Terça-feira, 8 de setembro de 2026
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Vera Lucia Dias

Cidade das águas, São Paulo

A colunista Vera Lucia Dias escreve sobre os rios de São Paulo, que hoje estão cobertos e pela urbanização da cidade.

Cidade das águas, São Paulo

“Mas porém, rio, meu rio, de cujas águas eu nasci,

Eu nem tenho direito mais de ser melancólico e frágil,

Nem de me estrelar nas volúpias inúteis da lágrima!

Eu me reverto às tuas águas espessas de infâmias…”

Mário de Andrade (A meditação sobre o Tietê)

A cidade de São Paulo, antes aldeia Piratininga, tem como característica geográfica a presença de muitas águas em seu solo. São riachos, dois grandes rios, o Tietê e o Pinheiros, ribeirões, cachoeiras. Duas grandes represas. A Billings, nome do americano Asa Billings, responsável por supervisionar a construção de barragens. E a Guarapiranga.

Existem cachoeiras na zona norte, entre elas a Engordador, no Parque Estadual da Cantareira, declarado como Reserva da Biosfera pela Unesco. E na zona sul a Sagui, na Área de Proteção Ambiental Capivari-Mono. Nessas regiões há presença de rica fauna com tucanos, corujas, jaguatiricas, capivaras. Pelo território a flora encontrada é composta de araçás, goiabas, jabuticabas, uvaias, manacás, sumarés, ypês ou jacarandás.   

As aldeias do povo indígena Guarani são muito importantes no espaço ainda preservado. Eles têm conhecimento sobre a lida com rios. Buscam um bom viver e são responsáveis pela preservação e proteção da Mata Atlântica com manejo e equilíbrio do meio natural e demais seres cuidando com maestria da riqueza ambiental de São Paulo.

Um grande vale localizado a 760 metros acima do mar recebe riachos lá do alto do espigão da Paulista com seus 800 metros. Desses o Saracura com suas sete nascentes circulando correntes subterrâneas pela avenida 9 de Julho, o Itororó pela avenida 23 de Maio. O Bixiga, o riacho Anhangabaú e muitas outras minas formando águas que desaguam no Tamanduateí. Este por sua vez desagua no Tietê.

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O Tamanduateí foi um dos mais violentados em seu curso retificado, que ora corre canalizado ora passa no meio de avenidas, como a suplicar olhares. Somente nas cheias de dezembro a março quando seu leito sobe é que percebemos sua força. Muito triste, o rio de tamanduás ser tão pouco preservado em suas margens.

Águas de São Paulo. A cuidar.     

Glossário tupi

Anhangabaú – água do rosto do diabo; bebedouro dos demônios; rio dos malefícios (água salobra/figueira brava)

Araçá – fruta, planta mirtácea

Cambuci – pote

Capivara – comedor de capim

Capivari – rio das capivaras

Coruja – kaburé

Goiaba – acoyaba; agregado de caroços

Guarapiranga – garça vermelha

Itororó – barulho da água entre as pedras

Jabuticaba – iabutikaba; gordura de jabuti; árvore das mirtáceas”; fruto em forma de botão

Jacarandá – iakarandá; árvore da família das leguminosas

Jaguatirica – morro das onças

Lambari – araberi; peixe

Manacá – manaká, planta solanácea

Sagui – saguim; símio

Saracura – saracura; ave

Sumaré – variedade de orquídea

Tamanduateí – rio dos tamanduás

Tietê – rio profundo; rio por excelência

Uvaia – fruta azeda

Ypê – ipê; casca grossa

Referências bibliográficas: Eduardo de Almeida Navarro, Tupi Antigo; Francisco da Silveira Bueno, Vocabulário Tupi-Guarani; Vera Lucia Dias; O Tupi em São Paulo.

Leia também: RUAS COM NOMES TUPIS NO CENTRO DE SÃO PAULO

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