Beto Lago
Antes de começar minha reflexão, acho importante deixar claro meu lugar de fala nessa história. Em 1997, junto ao Mercado Mundo Mix, criei e organizei a “1ª Parada do Amor”, o primeiro grande evento de rua do Brasil a levar para o grande público e para a mídia temas como diversidade GLS, cultura eletrônica, livre expressão urbana e o abandono vivido por pessoas HIV positivas numa época em que quase ninguém tinha coragem de tocar nesse assunto publicamente.

A Parada do Amor saiu da Praça Charles Miller, no Pacaembu, até a Barra Funda, reunindo DJs, drag queens, cultura clubber, performances e figuras como Elke Maravilha, além de distribuir preservativos e arrecadar roupas e alimentos para ONGs ligadas ao combate à Aids. Tudo isso nos anos 90, quando falar sobre essas pautas ainda gerava preconceito real, medo, violência e rejeição social, inclusive dentro de muitos ambientes considerados “modernos” para a época.
Logo após a Parada do Amor, os movimentos LGBT+ começaram a se organizar através de associações e estruturas próprias do setor. De certa forma, nossa missão inicial tinha sido cumprida, que era chamar atenção da sociedade, da mídia e da cidade para aquela pauta. Em seguida, o projeto se transformou na Parada da Paz, inspirada na Love Parade, e acabou se tornando, de 1998 a 2002, o maior evento de música eletrônica da América Latina, abrindo espaço para a cultura eletrônica no Brasil através de grandes parcerias internacionais, ocupação urbana e convivência cultural.
O que vejo hoje é que parte do movimento LGBT+ passou a viver uma espécie de Síndrome de Estocolmo com suas próprias estruturas de representação. Existe uma dificuldade enorme de criticar determinados grupos, organizações e porta-vozes sem que isso seja imediatamente tratado como ataque à própria causa.

A Parada LGBT+ é da cidade de São Paulo. É patrimônio cultural da cidade. Pertence à cidade, à cultura e às pessoas que ajudaram a construir esse movimento durante décadas.
A sigla GLS foi criada por muitas lutas e muitas mãos, marginalizada e esquecida dentro do contexto daquela época tão difícil do Brasil, ainda na ressaca da ditadura, quando ser gay praticamente era associado automaticamente ao HIV, à marginalidade ou à exclusão social.
Foram esses movimentos, nos anos 90, junto com Mix Brasil, Folha de S. Paulo, Mercado Mundo Mix, MTV, Galeria Ouro Fino e outros espaços culturais, que começaram a empoderar não apenas a diversidade LGBT+, mas também outras comunidades marginalizadas da época, como o rap, a música eletrônica e a cultura da noite, através da convivência pública, da ocupação dos espaços urbanos e da cultura.
Hoje existem diversos movimentos e eventos buscando espaço dentro da própria comunidade de diversidade de gênero. Isso é natural dentro do crescimento social e cultural dessas pautas.
A força histórica das grandes mudanças sociais sempre esteve justamente na união das diferenças e não na fragmentação permanente das pautas. Porque quando o próprio movimento começa a se dividir excessivamente, ele também abre espaço para antagonismos externos crescerem e encontrarem legitimidade no discurso da sociedade.
Hoje a pauta LGBT+ ocupa espaços que eram impensáveis nos anos 80 e 90. Está nas empresas, na política, na mídia, nos espaços de decisão, nas famílias e na própria vida cotidiana das cidades.
E talvez a maior prova de que vencemos pela convivência seja a própria Erika Hilton, deputada federal, que hoje pauta o Brasil para além da bolha dos movimentos sociais que defende com maestria. Quando ela ocupa espaços que historicamente não eram destinados a pessoas LGBT+, ela repete exatamente o espírito do GLS dos anos 90: ocupar o mundo, e não apenas o gueto.
O poder público hoje está aberto ao diálogo. Mas, para isso, o próprio movimento também precisa decidir o que quer construir daqui para frente: fragmentação permanente ou unidade coletiva.
Nenhum movimento sobrevive quando perde a capacidade de conviver com diferenças internas.
No fundo, o mundo sempre foi um grande mix de tudo e de todos.




