No Dia do Escritor, uma caminhada para ler São Paulo com os pés
Uma caminhada por pontos no Centro de São Paulo que foram eternizados pela ação de escritores
Wans Spiess
A literatura tem a capacidade rara de preservar aquilo que o tempo insiste em apagar. Um prédio pode desaparecer, um café fechar as portas, uma praça mudar completamente de aparência. Mas, quando um escritor transforma um lugar em narrativa, ele passa a existir também na memória.
É essa ideia que inspira a próxima edição do Ruas & Histórias, que acontece no dia 25 de julho, em homenagem ao Dia do Escritor.
Depois de caminharmos pelos edifícios de Ramos de Azevedo, pela São Paulo modernista de Miss Cyclone e pelas obras do italiano Giulio Micheli, desta vez o convite é outro: descobrir como o Centro de São Paulo ajudou a construir uma das mais importantes tradições literárias do país.
Antes de existir uma literatura paulista, havia uma cidade aprendendo a escrever
Pouca gente imagina que essa história começa no Pátio do Colégio, onde jesuítas registravam cartas, mapas, sermões e relatos que ajudaram a documentar os primeiros anos da Vila de São Paulo. Naquele tempo, a língua mais falada nem era o português, mas a Língua Geral Paulista, derivada principalmente do tupi, que durante séculos organizou a comunicação entre indígenas, colonizadores e bandeirantes.
Também é desse período uma curiosidade que sempre surpreende: durante muito tempo, havia apenas um livro não religioso circulando na vila — Os Lusíadas, de Luís de Camões. A partir dali, começa uma longa trajetória que faria do Centro de São Paulo um dos maiores polos editoriais e intelectuais do Brasil.
Quando os escritores caminhavam pelas mesmas ruas
Ao longo do percurso, a literatura deixa de ser apenas livro para ganhar endereço.
Passaremos pelos lugares onde Monteiro Lobato ajudou a revolucionar o mercado editorial brasileiro; pelas Arcadas da Faculdade de Direito, que formaram escritores como Álvares de Azevedo, Castro Alves, Fagundes Varela e Lygia Fagundes Telles; pela antiga Livraria Garraux, ponto de encontro de intelectuais; pelos cafés onde escritores discutiam política, arte e literatura; e pelos endereços onde nasceram jornais, revistas e ideias que ajudaram a construir a identidade cultural da cidade.
Em poucas quadras, o Centro reúne uma concentração impressionante de histórias.
Caminhar também é uma forma de leitura
Quem já participou de uma caminhada do Ruas & Histórias sabe que elas nunca são apenas sobre datas, formas ou biografias. São também um exercício de imaginação.
Quando escutamos uma história exatamente no lugar onde ela aconteceu, a cidade muda de escala. Uma esquina deixa de ser apenas esquina. Um edifício deixa de ser somente fachada. As ruas passam a funcionar como páginas abertas, onde arquitetura, literatura e memória se misturam.
Talvez seja por isso que tanta gente tenha escolhido caminhar conosco nos últimos meses. Reunimos mais de 3.000 no nosso grupo de WhatsApp.
Um movimento que continua crescendo
A cada edição, percebemos que o Ruas & Histórias deixou de ser apenas uma série de caminhadas. Transformou-se em uma comunidade de pessoas curiosas, interessadas em descobrir São Paulo por meio de diferentes narrativas.
Mudam os temas. Permanece o mesmo convite: caminhar juntos.
Porque toda cidade pode ser lida, mas ela só se revela quando diminuímos o passo.
Serviço
Caminhada Literária — Dos Lusíadas à Pauliceia Desvairada
25 de julho, sábado, das 10h às 12h30
Início: Pátio do Colégio / Fim: Teatro Municipal
Caminhada gratuita
Não é necessária inscrição prévia
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