No livro Campos Elíseos – Histórias e Imagens, o fotógrafo Juan Esteves retrata um bairro que não existe na vida real. Ele parte dos casarões antigos do bairro que já foi o mais nobre da capital, sede do governo do Estado, para criar imagens limpas, sem os ruídos da modernidade, como os fios elétricos, e também sem a sujeira trazida pelo uso e a passagem do tempo. O trabalho resulta em imagens lindas, casarões e prédios residenciais com cara de históricos, sem o efeito negativo da ação do tempo.
Junto com o curador de arte e historiador Antonio Carlos Suster Abdalla, Esteves vem trabalhando, há dez anos, num projeto de documentação e registro fotográfico da arquitetura do centro histórico da cidade. Em 2010, lançaram Capital: São Paulo e seu Patrimônio Arquitetônico.
O livro atual, mais ambicioso, retrata o bairro paulistano onde foram construídos centenas de casarões e palacetes que serviram de residência aos fazendeiros da oligarquia cafeeira, no final do século 19. No século 20, o Campos Elíseos abrigou construções de diferentes vertentes da arquitetura modernista e, em seguida, as metamorfoses heterogêneas características do crescimento desordenado da metrópole.
Campos Elíseos em fotografias sem ruídos
Todas as fotografias de Juan Esteves em Campos Elíseos são em preto e branco. Depois de fazer a foto, ele trabalha a imagem para eliminar o que chama de “ruídos temporais contemporâneos”. Ou seja, os elementos que interferem na visão dos prédios em sua arquitetura original, como fios de luz, modificações nas fachadas, entre outros. “Faço dos prédios personagens”, afirma.
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Veja algumas imagens:
Palácio dos Campos Elíseos. Avenida Rio Branco, 1289 – O bairro de Campos Elíseos, primeiro a ser planejado na cidade de São Paulo, foi projetado pelo engenheiro Hermann Von Puttkamer, em terras da Chácara do Bambu dos alemães Frederido Glette e Victor Nothmann. Já o Palácio dos Campos Elíseos, residência do rico fazendeiro Elias Antonio Pacheco e Chaves, foi projetado, em 1896, pelo arquiteto alemão Matheus Haüssler. Construído com o luxo e requinte das mansões dos cafeicultores, o palacete foi concluído em 1899, com colunata e capitéis evocando o renascimento italiano e cobertura de mansarda, com nítida influência francesa do século 17. Em 1912, o governo estadual adquiriu o imóvel, passando a ser utilizado como residência de governadores, sede de governo e, atualmente, como Secretaria da Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo do Estado de São Paulo. Sofreu algumas intervenções e um incêndio em 1967. Foto: Juan Esteves
Residência de Norberto Nicola – Alameda Glete, 685 – Foto Juan Esteves
Prédios residenciais na Alameda Barão de Limeira, 14, 30 e 44 (neste funciona o Hotel Artemis) – Foto Juan Esteves
Palacete Vitória. Rua Vitória, 687 Foto: Juan Esteves
Palacete Santos Dumont. Alameda Cleveland, 601 e 617 – Campos Elíseos Foto: Juan Esteves
Palacete Santos Dumont (hoje Museu da Energia) – Alameda Cleveland, 601 – Foto Juan Esteves
Construído em 1896, o casarão foi residência do empresário Alfredo Prates. Projetada pelo arquiteto belga Florimond Colpaert – o mesmo que criou o monumento do IV Centenário de São Vicente – é um dos mais belos imóveis desta região que bravamente ainda resistem. Em estilo neoclássico, que destoa bastante da arquitetura dos imóveis que foram construídos na região nesta mesma época, o imóvel, possui porão e sótão habitáveis.
Tombada como patrimônio histórico pelo Condephaat desde meados da década de 1980 a residência, mesmo quando esteve transformada em um cortiço, preservou praticamente toda a sua originalidade externa, com alterações visíveis no porão, que teve uma janela eliminada e a outra transformada em uma pequena porta comercial.
Apesar de várias mudanças e inúmeras ocupações irregulares, o imóvel resistiu em razoável estado de conservação. Ele pertenceu, até 2013, à Santa Casa de Saúde de São Paulo, sendo neste mesmo ano adquirido pela holding Porto Seguro. Pouco tempo depois, o restauro foi iniciado.
Construído no final do século 19, o sobrado pertenceu à família do governador e senador Dino Bueno até 1933. Residência de alto padrão, com projeto de autoria desconhecida, encontra-se implantada acima do nível da rua em decorrência da primitiva e irregular topografia dos Campos Elíseos. Esta residência e a vizinha, que também pertenceu a Dino Bueno, são construções contemporâneas e apresentam características que as enquadram no ecletismo dominante do período. O interior da casa ainda guarda a compartimentação da primitiva planta, articulada irregularmente, além dos elementos originais como esquadrias, forros e batentes, Processo de tombamento pelo Condephaat 23367/85, tomb. res.15 de 16/3/88, D.O. 17/3/88, Foto: Juan Esteves
Igreja e Liceu do Sagrado Coração de Jesus – Largo Coração de Jesus – Foto Juan Esteves
Edifício Racy, projeto do arquiteto Aaron Kogan – Avenida São João, 1588 – Foto Juan Esteves
Edifício Racy, projeto do arquiteto Aaron Kogan – Avenida São João, 1588 – Foto Juan Esteves
Edifício estilo art déco – Alameda Barão de Limeira, 1455 – Foto Juan Esteves
Edifício Duque de Caxias, construído por Artacho Jurado – Rua Barão de Campinas, 243, esquina com Avenida Duque de Caxias – Foto Juan Esteves
Edifício Barão de Limeira, projeto do arquiteto modernista Gregori Warchavchik – Alameda Barão de Limeira, 1003 – Foto Juan Esteves
Edifício Barão de Japy – Alameda Barão de Limeira, 339 – Foto Juan Esteves
Edifício na Avenida São João, 1214, esquina com Avenida Duque de Caxias – Foto Juan Esteves
Casarão (hoje abriga unidade do Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo) – Alameda Nothmann 495 – Foto Juan Esteves
Casa na Alameda Eduardo Prado 641, hoje um cortiço mal conservado – Foto Juan Esteves
Ao olhar a fotografia, é comum o espectador não reconhecer nem mesmo um prédio diante do qual passa todos os dias. Pode perceber então, entre o real e a reconstrução feita por Esteves, que é possível ver uma outra São Paulo por trás de tantas e tantas interferências.
“Embora sejam registros de hoje, essas minhas fotos acabam parecendo ser antigas”, afirma Juan Esteves. “É um paradoxo do olhar. O prédio fica novo e, ao mesmo tempo, muito antigo, como se voltasse às origens.”
Todas as fotos são feitas do ponto de vista de quem está andando na rua, sem imagens aéreas ou de outros ângulos. “Sou um walker, um flâneur”, conta o fotógrafo. “Ando compulsivamente pela cidade e meu olhar é constantemente atraído pelos detalhes. Penso que é isso que define esse meu trabalho.”
Juan Esteves
O fotógrafo Juan Esteves nasceu em Santos. Iniciou seu trabalho como fotógrafo em 1980. Foi fotógrafo e editor de fotografia do jornal Folha de S. Paulo entre 1986 e 1994. Seus trabalhos estão publicados em revistas, jornais e livros no Brasil e em países como Inglaterra, Espanha, Itália, China, Japão, Portugal, Holanda, Dinamarca, França e Estados Unidos.
Suas fotografias já foram expostas, em mostras individuais ou coletivas, no MASP-Museu de Arte de São Paulo; MAM-Museu de Arte Moderna de São Paulo; Pinacoteca do Estado de São Paulo; MAC-Museu de Arte Contemporânea de São Paulo; MoMA PS1, em Nova York; Stedelijk Museum, em Sittard; Aschembach Gallery, em Munique; Time & Style Gallery, em Tóquio; e Point Ephémère, em Paris; entre outros.
Possui imagens nas coleções do MASP-Museu de Arte de São Paulo; MAM-RJ-Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; MAM-SP-Museu de Arte Moderna de São Paulo; Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba; MAC-Museu de Arte Contemporânea de São Paulo; Pinacoteca do Estado de São Paulo; IMS-Instituto Moreira Salles; Instituto Itaú Cultural; MAB FAAP-Museu de Arte Brasileira; Bibliotèque Nationale de France, em Paris; e Musée D’Elisée, em Lausanne, entre outros.
Publicou vários livros, entre eles “55 Portraits” (2000), “São Paulo en Mouvement” (2005), “Presença” (2006) e “Capital: São Paulo e seu patrimônio arquitetônico” (2010).
Capa livro ”Campos Elíseos – história e imagens”, de Juan Esteves