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A Vida no Centro

Recuperação do centro começa por deixá-lo atrativo para quem anda a pé, diz vereador Police Neto, autor do Estatuto do Pedestre

Autor do Estatuto do Pedestre e um dos articuladores para a criação do Parque Minhocão, José Police Neto defende mais cuidados com as calçadas para estimular a locomoção a pé no centro

Por Denize Bacoccina e Clayton Melo

Autor do projeto que criou o Estatuto do Pedestre e um dos articuladores do projeto que vai criar o Parque Minhocão, o vereador José Police Neto é um entusiasta do centro de São Paulo, por onde circula bastante a pé ou pedalando sua bicicleta. Aos 43 anos, Police está em seu terceiro mandato como vereador – depois de uma carreira que começou aos 16 anos nos bastidores da política, em cargos técnicos como assessor parlamentar, chefe de gabinete da liderança do governo Mário Covas na Assembleia Legislativa de São Paulo. Foi também secretário municipal de participação e parceria e líder na Câmara dos Vereadores na gestão de Gilberto Kassab, quando ainda estava no PSDB. Atualmente, está no PSD.

Police conversou com A Vida no Centro sobre o Estatuto do Pedestre, que está em fase de regulamentação e prevê recursos do Fundo de Desenvolvimento Urbano (Fundurb) para melhoria de calçadas. Ele também comenta as tentativas de fechamento de espaços públicos, defendidas por alguns grupos, e que já resultou na proibição de usar a Praça Roosevelt para qualquer tipo de evento.

A Vida no Centro – São Paulo vive hoje num embate. Durante um bom tempo vigorou uma tendência de uma cidade mais aberta, mas parece que isso hoje corre um risco. Qual é a sua visão?

José Police Neto – Eu acho que só vamos ter uma cidade de fato desejada pelas pessoas se o centro voltar a ter a pulsação e a vibração que o torne atrativo. Tem algo no centro que transpira cultura, transpira arte, gastronomia. Mais do que tudo, é um lugar que tem vibração 24 horas por dia. Não dá para imaginar um centro que se apaga quando chega 19h30, 20h. Esse centro tem que ser desejado pelos 12 milhões de moradores da cidade, 200 milhões do país e outros do mundo, que enxerguem a altíssima gastronomia que tem na região, os prédios históricos. A cidade só pode ter qualidade da vida se houver qualidade no ponto central. E que hoje não tem. A recuperação do centro começa por deixá-lo atrativo para o passeio a pé das pessoas. Só será possível recuperar o centro se as pessoas se encantarem em andar 8, 10, 12 quadras. Alguém que desembarca na Luz, na Sé, mas se dispõe a andar a pé até o Mercadão, por exemplo.

Hoje isso é difícil, porque as calçadas são muito ruins.

São ruins. Tem muito lixo, muito resto de construção. O centro parece inacabado, parece que está faltando alguma coisa. E isso convida a não ter zelo. Então a gente não tem zelo pela nossa praça central, o marco zero, pela Praça da República, que simboliza a arte, que acomodou os principais artistas plásticos durante o século passado inteiro. Temos o corredor do Bixiga que sempre revelou a capacidade musical do nosso povo e hoje não consegue mais fazer isso. Eu estou convencido que quanto mais a gente oferecer calçadas seguras, iluminadas e convidativas, as pessoas voltarão a acreditar que o centro tem essa energia. Complementado por novas famílias moradoras do centro. Jovens casais, que se encantam com essa vida boêmia que o centro sempre ofereceu, com a segurança.

O centro é um lugar seguro?

É o lugar mais seguro de São Paulo. Tanto que as pessoas dormem na rua. Não que elas devam morar no centro, mas se tem um lugar seguro é a região central. E isso é um modelo para investimento. Seja do Valter Mancini, que criou um modelo para a classe média alta (Rua Avanhandava), mas também um Satyros (teatro, na Praça Roosevelt) que traz um público completamente diferente. O centro é território para encontro de todos. Tem as melhores universidades – Largo do São Francisco, Mackenzie, FAU-Usp, Santa Casa, Escola da Cidade – os melhores equipamentos de cultura, os melhores equipamentos educacionais. O Caetano de Campos, na Praça da República, poderia voltar a ter professores, para trazer uma nova energia à praça, em vez de ficar só com os burocratas da educação. O investimento privado já está lá, com a padaria e o rooftop do Olivier Anquier. A Janaina e o Jefferson Rueda com casa reconhecidas internacionalmente no centro (Bar da Dona Onça e Casa do Porco), tem o Terraço Itália. Tem a vibração da Santa Cecília, o Campos Elíseos ressurgindo com o projeto de recuperação de 100% de suas calçadas (projeto da Associação Campos Elíseos). Tem o Bom Retiro, agora com todos os imigrantes convivendo sem problemas.

Ao mesmo tempo, na Praça Roosevelt, que nos últimos anos ficou consolidado como um território aberto, existe uma tentativa de fechar, inclusive com a proibição de qualquer evento, em qualquer horário. Como você vê isso?

Dois erros. Primeiro de alguém achar que pode fechar a praça. A praça é do povo como o céu é do condor. Cercar a praça, limitar acesso, é para quem não acredita na força do diálogo e na força da democracia. É para aqueles que querem Estados totalitários. Essa leitura sempre volta, um excesso de conservadorismo, de tentativas de retaliação. O Minhocão é um exemplo disso. As pessoas querem fechar o Minhocão porque tem violência. Como se a cidade não fosse violenta como um todo. E continuo a dizer: a região central de São Paulo é a mais segura da cidade. É onde tem o menor volume de assassinatos, de latrocínios. Pode ter alguns conflitos urbanos, entre os que acham que dá para morar no centro e ouvir o ronco do bugio. O que se ouve aqui é a vibração do encontro de pessoas: do skate, da bicicleta, das pessoas que se encontram no banco da praça. O que precisamos é identificar os catalisadores dessa vibração.

O poder público está fazendo que papel?

Pouco, ainda. O poder público tinha uma operação urbana centro, que tem mais de 20 anos e não conseguiu atrair investimento. Quem chegou no centro foi porque conseguiu perceber isso sozinho. Ninguém convidou esses grandes chefs. Eles foram convidados pelos frequentadores do centro.

Qual é a vocação econômica do centro?

O centro tem que ter, obrigatoriamente, uma oferta de serviços de alta capacidade intelectual: os grandes escritórios de arquitetura, grandes escritórios de advocacia, economia criativa, grandes coworkings. O centro é o ambiente da convergência desses espaços. O centro ainda pode acolher parte da nossa produção cinematográfica. Barra Funda, Campos Elíseos podem receber parte dos estúdios. A grande transformação da região central se dará com o aproveitamento pela atividade econômica de espaços já existentes. Hoje tem mais de 2 milhões de metros quadrados ociosos na região central. E mais de 800 mil metros construídos que já foram notificados pela função social da propriedade. O centro precisa de novas famílias. E tem dois públicos: os jovens casais e também os jovens aposentados, que encontram aqui uma facilidade de viver nesses novos apartamentos, menores, que convidam a uma atividade na rua. E para isso é preciso ter um bom tratamento de calçada. O centro está em processo de recuperação por causa da sociedade. Se o setor público não atrapalhar nesse momento e começar a incentivar, ajuda. Tem uma onda conservadora clássica agora, mas São Paulo sempre teve esses pêndulos. Acredito que isso passe até o fim do ano e ano que vem. Com a retomada da economia, a cidade vai voltar a revelar um centro cada vez mais vibrante. Se existem áreas ociosas no centro e se tem dinheiro para investimento no mundo, essa recuperação vai acontecer. E a melhor maneira de explorar o centro é a pé.

Como está o Estatuto do Pedestre?

Foi aprovado, sancionado e agora está na fase de regulamentação. Vamos passar a ter informações regulares sobre o movimento das principais avenidas e das principais vias de pedestres e vamos começar a modular, ajustando o fluxo onde tem mais pessoas a pé do que de carro. Um terço dos paulistanos circula exclusivamente a pé. Na região central, são mais de 70%. A pessoa chega de transporte público, majoritariamente, e circula a pé. E ao melhorar as calçadas a gente amplia a permanência no centro. Também teremos placas mostrando a distância a pé para chegar aos lugares. Precisamos também de áreas de descanso público. E usar mais as galerias nos térreos dos prédios. A Praça Roosevelt tem um papel protagonista nessa discussão da recuperação do centro pela arte. O Minhocão vai deixar de ser uma agressão, um local de passagem, e se tornar um destino no centro. Imagino o que são aqueles calçadões do centro velho quando tiver mais público à noite e nos fins de semana. O mesmo público que lota a Paulista pode lotar a nossa região central.