórico de empreendedorismo, que vem do começo do século passado. Como você avalia o movimento empreendedor hoje na região?

Temos a crença, no Sebrae, de que quem gera a riqueza para uma cidade, Estado ou País é o empreendedor. É ele quem tem a capacidade de transformar x em 2x, ele gera valor. É só ele que consegue fazer isso, e o faz colocando em risco o próprio patrimônio. A partir daí ele gera emprego, impostos, renda e assim a economia se movimenta. Um país forte é um país que tem o empresário forte. E o Centro de São Paulo é onde há a maior concentração de empreendedores por metro quadrado do país. Sem dúvida é aqui nesta região que está a história empreendedora do Brasil. Aqui está o movimento empreendedor que se confunde com o progresso do país. Nas esquinas do entorno do nosso escritório surgiram grandes empresas. Aqui talvez seja o berço da cultura empreendedora do Brasil.

Aqui ficavam, por exemplo, as sedes dos bancos…

E também famílias de alfaiates, padeiros, é o berço da formação de negócios, especialmente dos pequenos negócios, muitos dos quais depois cresceram e se expandiram para outras partes do País.

O movimento de startups é muito forte na cidade de São Paulo. Como o Sebrae atua nesse setor? 

Não sei se entramos atrasados nesse movimento, mas hoje somos muito fortes nessa área. É claro que não dá para comparar com o Vale do Silício. Há um movimento muito forte no Brasil, especialmente na capital paulista. Há várias aceleradoras, empresas investidoras e o próprio Sebrae, que tem uma incubadora e um programa permanente de startups, com atuação em vários lugares do Estado. Hoje, só no Centro temos três aparelhos do Sebrae. Um deles é a Escola de Negócios, que tem uma incubadora para ajudar os empreendedores na fase de ideação. As startups ficam incubadas seis meses e passam por um processo de capacitação, com mentores, investidores e consultores. Aqui no Escritório Regional temos um espaço voltado a startups que estão na fase de validação – com o desenvolvimento de um mínimo produto viável, com prototipação. E acabou de ser inaugurado o centro de empreendedorismo no Palácio Campos Elíseos. É um local voltado à tecnologia, inovação e economia criativa. E olha que falamos aqui de apenas três prédios do Sebrae no Centro que estão envolvidos no desenvolvimento de startups.

Como vai funcionar a incubadora de startups do Escritório Regional do Centro?

Temos um espaço capaz de receber 12 posições. Vamos testar algumas possibilidades de programas de startups. Acreditamos que, independentemente de a startup ficar aqui o dia inteiro, parte do dia ou utilizar o espaço apenas como uma referência, o jeito que o Sebrae pode agregar valor aos empreendedores é por meio de um programa estruturado de capacitação e consultoria. Normalmente fazemos isso com um programa de atividades previamente definido. As startups, que serão escolhidas por meio de um edital público, vão atender a esse programa. Receberão mentoria de finanças, marketing, visita técnica, participarão em rodadas de negócios, pitches. Podemos pegar startups na fase de ideação, mas também outros perfis de empresas. No Centro, por exemplo, existe um número enorme de varejistas que têm lojas físicas. Uma possibilidade é selecionarmos 12 desses varejistas que queiram criar seu comércio eletrônico. Então eles vão passar de quatro a seis meses recebendo acompanhamento, tendo esse espaço do Sebrae como seu QG para o desenvolvimento do projeto. Portanto, podemos trabalhar com startups de fato ou com empresas que queiram desenvolver projetos pontuais. A incubação deve começar no segundo semestre deste ano. Para se inscrever, é só entrar no nosso site e procurar pelo Escritório Regional Centro. Ou no balcão de atendimento aqui mesmo.

Que recomendação você daria aos empreendedores que atuam no Centro de São Paulo? 

O principal problema que atrapalha o empreendedor é a falta de capacidade de gestão. Ele costuma ser muito bom no que faz – na preparação de um lanche, de uma peça de roupa, marcenaria etc -, mas muitas vezes ele se esquece que, quando abre as portas, passa a ter um negócio. Vai precisar saber controlar o dinheiro, planejar o desenvolvimento da empresa, estar aberto à inovação, conversar com o cliente, medir satisfação, lidar com pessoas e fazer comunicação. Esses fatores, se não forem bem trabalhados, podem matar um negócio. Esse é o principal motivo para o fechamento das empresas.

A tecnologia vem transformando radicalmente o comércio tradicional. Sobre esse tema, quais orientações para os lojistas?   

É preciso olhar o cenário. A economia está sendo muito impactada pela tecnologia, especialmente pela internet. Estamos entrando na área da Inteligência Artificial, já estamos na era do Omnichannel, que é a transferência do poder de compra para o consumidor – é ele quem escolhe em que canal deseja comprar. Compara as lojas físicas, para saber onde adquirir um secador de cabelo, por exemplo, mas também busca opções na internet, às vezes da mesma loja. Quem decide o jeito de comprar? É o consumidor. Os lojistas têm de estar atentos a esse movimento, devem ter consciência do seu modelo de negócio e verificar se o cliente dele também está exigindo uma diversidade de canais. Também é preciso ter uma presença virtual, se comunicar eletronicamente de forma adequada com o consumidor. Hoje o principal canal de comunicação – também para os negócios – é o WhatsApp. Isso dá algum trabalho para o empreendedor, mas é necessário.

Qual sua visão sobre o Centro de São Paulo hoje e o papel do Sebrae na região?

A principal característica do Centro – e acho que isso não deve mudar nas próximas décadas – é a diversidade: de pessoas, interesses, renda. Aqui existe restaurante cujo almoço custa sete reais e outros que chegam a duzentos reais. E esses públicos, tão diferentes um do outro, aqui no Centro aprenderam a conviver. Essa é a riqueza do Centro. É necessário entender essa diversidade e, do ponto de vista de marketing, se colocar a partir dessa diversidade. Existem desafios de segurança, mas há muito exagero em relação à imagem que se faz do Centro. Há morador de rua, problemas de segurança, mas a percepção disso às vezes é exagerada. Aqui existe uma riqueza de serviços, comércios e outras coisas atrativas.

Essa imagem negativa do Centro é fruto de uma realidade do passado. Como mudar essa percepção?      

Vou dar um exemplo do que acontece: atendemos aqui, por dia, de 100 a 200 pessoas, dependendo dos cursos e palestras. São pelo menos 100 empreendedores que estão investindo seu tempo, aprendendo a fazer coisas. Isso não é notícia. Mas se tem um furto de celular no Centro, isso cresce, vira notícia. A mídia dá mais espaço para o que é fora do normal. Mas esquecemos de mostrar as coisas boas que acontecem de forma permanente aqui no Centro. Temos esse papel de vender o lado positivo para contrabalançar a questão das notícias negativas. Porque a realidade do dia a dia é de coisas boas acontecendo no Centro, não de ruins. Há um sistema produtivo, muitas pessoas trabalhando. Num contexto de milhões de pessoas que circulam na região por dia, há meia dúzia de furtos de celular. Então nos concentramos nos seis furtos, e não em todos os projetos que as pessoas desenvolvem. Há poucos dias mesmo eu fui à abertura de um negócio  novo, aqui na esquina da Barão de Itapetininga com a Dom José Gaspar, super bem estruturado, que está gerando emprego e mudando um modelo de negócio que já existe, que é a venda de lanche grego. Isso é agregar valor. Essa é a notícia que a gente tem de dar, não a de alguém que furta um celular, embora essa seja a nossa realidade também. O Sebrae e as outras instituições que aqui estão têm esse papel de resistência, de mostrar o lado positivo. Claro, a gente gera tráfego positivo para cá, traz empreendedores de outras regiões para circular aqui. Temos de manter a resistência e continuar oferecendo cursos, atendimento, porque se ficar pensando “ah, é inseguro”, então daqui a pouco não tem ninguém aberto mais. Temos a obrigação de ficar de portas abertas. E posso te dizer: estamos tendo muito sucesso. Estamos recebendo um movimento de grande demanda, interesse e curiosidade.

Você havia comentado em outra oportunidade que estava estudando  ampliar o horário de funcionamento do escritório regional para que pudesse haver atividades noturnas. Isso já foi feito?
Sim. Trabalhamos com coletivos de manhã, tarde e noite. No começo, baseado na imagem que tínhamos daqui, programamos pouca coisa noturna. Mas o próprio comerciante está nos exigindo isso. Então já estamos ampliando a oferta de cursos à noite. Esse é um exemplo daquilo que eu falava do nosso papel de resistir, de entender que precisamos garantir esse movimento também à noite.

Numa outra conversa que tivemos, você brincou que a 24 de Maio agora é a rua do “S”, com Sebrae, Sesc e Senac. O que isso representa no processo de retomada do Centro?

Hoje, num espaço de 50 metros, há 3 aparelhos do sistema S. Quem me lembrou disso foi o Paulo [Paulo Casale, gerente-geral do Sesc 24 de Maio]. Com isso, temos mais possibilidade de abrir nossos serviços para a comunidade, porque todos nós somos empresas de conhecimento. O fato dos “S” estarem aqui significa mais conhecimento oferecido à população, seja ela empreendedora, artista ou consumidora.

A presença dessas três instituições, com atividades até mais tarde, pode estimular a formação de uma economia noturna nesse trecho do Centro, algo que teria efeitos diretamente sobre a questão de segurança?

Não tenha dúvidas disso. O Sesc, por exemplo, tem o teatro começando às 21h, a gente faz cursos das 18h à meia-noite, o Senac já tem uma programação de cursos que termina às 22h. E várias outras empresas daqui têm turnos à noite. É o caso das companhias de telemarketing, o Shopping Light, que vai até 22h, além das lojas de rua que ficam até às 21h. Se tiver público passando na porta, o lojista vai querer aproveitar o fluxo e ficar até mais tarde. Temos de ter a responsabilidade de também de colaborar com a geração desse tráfego.