Meu vizinho está aprendendo clarinete. E ele não tem ideia do bem que isso me faz. Ainda não tive oportunidade de dizer a ele o quanto me é prazeroso, nas tardes de domingo, ler a piauí com a cachorra no colo, enquanto entra pela janela da cozinha aquele som aconchegante que só um clarinete é capaz de proporcionar.
Nos últimos meses, venho acompanhando a sua evolução. Das primeiras escalas titubeantes, ele passou rapidamente para trechos mais melódicos, até tocar músicas inteiras. Canções que eu jamais havia ouvido.
Há cerca de duas semanas, embarquei no elevador com a mulher dele. Ela me abordou: “Você é o vizinho do 41, né? Eu e meu marido moramos no 31. Ele está aprendendo clarinete. E eu, órgão. Nós estamos incomodando?”. Respondi imediatamente que não e disse o quanto eu gostava de música. E passei a imaginar que ela deve estudar com fone de ouvido, pois jamais ouvi o som do instrumento que ela diz estudar.
Após a despedida no térreo, diagnostiquei muito rapidamente a razão pela qual eu não conhecia as melodias que saíam do clarinete do marido dela. A mulher estava com uma saia jeans dois dedos acima dos joelhos, e um coque milimetricamente arranjado coroava a sua cabeça. Sim, o casal é evangélico, e eu ignorava aquelas músicas porque elas eram cânticos de louvor.
“Aperte, não Sacuda”
Confesso que sempre impliquei com as músicas feitas para mandar mensagens para uma entidade da qual desconfio da existência. Na minha infância em Mauá, a Escola Estadual Walt Disney nos obrigava a fazer catecismo. Além de estudar textos pouco precisos escritos há 2.000 anos, fomos forçados a aprender vários hinos católicos. Cantados por crianças sem muita convicção, eram de uma chatice irritante.
Um dia, a Doris, minha irmã mais velha, apareceu em casa com o LP “Aperte, não Sacuda”, de um grupo de cantores católicos chamado Os Meninos de Deus. Na esperança de que os profissionais tornassem mais palatáveis os cânticos de louvor, ouvi o disco com sincero interesse. Fiquei ainda mais irritado do que quando entoávamos cânticos desafinados nas aulas de catecismo.
A coisa não melhorava muito no campo evangélico. Na época, eu tinha um amigo chamado Valmir, ótimo trompetista. Enquanto eu aprendia marchas e tocava saxofone na Banda Lira Mirim de Mauá, ele passava horas melhorando a sua performance em hinos evangelicamente entediantes.
Metal gospel
Apesar dessas experiências pouco animadoras, eu cresci sempre dando espaço para a possibilidade de alguém fazer música boa e, ao mesmo tempo, arrancar um sorriso de Monalisa do Senhor.
Um dos meus últimos esforços nessa direção rolou na primeira década dos anos 2000. Era um tempo em que a igreja neopentecostal Renascer estava bombando. A bispa Sônia viajava para o exterior com alguns milhares de dólares acomodados em uma versão esculpida da Bíblia, e o filho mais velho dela organizava festivais de bandas de metal gospel no Pacaembu.




