A fábula da Times Square Paulistana

Criar painéis de LED e dizer que vai atrair turistas é como prometer “alimentação saudável” e entregar uma latinha de refrigerante

Lincoln Paiva

Há três tipos de relação com as consequências dos atos. A criança, cuja capacidade cognitiva ainda se forma, age sem compreender o resultado de suas ações. Sua irresponsabilidade é estrutural, não moral. O adulto incauto, porém, possui as ferramentas do entendimento, mas abdica delas. Delega a terceiros a tarefa de pensar por si. Quando o resultado é ruim, sente-se traído, nunca responsável. E há o terceiro tipo: aquele que compreende perfeitamente as consequências e lucra com a incapacidade alheia, usando o incauto como instrumento para alcançar seus objetivos, sem jamais se sentir culpado pela ignorância que explora.

A cidade de São Paulo está próxima de receber um caso paradigmático dessa dinâmica. Batizado de Eixo São João, Boulevard São Paulo e apelidado de “Times Square Paulistana”, o projeto prevê a instalação de painéis de LED no cruzamento das avenidas Ipiranga e São João. O nome evoca Nova York: milhões de turistas, marcas globais, o coração pulsante do capitalismo cultural. A promessa é clara: faça igual, colha igual. Mas há um detalhe inquietante. Na “Times Square” original, os telões exibem publicidade comercial. Empresas pagam fortunas por exposição. Na versão paulistana, a legislação paulistana impede anúncios. Os painéis serão reservados para “arte digital” e eventos culturais. Copiam-se as luzes, exclui-se o combustível econômico que as mantém acesas.

A contradição não para por aí. Enquanto promove esse “polo turístico”, a prefeitura investe em programas de retrofit para transformar a mesma região em área residencial. O objetivo é “povoar o centro”, criar “dinâmica de bairro”, resolver o deserto urbano noturno. Mas uma Times Square pressupõe movimento intenso, ruído, fluxo turístico massivo. Quer-se atrair moradores para conviver com distrito de entretenimento, porém sem os teatros, cinemas ou atrações noturnas que justifiquem o modelo.

A Avenida São João é predominantemente residencial. A Times Square é comercial e turística. Aquela parte do centro de São Paulo tem pouquíssima infraestrutura de lazer noturno. Manhattan tem o distrito dos teatros. E o dado mais incômodo: Times Square opera em um contexto de queda histórica do crime, resultado de décadas de investimento em policiamento e reurbanização. Importar o modelo sem importar o processo — e sem reconhecer que nosso centro também está em recuperação, ainda que frágil — é ignorar que a segurança é construída, não comprada em pacote de LED.  Importaremos mais problemas, ignorando as soluções que precisamos?

Aqui entra o adulto incauto. O eleitor que ouve “Times Square” e imagina prosperidade sem perguntar: “Como funciona lá? Nossas condições são equivalentes?” Quando o centro continuar vazio à noite, quando os turistas não aparecerem, quando a “dinâmica de bairro” falhar, se sentirá traído. Mas não se reconhecerá coautor do fracasso por não ter exigido coerência entre projetos concorrentes da mesma gestão. Povoar o centro faz sentido para reabilitação do centro, mas transformá-lo numa “Time Square” espantará possíveis moradores e os que ainda residem por lá.

E o terceiro ator? Aquele que propõe sabe que a comparação é falha. Sabe que a legislação impede a versão comercial, que o centro carece de teatros, que o retrofit entra em conflito com o polo turístico ruidoso. Mas utiliza a sedução pelo nome glamouroso, a preguiça de verificar diferenças estruturais, para aprovar projeto que gera visibilidade imediata e narrativa de modernização. Não se sente responsável pelo descuido alheio. A lógica do sistema lucra com ela.

Os painéis serão financiados por empresas privadas em troca da concessão do espaço público para “eventos culturais”. Que eventos? A promessa evoca teatros, cinemas, manifestações artísticas diversas. Mas a maioria das instituições culturais tradicionais, aquelas que justificam o nome Times Square em Nova York, não operam no mesmo formato em São Paulo. A cidade está longe de ser uma Broadway ou se tornar uma numa “canetada”.

Projeção de como ficaria a esquina da Ipiranga com a São João com os letreiros Montagem: Secom

O problema está no contrato verbal: oferecer “cultura” e entregar painéis de Led vendendo publicidade é como prometer “alimentação saudável” e entregar refrigerante. Tecnicamente, não se mente, mas desvirtua-se completamente a expectativa criada. A categoria ampla serve para encobrir a ausência do que efetivamente constitui a Times Square original: um ecossistema de artes cênicas, exibição cinematográfica, produção cultural diversificada. Sem isso, os telões iluminarão o vazio que os projetos concorrentes da própria gestão tentam, justamente, combater. Não há “voltar atrás”. A parceria terá duração inicial de três anos. Recursos alocados, expectativas criadas. Quando a contradição se revelar, será tarde demais para o retrofit residencial que poderia transformar o centro em cidade. O prejuízo não será apenas financeiro, mas de oportunidade: o tempo perdido com soluções que ignoram a especificidade do lugar.

Para evitar mal-entendidos: não critico quem investe no centro, quem abre um estabelecimento ou quem aprova projeto com boas intenções. Mas preciso apontar a armadilha estrutural que nos faz técnicos, empresários, moradores, eleitores, agirmos como adultos incautos, repetindo fórmulas alheias enquanto ignoramos o que nossa rua, nosso bairro, nossas cidades realmente precisam.

A criança não pode ser culpada. O adulto incauto possui a capacidade e se recusa a exercitá-la. O terceiro ator conta com essa recusa. A fábula da Times Square Paulistana ensina algo sobre democracia urbana: a responsabilidade exige esforço cognitivo. Quando abdicamos dele, não somos apenas vítimas de promessas vazias. Somos cúmplices, pelo silêncio, da paisagem que herdaremos.

Lincoln Paiva é especialista em gestão de cidades Poli/USP e mestre e doutor em Arquitetura e Urbanismo.