Parque do Bixiga já tem projeto. Veja imagens

Parque do Bixiga vai trazer o rio para a superfície e terá praças e banheiros abertos 24 horas por dia

Denize Bacoccina

Mais um parque no Centro de São Paulo. Desta vez, um parque que traz para a superfície um rio que está escondido sob terra e restos de materiais de construção.

O projeto do novo Parque do Bixiga foi anunciado nesta segunda-feira, dia 4 de maio, numa cerimônia festiva que contou com canto, dança e o borogodó do pessoal do Teatro Oficina, que há 45 anos, desde que se instalou ali do lado, luta pela transformação desse terreno num parque público.

Integrantes do Teatro Oficina, que se mobilizam há mais de 40 anos pela criação do parque

O fundador do Oficina, José Celso Martinez Correa, levou por quatro décadas essa luta, em embates com o dono anterior do terreno, Silvio Santos, e organizando eventos com a participação de artistas e representantes da população local para reivindicar a criação do parque.

Integrantes da equipe do projeto vencedor

O projeto vencedor foi apresentado pelo escritório Democratic Architects de São Paulo, um coletivo liderado por Antonio Roberto Zanolla, arquiteto, urbanista e geógrafo que nasceu no Bixiga, assim como sua mãe e avó. Ele ainda se casou na igreja da Achiropita. “É uma coisa que está em nós. Apesar de hoje morarmos na Vila Madalena, estamos aqui sempre. A São Domingos, o pão italiano. Tudo nós vivenciamos aqui. Não tem como dissociar a família, deste projeto e da região”, contou ele ao A Vida no Centro depois da cerimônia.

Parque do Rio Bixiga Foto Divulgação

Rio Bixiga

A diretriz principal do concurso era a renaturalização do Rio Bixiga, hoje escondido sob o terreno. No projeto vencedor, ele passará a correr a céu aberto e servirá também para captar água da chuva. Todo o parque servirá como uma esponja, numa região que hoje sofre com os alagamentos.

O parque será ladeado por pequenas praças, batizadas de bolsões de liberdade, na área mais próxima à rua, que ficarão abertas 24 horas (já que a legislação municipal permite que os parques sejam cercados e fechem à noite) e banheiros públicos também 24 horas.

Parque do Rio Bixiga Foto Divulgação

O filho de Antonio, Andre Enrico Cassettari Zanollandre, arquiteto, urbanista e paisagista integrante do grupo, falou sobre a importância desses espaços abertos para a rua, de forma que a população possa usufruir 24 horas por dia, sem as restrições dos parques, que podem ser cercadas e ter horário de funcionamento.

Parque do Rio Bixiga Foto Divulgação

“Nós vemos como uma pílula de esperança, para mostrar para as pessoas que é possível”, afirmou. “Um dos grandes desafios hoje em São Paulo é que parque fecha e as praças não fecham. É um parque-praça, onde as pessoas possam passar e se encontrar 24 horas. E banheiros 24 horas, que qualquer pessoa pode usar. Isso é uma parte muito importante do projeto.”

O projeto prevê uma passarela-deck, uma arquibancada-arrimo que conectará o parque criando uma plateia externa com piso de pedrisco, bosque agroecológico, mirante-arquibancada, rampa acessível, pavimentação permeável, totens informativos, áreas para banho de sol, anfiteatro aberto, espaços contemplativos para tai-chi ou yoga, área para mascotes, parquinho infantil, quadras e espaços-multiuso.

A equipe vencedora vai receber R$ 130 mil de premiação e agora vai desenvolver o projeto executivo para a implementação do parque pela Prefeitura. O prazo de inauguração ainda não foi definido, mas todo o trabalho deve demorar de dois a três anos.

O concurso foi realizado em duas etapas. Na primeira fase, cinco propostas foram selecionadas entre os inscritos. Cada equipe recebeu um prêmio de R$ 18 mil e foi convidada a aprofundar e aprimorar suas soluções para a segunda fase. A homologação do resultado está prevista para 17 de maio. 

As diretrizes que orientaram a elaboração dos projetos foram construídas a partir de estudos técnicos, consultas especializadas e do relatório das oficinas participativas realizadas com a população. Esse processo permitiu identificar tanto o desejo coletivo quanto a viabilidade técnica da renaturalização do curso d’água existente na área, incorporando ao projeto princípios contemporâneos de adaptação climática, recuperação ambiental e valorização dos rios urbanos como infraestrutura essencial para o futuro das cidades.

“O Parque do Bixiga nasce de um processo inovador, construído a partir do diálogo com a população, de estudos técnicos qualificados e de uma visão contemporânea de cidade. Esse passo reforça nosso compromisso com a adaptação climática, a recuperação ambiental e a valorização dos rios urbanos como parte essencial da infraestrutura da cidade. Esse projeto aponta para um futuro mais resiliente, sustentável e integrado ao cotidiano das pessoas”, destacou o secretário do Verde e Meio Ambiente, Wanderley Soares.

Sobre o Bixiga e o Parque Municipal

O Bixiga construiu, ao longo do tempo, uma trajetória marcada por diversidade social, resistência cultural e forte vínculo com seu território. Desde o final do século 19, a área acolheu populações negras que se estabeleceram nas proximidades do córrego Saracura, além de escravizados recém-libertos e, posteriormente, imigrantes italianos. Essa convivência deu origem a um patrimônio cultural singular, expresso tanto no conjunto arquitetônico do bairro quanto em manifestações imateriais que permanecem ativas no cotidiano local.

A área destinada ao parque esteve no centro de um longo embate político iniciado nos anos 1980, envolvendo interesses privados, a preservação da paisagem urbana da Bela Vista, a permanência do Teatro Oficina e a reivindicação por espaços públicos no centro da cidade.

Parque do Rio Bixiga Foto Divulgação

Avaliação dos jurados sobre o projeto vencedor

O projeto, apresentado como um sistema aberto, se destacou por demonstrar, com clareza, sua capacidade para acomodar futuras demandas e múltiplos usos e apropriações, sem que sua essência seja comprometida. Destaca-se ainda por sua simplicidade de execução e operação, dispensando intervenções custosas ou manutenções complexas.

Estabelece uma organização de espaços diversificados com boa articulação que se relacionam com o entorno de modo empático, criando praças de acesso – batizadas bolsões de liberdade – que permanecem abertas 24h com a oferta de sanitários públicos. A horta agroecológica, posicionada junto ao passeio da Rua Jaceguai, reforça o desejo de acolhimento e de integração com a comunidade local e valoriza este, já existente, programa enquanto presença da paisagem.

O desenho dos caminhos internos estabelece uma rede com múltiplos percursos e equaciona, de forma integrada e inclusiva, os circuitos acessíveis. A inserção das edificações é discreta e contribui para o bom aproveitamento das áreas livres do Parque.

O Teatro Oficina se integra ao Parque ao mesmo tempo que mantém preservado o espaço necessário para a realização de suas atividades. O tratamento e o desenho do córrego renaturalizado assumem o protagonismo do lugar e proporcionam, por meio de passeios e passarelas, maneiras distintas e múltiplas de aproximação à água e espaços que acolhem a fruição da paisagem nos distintos ciclos da natureza. A vegetação proposta é generosa e encarada como elemento estruturante do projeto, organizando e definindo a ambiência do Parque.

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