Entre cachimbos e sprays: a história do pioneiro do grafite no ABC
Edvaldo Luiz Álvares, o Vado do Cachimbo, pioneiro do grafite no ABC e prestes a mostrar uma retrospectiva dos 50 anos de carreira
Por Alexandre Teixeira (texto) e Maialu Ferlauto (fotos)
Quando os loucos anos 80 começaram, Edvaldo Luiz Álvares era designer na Mercedes. Desenhava ônibus e caminhões. Entrou na empresa em 1977, aos 14 anos, como office-boy, e fez carreira na área de design, por dez anos. Nunca se formou na profissão, aprendeu fazendo, na raça. Ao final daquele período, a montadora lhe ofereceu a oportunidade de passar três anos na sede global do Grupo Mercedes-Benz, em Stuttgart, na Alemanha. Ele recusou e desistiu da carreira de designer. Àquela altura, Edvaldo já havia se transformado em Vado do Cachimbo e decidira se dedicar somente ao grafite.
O apelido é tributo, não ao artista, mas ao precoce colecionador de cachimbos. O primeiro foi comprado logo aos 15 anos. “Dava um destaque, eu ficava charmoso”, diz Vado, rindo. Ele coleciona pitos até hoje. Já teve mais de 180 cachimbos, mas desfez seu repositório três vezes, nas ocasiões em que tentou parar de fumar. Sem muito sucesso.
“Eu fumo desde os seis anos de idade. Nasci no sítio e enrolava tabaco com meu avô, fumo de corda”, conta. O sítio ficava em Penápolis, interior de São Paulo, perto de Araçatuba. Vado mudou para São Bernardo em 1969. Tinha seis anos. Lá ficaria pelos próximos 45. Teve ateliê lá e em São Caetano. Depois na Vila Madalena e na Vila Ida. Hoje mora em Boituva, na Região Metropolitana de Sorocaba, onde está desde 2010.
Vado viu pela primeira vez spray, estêncil e obras com eles produzidas na galeria Art Brut, aberta em 1984 na casa do artista plástico Mauricio Villaça e logo transformada em epicentro da cena underground. Art Brut, um termo cunhado por Jean Dubuffet para descrever a arte criada por pessoas fora do circuito cultural estabelecido, era também o nome do grupo de artistas urbanos do qual Vado fazia parte. Seu mentor intelectual e líder informal era Alex Vallauri, pioneiro dos pioneiros, que trouxe o grafite para São Paulo ao voltar de uma temporada nos Estados Unidos. Faziam parte do coletivo artistas como Ozéas Duarte, o Ozi; o próprio Mauricio Villaça e o americano John Howard. Suas obras, aos poucos, foram ganhando as ruas, mas ninguém sabia quem eram os autores. Grafitar era proibido (a rigor, ainda é, embora a maioria dos trabalhos hoje sejam autorizados e/ou comissionados) e na época dava cadeia, então ninguém assinava.
Nas primeiras noites em que saiu para grafitar, Vado circulava entre os Jardins e o Beco do Batman, na Vila Madalena, onde deu o depoimento para este texto. A trupe tinha mais medo de guarda-noturno do que da polícia. Os vigias de quarteirões percebiam a chegada dos grafiteiros pelo “tec tec tec” característico. As latas de tinta spray fazem esse barulho porque dentro delas há uma bolinha que serve para misturar a tinta com o gás pressurizado antes da aplicação. Ao balançar a lata, a bolinha agita e garante que a tinta não fique muito pastosa e que a mistura saia de forma homogênea, com a tinta e o gás na proporção correta. Quando avistavam os grafiteiros, não raro, mandavam bala.
“Sem medo nem dó”, diz Vado. “Eles tinham autorização para atirar.” Certa vez, ao parar o carro diante de um muro convidativo, ele foi recebido por um sujeito que disse ser o dono da casa e lhe autorizou a grafitar. Mal acreditando na sorte que tiveram, Vado descarregou sprays e grandes máscaras com as figuras que pretendia aplicar na parede. Mal iniciara a pintura quando alguém começou a atirar em sua direção. Era o verdadeiro dono da casa. Vado fugiu para um lado; o engraçadinho que o autorizara, para o outro.
Figuras solitárias e sorridentes
Em 1985, Vado já teve uma exposição individual, de grafite, na então chamada Itaú Galeria. Entravam em cena seus personagens, os ACs, descritos em seu site como “figuras solitárias e sorridentes, isoladas num mundo de formas geométricas, cada um com uma flor na mão e uma mensagem otimista de amor e fé na vida”. Vado diz que os ACs foram criados com a intenção de “ensinar o ser humano a ser mais decente”. Eles são envolvidos por espinhos, como uma forma de proteção. Esses personagens começaram a se espalhar por São Paulo, como a Rainha do Frango Assado, de Vallauri, antes dele, e como as figuras em estilo caleidoscópico de Eduardo Kobra na atualidade.
Vado foi o primeiro representante do grafite a cursar o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo – e acabou sendo preso dentro da faculdade, a mando de Vicente Di Grado, que ocupou o cargo de diretor-geral a partir de 1968, e seguiu exercendo funções diretivas até o final dos anos 1980. Acusação? Vandalismo. “Tinha um murão na frente”, lembra Vado, contando sua versão do episódio. A Belas Artes havia recém se mudado da Luz para a Vila Mariana. Não resistindo àquela parede convidativa, ele convocou colegas a agir num sábado: “Vamos grafitar!”. Di Grado não achou graça e chamou a polícia.
Membro do centro acadêmico, Vado já havia parado a faculdade, em protesto contra o aumento das mensalidades. Logo, era malvisto pela diretoria – mas não por Antonio Santoro Junior, professor de História da Arte e orientador na Belas Artes, que o apoiava.
Vado foi quem levou o grafite para o ABC. Tem discípulos renomados entre seus conterrâneos, como Daniel Melim, de São Bernardo do Campo, artista hoje representado pela galeria Choque Cultural, uma das principais referências globais em arte urbana.
Em 1988, quando foi reinaugurada a pista de skate de São Bernardo, com um half pipe que a transformou no maior espaço do gênero da América Latina, Vado levou mais de 40 artistas para grafitar aquele skatepark gigantesco. Começaram, então, a rolar oficinas de grafite no ABC, dando início a um grande movimento, com espaços representativos, como o Centro Cultural Vera Cruz e o teatro Cacilda Becker, ambos em São Bernardo.
No ano anterior, Vado participara da famosa mostra “A Trama do Gosto”, uma exposição realizada pela Fundação Bienal de São Paulo, com o objetivo de apresentar um “outro olhar sobre o cotidiano” através da arte, explorando o conceito de natureza morta em contextos urbanos e contemporâneos. Participaram artistas de ponta, como Waldemar Cordeiro, Guto Lacaz, Amelia Toledo, Ana Maria Stickel, Antonio Cabral e Antonio Peticov.
Marginal e sedutora
Ainda em 1987, Vado participou da primeira grafitagem do “buraco da Paulista” e da execução do cenário da peça de teatro “A Rainha do Frango Assado”, inspirada na personagem de Alex Vallauri, que morreu em março daquele ano, aos 37 anos. Àquela altura, Vado já trabalhava para a TV Cultura, onde criou a vinheta de abertura, em grafite, do programa “Boca Livre”, apresentado por Kid Vinil. E logo abriria uma casa noturna dedicada ao grafite, a Graffiti Drink’s, em São Caetano. “Não tinha luz, só neon”, lembra ele. Eram 400 metros de neon, iluminando os espaços onde só se ouvia jazz e blues.
Outro dos incontáveis projetos da época foi um mural contando a história do ABC. A ideia inicial era fazê-lo em São Bernardo, mas a prefeitura não se interessou. Foi o então prefeito de São Caetano, Luiz Tortorello, que abraçou a ideia e liberou espaços para o grafite. Enquanto isso, em São Paulo, a prefeitura de Jânio Quadros movia uma perseguição aos artistas de rua, em geral, e aos pichadores Juneca e Pessoinha, em particular, como contado aqui. A dupla, aliás, demorou a ser engolida pelos grafiteiros.
“O Juneca, a gente queria matar no começo”, brinca Vado. “Porque ele atropelava o grafite.” A dupla, não raro, escrevia “Juneca e Pessoinha” em muros já grafitados. Foi Mauricio Villaça que se aproximou de Juneca e lhe ofereceu trabalho em seu grupo.
Naquele momento, às portas da década de 1990, marcas, lojas e casas noturnas começam a aceitar o grafite como arte e a comissionar trabalhos. “Nos anos 80, foi muito difícil”, nota Vado. “Era muita treta.” Ao final da década, porém, a arte urbana já era vista, ao mesmo tempo, como marginal e sedutora. Melhor dizendo, sedutora por ser marginal. Provocadora. Graças a esses primeiros trabalhos comissionados, quando deixa a Mercedes, em 1987, aos 24 anos, Vado já consegue viver de arte. Em 1990, porém, ele se mudou para a Itália. “Fui para me aventurar”, diz ele. “Fiz algumas exposições lá, mas o grafite não foi bem recebido, não. O preconceito era muito grande.”
Em comparação com o que via e vivia em São Paulo e no ABC, a cena nas cidades italianas por onde Vado passou, incluindo Milão, Roma e Florença, era muito mais conservadora.
De volta ao Brasil em 1991, Vado coordenou a oficina “Arte Graffiti” no Núcleo Henfil, e organizou o Museu de Rua do I Centenário de Rudge Ramos, ambos em São Bernardo.
Ele atuaria no eixo São Paulo–ABC a partir de seu ateliê em São Caetano até 2007, quando o transferiu para a Vila Madalena – onde ministrou oficinas de grafite em parceria com o Projeto Aprendiz, do jornalista Gilberto Dimenstein. Três anos depois, mudou-se para Boituva, em busca de um imóvel maior para seu estúdio. Lá está até hoje.
Vado está preparando agora uma grande exposição para a Funarte de São Paulo: “50 anos de arte”, uma retrospectiva de sua carreira. A abertura, a ser confirmada, está prevista para abril de 2026. Em março, haverá uma espécie de soft opening em Boituva.
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