Quer caminhar comigo?

Wans Spiess é idealizadora da plataforma #quercaminharcomigo, que promove reflexões diversas sobre temas como memória, história, saúde, mobilidade e cidade, utilizando o caminhar e o "pensamento pedestre" como práticas centrais. Além de atuar como consultora em comunicação, ela empreende o Que Mais Tem Lá (QMTL), uma plataforma focada no turismo responsável, e é artivista urbana no projeto CalçadaSP. Entre suas iniciativas, destaca-se o Ouça a Cidade, projeto vencedor do EmbraturLab, que transforma lugares em narrativas vivas. Wans é formada em Direito (USP), com especializações em Responsabilidade Social (FIA/USP), Comunicação (ESPM) e Mestrado em Arquitetura e Urbanismo (Mackenzie).

Centro de São Paulo lota para caminhada histórica e revela um desejo que nunca desapareceu

Caminhada Ramos de Azevedo surpreende pela adesão e aponta um novo movimento de reapropriação do Centro Histórico de São Paulo

Não ouso adivinhar o número exato de pessoas. Posso dizer apenas que as pulseiras destinadas aos participantes terminaram em poucos minutos e muitos ficaram sem. Deixo as imagens para vocês fazerem a conta.”

A fala é do Allan Ruiz, responsável pela redescoberta do edifício da antiga Policlínica, obra de Ramos de Azevedo — e talvez seja a melhor forma de começar esse relato.

No último sábado, 25 de abril, antes mesmo das 10h — horário previsto de início — as mais de 350 pulseiras distribuídas para a Caminhada Ramos de Azevedo já tinham acabado. E mais gente continuava chegando. Decidimos, então, que ninguém ficaria de fora!

Foi uma surpresa… ou talvez não

O que torna essa cena ainda mais potente é o contexto: um evento organizado por poucas pessoas, sem dinheiro, sem patrocínio, sem divulgação nas mídias tradicionais, sem celebridades e sem apoio logístico do poder público.

Ainda assim, centenas de pessoas saíram voluntariamente de suas casas, em um sábado de manhã, para caminhar pelo Centro de São Paulo. O objetivo era claro: conhecer melhor a história da cidade e de um dos seus grandes arquitetos. Porém, o que se revelou ali foi maior do que uma atividade cultural.

Mais do que uma caminhada

A caminhada, que conduzi ao lado do meu amigo e pesquisador Lincoln Paiva, foi um convite simples: percorrer o Centro Histórico guiados pela obra de Ramos de Azevedo e visitar o edifício da antiga Policlínica, recentemente redescoberto pelo Allan.

Wans Spiess e Lincoln Paiva conduziram a Caminhada Ramos de Azevedo. Foto: Jacques Royzen

Ao longo do percurso, mais do que conhecer edifícios, fomos conectando histórias, entendendo camadas da cidade e percebendo como esses espaços ainda ecoam no presente.

Mas o que aconteceu não foi apenas sobre arquitetura ou memória.

Foi sobre pertencimento.

Foi a demonstração de que existe um desejo — talvez adormecido, mas nunca desaparecido — de reconexão com o Centro de São Paulo.

O Centro pede presença

Há um discurso recorrente de que as pessoas se afastaram do Centro. Porém, o que vimos naquele dia foi o contrário: encantamento, curiosidade e uma disposição real de estar ali.

A partir da pesquisa do conteúdo e da curiosidade por um lugar ainda em ruínas, criamos uma experiência que não pode ser fabricada. Isso mostra que não precisamos copiar modelos de fora, nem recorrer a grandes aparatos tecnológicos para atrair atenção.

O conteúdo já está aqui, assim como a história. E o interesse, como ficou claro, também.

O que muitas vezes falta é o gesto inicial: alguém que invista, que convide e que conduza.

Quando esses elementos aparecem, as pessoas respondem com presença e envolvimento.

Caminhada Ramos de Azevedo lota Centro Histórico de São Paulo Foto: Jacques Royzen

Uma construção coletiva

Nada disso acontece sozinho.

Essa experiência é resultado de uma construção. Passa pelo trabalho consistente do Lincoln, que vem formando um público interessado na história da cidade, e pelo meu próprio percurso com as caminhadas, acreditando no corpo como forma de afetar e ser afetado pelo território. É desse encontro que nasce a nossa parceria, que aos poucos vem reunindo pessoas interessadas em caminhar e descobrir as histórias do Centro.

E passa, sobretudo, pela generosidade de quem abre caminhos.

O Allan, que decidiu não apenas investir, mas abrir as portas de um edifício fechado por décadas, enxergando ali uma possibilidade de cidade.

O apoio do Luiz, do Cama & Café, garantindo a logística e acolhendo o grupo.

A generosidade do Jacques (@jacques.royzen) em ceder as fotos para registro do evento.

O cuidado do Eli Hayasaka, os parceiros, os amigos, e cada pessoa que decidiu estar ali.

Porque, no fim, a cidade não se transforma sozinha.

Ela precisa de gente que faça — e de gente que venha.

E, naquele dia, quem fez o espetáculo foram as pessoas.

Caminhada Ramos de Azevedo lota Centro Histórico de São Paulo Foto: Jacques Royzen

Caminhar para entender a cidade

O percurso começou no Pátio do Colégio e seguiu por poucos quarteirões do Triângulo Histórico. Menos de um quilômetro de caminhada, mas suficiente para revelar camadas importantes da cidade.

Ali, a obra de Ramos de Azevedo se apresenta não apenas como arquitetura, mas como projeto urbano. Caminhar por esses edifícios é entender o momento em que São Paulo deixava de ser uma cidade ainda provinciana para se afirmar como metrópole.

Vimos fachadas, mas também uma visão de cidade que ainda estrutura o que vemos hoje.

Caminhada Ramos de Azevedo lota Centro Histórico de São Paulo Foto: Jacques Royzen

A antiga Policlínica e o que ainda está por vir

O ponto alto foi a visita ao edifício da antiga Policlínica, na Rua Roberto Simonsen.

Fechado por cerca de 85 anos, o prédio foi concebido para reunir diferentes especialidades médicas em um único espaço, algo bastante inovador para a época. Com o tempo, perdeu sua função, acumulou dívidas e desapareceu do uso cotidiano, permanecendo apenas como presença silenciosa na paisagem.

Até agora.

Veja fotos da antiga Policlínica:

Entrar ali é um privilégio, mas também um deslocamento de olhar. De repente, fica claro o quanto o Centro ainda guarda potências adormecidas, esperando para serem reativadas.

E talvez essa seja uma das maiores lições do dia: não precisamos necessariamente criar algo novo para reativar a cidade. Basta revelar o que já existe.

Um sinal do que pode vir

Conversando com o Lincoln depois da caminhada, ficou evidente que o mais importante não foi o número de pessoas — embora ele impressione.

Foi o que ele revela.

Nos comentários de quem participou, surgia um sentimento comum: a vontade de ocupar, aprender e se reconectar com o Centro. Uma esperança renovada de que ainda é possível estabelecer uma relação mais sensível com a cidade.

O que vimos naquele sábado? Não apenas uma caminhada, mas um vislumbre de futuro.

Um futuro em que o Centro volta a ser vivido com mais presença, curiosidade e afeto.

E agora?

Se você também quer fazer parte desse movimento, o convite continua:

Entre na comunidade no WhatsApp Cidade, Histórias e Experiências pelolink aqui para saber das próximas caminhadas.

Siga @wansspiess, @area.central.sp e @recicloimoveis para mais conteúdo.

E venha descobrir São Paulo de um jeito que você talvez ainda não tenha visto.

Se quiser receber o roteiro da caminhada, me manda uma mensagem no Instagram.

A cidade precisa de você. E, pelo que vimos naquele sábado, ela está pronta para ser vivida.

#QuerCaminharComigo?

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