Centro de São Paulo lota para caminhada histórica e revela um desejo que nunca desapareceu
Caminhada Ramos de Azevedo surpreende pela adesão e aponta um novo movimento de reapropriação do Centro Histórico de São Paulo
Não ouso adivinhar o número exato de pessoas. Posso dizer apenas que as pulseiras destinadas aos participantes terminaram em poucos minutos e muitos ficaram sem. Deixo as imagens para vocês fazerem a conta.”
A fala é do Allan Ruiz, responsável pela redescoberta do edifício da antiga Policlínica, obra de Ramos de Azevedo — e talvez seja a melhor forma de começar esse relato.
No último sábado, 25 de abril, antes mesmo das 10h — horário previsto de início — as mais de 350 pulseiras distribuídas para a Caminhada Ramos de Azevedo já tinham acabado. E mais gente continuava chegando. Decidimos, então, que ninguém ficaria de fora!
Foi uma surpresa… ou talvez não
O que torna essa cena ainda mais potente é o contexto: um evento organizado por poucas pessoas, sem dinheiro, sem patrocínio, sem divulgação nas mídias tradicionais, sem celebridades e sem apoio logístico do poder público.
Ainda assim, centenas de pessoas saíram voluntariamente de suas casas, em um sábado de manhã, para caminhar pelo Centro de São Paulo. O objetivo era claro: conhecer melhor a história da cidade e de um dos seus grandes arquitetos. Porém, o que se revelou ali foi maior do que uma atividade cultural.
Mais do que uma caminhada
A caminhada, que conduzi ao lado do meu amigo e pesquisador Lincoln Paiva, foi um convite simples: percorrer o Centro Histórico guiados pela obra de Ramos de Azevedo e visitar o edifício da antiga Policlínica, recentemente redescoberto pelo Allan.

Ao longo do percurso, mais do que conhecer edifícios, fomos conectando histórias, entendendo camadas da cidade e percebendo como esses espaços ainda ecoam no presente.
Mas o que aconteceu não foi apenas sobre arquitetura ou memória.
Foi sobre pertencimento.
Foi a demonstração de que existe um desejo — talvez adormecido, mas nunca desaparecido — de reconexão com o Centro de São Paulo.
O Centro pede presença
Há um discurso recorrente de que as pessoas se afastaram do Centro. Porém, o que vimos naquele dia foi o contrário: encantamento, curiosidade e uma disposição real de estar ali.
A partir da pesquisa do conteúdo e da curiosidade por um lugar ainda em ruínas, criamos uma experiência que não pode ser fabricada. Isso mostra que não precisamos copiar modelos de fora, nem recorrer a grandes aparatos tecnológicos para atrair atenção.
O conteúdo já está aqui, assim como a história. E o interesse, como ficou claro, também.
O que muitas vezes falta é o gesto inicial: alguém que invista, que convide e que conduza.
Quando esses elementos aparecem, as pessoas respondem com presença e envolvimento.

Uma construção coletiva
Nada disso acontece sozinho.
Essa experiência é resultado de uma construção. Passa pelo trabalho consistente do Lincoln, que vem formando um público interessado na história da cidade, e pelo meu próprio percurso com as caminhadas, acreditando no corpo como forma de afetar e ser afetado pelo território. É desse encontro que nasce a nossa parceria, que aos poucos vem reunindo pessoas interessadas em caminhar e descobrir as histórias do Centro.
E passa, sobretudo, pela generosidade de quem abre caminhos.
O Allan, que decidiu não apenas investir, mas abrir as portas de um edifício fechado por décadas, enxergando ali uma possibilidade de cidade.
O apoio do Luiz, do Cama & Café, garantindo a logística e acolhendo o grupo.
A generosidade do Jacques (@jacques.royzen) em ceder as fotos para registro do evento.
O cuidado do Eli Hayasaka, os parceiros, os amigos, e cada pessoa que decidiu estar ali.
Porque, no fim, a cidade não se transforma sozinha.
Ela precisa de gente que faça — e de gente que venha.
E, naquele dia, quem fez o espetáculo foram as pessoas.

Caminhar para entender a cidade
O percurso começou no Pátio do Colégio e seguiu por poucos quarteirões do Triângulo Histórico. Menos de um quilômetro de caminhada, mas suficiente para revelar camadas importantes da cidade.
Ali, a obra de Ramos de Azevedo se apresenta não apenas como arquitetura, mas como projeto urbano. Caminhar por esses edifícios é entender o momento em que São Paulo deixava de ser uma cidade ainda provinciana para se afirmar como metrópole.
Vimos fachadas, mas também uma visão de cidade que ainda estrutura o que vemos hoje.

A antiga Policlínica e o que ainda está por vir
O ponto alto foi a visita ao edifício da antiga Policlínica, na Rua Roberto Simonsen.
Fechado por cerca de 85 anos, o prédio foi concebido para reunir diferentes especialidades médicas em um único espaço, algo bastante inovador para a época. Com o tempo, perdeu sua função, acumulou dívidas e desapareceu do uso cotidiano, permanecendo apenas como presença silenciosa na paisagem.
Até agora.
Veja fotos da antiga Policlínica:
Entrar ali é um privilégio, mas também um deslocamento de olhar. De repente, fica claro o quanto o Centro ainda guarda potências adormecidas, esperando para serem reativadas.
E talvez essa seja uma das maiores lições do dia: não precisamos necessariamente criar algo novo para reativar a cidade. Basta revelar o que já existe.
Um sinal do que pode vir
Conversando com o Lincoln depois da caminhada, ficou evidente que o mais importante não foi o número de pessoas — embora ele impressione.
Foi o que ele revela.
Nos comentários de quem participou, surgia um sentimento comum: a vontade de ocupar, aprender e se reconectar com o Centro. Uma esperança renovada de que ainda é possível estabelecer uma relação mais sensível com a cidade.
O que vimos naquele sábado? Não apenas uma caminhada, mas um vislumbre de futuro.
Um futuro em que o Centro volta a ser vivido com mais presença, curiosidade e afeto.
E agora?
Se você também quer fazer parte desse movimento, o convite continua:
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Siga @wansspiess, @area.central.sp e @recicloimoveis para mais conteúdo.
E venha descobrir São Paulo de um jeito que você talvez ainda não tenha visto.
Se quiser receber o roteiro da caminhada, me manda uma mensagem no Instagram.
A cidade precisa de você. E, pelo que vimos naquele sábado, ela está pronta para ser vivida.
#QuerCaminharComigo?
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