No dia 18 de outubro, último domingo antes do segundo turno das eleições, a Rua do Samba, na Barra Funda, receberá mais um evento popular — a edição especial Cartografias de Bamba, cultura, memória e cuidado que une música, cultura e ancestralidade para abordar assuntos sensíveis como política de drogas e direitos humanos, cuidado e redução de danos, fruto da parceria com o Cais INFluxo, liderado pela Iniciativa Negra, Pagode na Lata e Coletivo Tem Sentimento. As entidades uniram suas tecnologias sociais para reorganizar e fortalecer as dinâmicas de cuidado no território.
O programa do dia 18 prevê defumação da Rua do Samba da Barra Funda e uma edição especial do Sarau no Kintal, idealizado pelo poeta Akins Kintê com a participação do escritor Hamilton Borges. Haverá ainda rodas de conversa sobre a história da política dos Centros de Acesso a Direitos e Inclusão Social (Cais) e sobre a política de drogas em defesa da vida e do país, com especialistas e ativistas do campo progressista. O dia se encerrará com apresentações musicais do Pagode na Lata, dos rimadores da Batalha da Aldeia, da bateria da Escola de Samba Mocidade Unidos da Mooca (MUM), do rapper Rincón Sapiência, e da Batucada Nossa Tradição.
Nathália Oliveira , cofundadora da Iniciativa Negra e idealizadora do Festival Cartografias de Bamba, ressalta o conceito das ações integradas pela memória, reparação e preservação da vida. “Falar em direito à cidade é, antes de tudo, garantir que os corpos, suas histórias e memórias pretas tenham espaço para existir e pulsar. As ações de cuidado e redução de danos andam de mãos dadas com a cartografia social porque cuidar de um território é também preservar as suas raízes, os seus mestres e a sua ancestralidade contra qualquer lógica de apagamento urbano”, comenta.
Contexto
Na ponta das ações em prol da preservação da memória negra e direito à cidade, está o Cartografias de Bamba, projeto lançado em 2024 pela Iniciativa Negra, que utiliza pesquisa, documentação e escuta dos moradores e protagonistas do samba para construir um registro histórico e documental sobre o território, além do fortalecimento da comunidade por meio do Festival Cartografias de Bamba, com eventos culturais e rodas de samba na rua, reforçando a ocupação do espaço público, e acesso à cultura como ferramentas de resistência e legado. O projeto também lança publicações periódicas, tais como a Coleção Cardeais do Samba.
O Festival foi o primeiro grande evento realizado após o reconhecimento oficial da Rua João de Barros como Rua do Samba da Barra Funda, fruto da articulação entre sociedade civil, movimentos culturais e poder público.
Neste contexto, o Cais INfluxo se conecta com o Cartografias de Bamba, ao catalogar não apenas equipamentos públicos e serviços, mas também saberes, práticas culturais, economias solidárias e redes de solidariedade.
Os Centros de Acesso a Direitos e Inclusão Social (Cais) são serviços públicos criados pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad/MJSP), a partir do reconhecimento da complexidade dos usos de substâncias psicoativas e da necessidade de respostas intersetoriais, territorializadas e comprometidas com a promoção da dignidade humana. O Cais INfluxo visa minimizar os impactos da violenta diluição da cena de uso da região da Cracolândia, na Luz, no centro de São Paulo, em 2025, que dispersou usuários agravando o cenário de isolamento, exposição à violência nas ruas e falta de acesso aos serviços e às redes de cuidado e redução de danos.
O Cais INfluxo realiza ações de acolhimento, escuta e atividades culturais na sede da Iniciativa Negra, e em outros equipamentos públicos e espaços de atividade do Coletivo Tem Sentimento e do Pagode na lata.
Com atuação de mais dez anos no território, a Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas, o Pagode na Lata e o Coletivo Tem Sentimento aliaram tecnologias sociais, tais como as metodologias de advocacy racial desenvolvidas pela Iniciativa Negra em prol de populações mais afetadas pela política de guerra às drogas, as oficinas de costura e economia criativa promovidas pelo Coletivo Tem Sentimento, e as rodas de samba colaborativas do Pagode na Lata, em um só projeto para a oferta de serviços no território. O Cais INfluxo é um dispositivo de escuta, inclusão produtiva e fomento a empreendimentos culturais e de economia solidária nos territórios da Barra Funda, Santa Cecília e Campos Elíseos.
"A vulnerabilidade social imposta nos territórios exige respostas integradas, que unam o cuidado integral, o acolhimento e a geração de renda emancipatória por meio do trabalho. A parceria e a somatória de forças com o Pagode na Lata e a Iniciativa Negra dialogam diretamente com as urgências das populações mais vulnerabilizadas. Juntas, essas tecnologias constroem redes de suporte sólidas, humanizadas e verdadeiramente eficazes”, revela Carmen Lopes do Coletivo Tem Sentimento.
Para os integrantes do Pagode na Lata , o samba é ferramenta de redução de danos, cultura e reconstrução de dignidade no território. “Celebramos muito essa articulação que fortalece o nosso propósito maior, que é devolver aos sujeitos marginalizados o protagonismo de suas próprias histórias, mostrando que a emancipação passa pelo acesso à cultura, pela autonomia financeira, e pelo reconhecimento dos nossos saberes ancestrais."
Programação
A programação é composta de vários momentos atravessados pelos eixos de cultura, cuidado e memória, começando às 10h30, com a defumação que será realizada por autoridades religiosas, abrindo a programação que seguirá ao longo do dia.
Entre 11h e 13h, haverá uma edição especial do Sarau no Kintal, iniciativa do poeta e mestre de cerimônias Akins Kintê, que realiza encontros mensais na casa de sua família, na Zona Norte da cidade. Nesse domingo, o Sarau receberá o escritor e ativista do movimento negro, Hamilton Borges, para uma troca de experiências e saberes que vivem por meio da palavra e da escrita, e o lançamento do mais novo livro do escritor, Escrevo para ser esquecido: recursos para destravar a alma.
No período da tarde, entre 13h e 15h, começará a roda de conversa: Desacelera, respira e fica: afeto e cuidado na ordem do dia, com participação de especialistas atuantes nos espaços de cuidado e cultura, tais como Léo Pinho diretor da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad/MJSP), falando sobre a história política do Cais, Anabela Gonçalves presidente do Bloco do Beco, Carmen Lopes fundadora do Coletivo Tem Sentimento, Nathielly Janutte do Centro de Convivência É de Lei, e Dona Carmen Silva da Ocupação 9 de Julho, Leonardo Melo Lindolfo, assistente social e integrante do Pagode na Lata e Nathália Oliveira, fundadora da Iniciativa Negra. A mediação será feita pela assessora de advocacy da Iniciativa Negra, Bruna Imani.
“A política sobre drogas no Brasil precisa ser construída com base em evidências, direitos humanos e redução de danos. Neste sentido, o Cais tem um papel essencial dentro da estratégia de cuidado com a população, transformando abordagens punitivistas em inclusão produtiva e fortalecimento em rede. É com esse olhar que visualizamos uma nova política de drogas no Estado. O afeto transforma, e é nisso que acreditamos”, reforça o diretor da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad/MJSP), Léo Pinho .
No decorrer da tarde, o samba e o rap, principais expressões culturais da população negra e periférica de São Paulo, terão destaque com apresentações do grupo Pagode na Lata, às 15h, seguindo-se os rimadores da Batalha da Aldeia (BDA), considerada uma das maiores batalhas de rima e freestyle do mundo, e que celebrou 10 anos de história este ano, às 16h.
O Pagode na Lata retorna ao palco às 16h40 para mais música e roda de samba, fazendo com que o público cante e bata na palma da mão até as 18h, quando o samba dará espaço ao rapper, produtor e poeta Rincón Sapiência, que participará do Festival com o projeto Manicongo, em um DJ Set que conecta ritmos como afrobeats, amapiano, dancehall, kuduro, funk, reggaeton e dembow às referências da música brasileira. A apresentação reúne sua pesquisa como artista e produtor musical, com remixes e releituras autorais que transformam músicas conhecidas em novas experiências dançantes.
Às 19h, será a hora da Batucada Nossa Tradição trazer o samba e a ancestralidade do samba paulistano e a identidade musical do tradicional reduto da Barra Funda. A partir das 20h, a programação prevê homenagens e menções honrosas a personalidades do samba, encerrando-se o dia com o ensaio aberto da Mocidade Unidos da Mooca (MUM), que apresentará ao público o enredo oficial da escola Modupé, Cardeais, uma celebração aos cinco cardeais do samba, lideranças históricas que lutaram para transformar e oficializar o carnaval de São Paulo como política pública de cultura.
SERVIÇO
Festival Cartografias de Bamba Edição Cultura, Memória e Cuidado + Festival Cais IN Fluxo
Data: 18 de outubro de 2026 (domingo)
Horário: das 10h30 às 22h
Local: Rua do Samba da Barra Funda, em frente ao Bar do Chagas – Barra Funda – São Paulo
Entrada: gratuita
*Sujeito à lotação do espaço
Programação
10h30 - Defumação da Rua do Samba da Barra Funda
11h - 13h - Sarau no Kintal, com o poeta e mestre de cerimônias Akins Kintê, com a participação do escritor Hamilton Borges, com o lançamento do livro “Escrevo para ser esquecido: recursos para destravar a alma”
Mesa
13h às 15h: Roda de conversa: Desacelera, respira e fica: afeto e cuidado na ordem do dia
Música
15h - 16h - Pagode na Lata
16h - 16:40 - BDA – Batalha da Aldeia
16:40 às 18h - Pagode na Lata
18h - 19h - DJ Set com Rincon Sapiência
19h - 20h - Batucada Nossa Tradição
20:15- 22h - Ensaio Aberto da Mocidade Unidos da Mooca apresentando o enredo “Os 5 Cardeais do Samba”
Sobre a Iniciativa Negra - Dez anos
A Iniciativa Negra é uma organização da sociedade civil que atua na promoção da justiça racial, com foco em incidência política, advocacy, fomento criativo e produção de conhecimento. Desde 2015, articula ações nas áreas de política de drogas, direitos humanos, cultura, educação popular e economia viva, com destaque para experiências que partem de territórios negros com foco no desenvolvimento da sociedade civil organizada. Com o projeto Cartografias de Bamba, lançado em janeiro de 2025, a organização visa o resgate da memória e do protagonismo negro na formação cultural da cidade a partir do bairro da Barra Funda, através da história do samba e do legado deixado pela comunidade negra nos diversos territórios negros da cidade.