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Vila Itororó: de residência luxuosa ao abandono e o retorno como centro cultural

O local que agora abriga o Centro Cultural Vila Itororó já teve palacete e um conjunto de casas e passou por várias fases. Conheça a história

A Vila Itororó é um conjunto de casas e sobrados e um palacete idealizado e construído por Francisco de Castro, filho de imigrantes portugueses, entre 1911 e 1929, na encosta do vale do Rio Itororó, que ficava onde hoje passa a Avenida 23 de Maio. Parcialmente restaurado, foi reaberto em setembro de 2021 como Centro Cultural Vila Itororó, e além de estar aberto à visitação vai receber sessões de cinema, programação musical e outras atividades culturais. Veja programação aqui. O espaço conta ainda com um FabLab e outros equipamentos culturais.

Palacete da Vila Itororó

O local foi construído para moradia do próprio Francisco, no palacete principal, e cercado de casa de aluguel. Também tinha áreas de lazer, como a primeira piscina privada da cidade, e quando morreu, em 1932, Francisco tinha planos e transformar o local num clube. Seguindo a vocação prevista por ele, o local acabou sendo alugado para um clube, o  Éden Liberdade Futebol Clube, décadas depois. O complexo ocupa uma área de 6 mil metros quadrados, com 4 mil metros de área construída, entre os bairros Bixiga e Liberdade.

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Em seus quase 100 anos de existência, a Vila Itororó teve várias fases. O palacete ocupava o centro do terreno, e as casas de aluguel seguiam a topografia da encosta. Depois da morte do construtor, o local foi leiloado pelos credores e continuou servindo como imóvel de renda, mas o casarão já foi dividido. Com o tempo, acabou atraindo um público de menor renda, a falta de manutenção acabou deixando o local em piores condições e por pouco escapou da demolição.

Já nos anos 1970 surgiram as primeiras propostas de transformação num espaço cultural e turístico. Entre idas e vindas, a área foi decretada de utilizada pública em 2006, desapropriada pelo governo do Estado e pela Prefeitura de São Paulo para fins culturais.

Vista geral da Vila itororó

A restauração entregue agora pela Secretaria Municipal de Cultura é parcial. Foram restauradas algumas casas de aluguel e criadas algumas áreas comuns, além da instalação de uma incrível iluminação cênica da artista Lígia Chaim. O plano é continuar a restauração do palacete no futuro.

Foto antiga do palacete
Palacete principal da Vila Itororó

O criador da Vila Itororó

Apesar de nascido em Guaratinguetá, Francisco de Castro, o proprietário e construtor da futura Vila Itororó, era chamado de “o português”. Na verdade, ele era filho de portugueses que chegam ao Brasil em meados do século 19 e se estabeleceram na região do Vale do Paraíba. Em 1880 a família retornou a Portugal e em 1892 Francisco, então com 15 anos, volta ao Brasil

É bem na época em que São Paulo começa a se transformar, graças à riqueza trazida pela exportação do café. É grande também o crescimento populacional, com a chegada de imigrantes europeus, parte se estabelecendo nas lavouras de café no interior do Estado e parte que começa a construir as bases da cidade industrial que São Paulo se tornou nas décadas seguintes.

A cidade começa a se expandir para além dos limites do Triângulo, região hoje chamada de Centro Histórico, e chácaras começam a dar lugar a loteamentos. A população salta de 65 mil habitantes em 1890 para 240 mil em 1900.

Nesta época também o lampião a gás é substituído pela luz elétrica, quando entra em cena também o bonde elétrico.

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Francisco começou a vida profissional no comércio, primeiro em uma empresa de tecidos e armarinhos, depois de exportação de café e por fim como representante de uma tecelagem, quando passa a adquirir terrenos para construir casas para venda e aluguel, aproveitando a crescendo demanda por moradia.

Entre 1900 e 1920, o crescimento foi ainda mais forte. A população saltou de 240 mil para 600 mil e o número de edificações passou de 21 mil para 60 mil. Francisco de Castro começou suas atividades na construção em 1907, quando passou a encaminhar regularmente pedidos de licença de construção à Prefeitura, segundo documentos pesquisados pelo Instituto Pedra, que refez toda a trajetória do antigo proprietário da Vila Itororó para a criação do centro cultural.

Foto antiga da piscina
Piscina

Os pedidos relacionados à Vila Itororó começaram a ser enviados em 1911, e pelo menos até 1929, três anos antes da sua morte, novos pedidos de construções na Vila foram feitos à Prefeitura.

Conforme ele adquiria aos poucos o terreno que hoje compõe a Vila, as construções eram feitas. Primeiro o casarão no centro do terreno, e ao redor as casas que seriam alugadas e serviriam de renda para o construtor.

O Vale do Itororó, por onde passava o Ribeirão Itororó, e cuja nascente fica dentro do terreno. No fundo do vale, foi posteriormente construída a Avenida 23 de Maio. E a Vila Itororó fico num espaço ainda mais nobre, ao lado de vias importantes da cidade.

Francisco de Castro faleceu em 1932, aos 55 anos. No ano seguinte, a Vila vai a leilão. O juiz avaliou que a repartição em lotes desvalorizaria o conjunto e juntou tudo num lote só. Graças a essa decisão, o espaço se manteve como Vila até hoje.

A construção

A Vila Itororó foi construída entre 1911 e 1929. A inauguração da primeira parte foi em 1922. Mesmo o casarão principal, que tinha inicialmente dois andares, foi ganhando colunas e mais dois pavimentos. Desde o início, vários ornamentos são oriundos de demolições, refletindo a dificuldade de encontrar material em São Paulo numa época em que a cidade crescia em ritmo acelerado. Edifícios que eram demolidos tinham seu material aproveitado nos novos prédios.

Detalhe do palacete, com ornamento retirado de outra construção

Assim, carrancas e outros ornamentos que foram retirados do Teatro São José, que ficava onde hoje é o Shopping Light e foi demolido, foram incorporados após 1924. O palacete e os jardins da vila receberam também outros elementos de origem não identificada, como vasos, estátuas e estatuetas de ferro fundido, leões e águias, bancos e cadeiras, placas de bronze com inscrições de poemas e muitos outros.

Piscina, com tela de cinema ao fundo
A primeira piscina particular de São Paulo, com iluminação cênica

Tombamento e transformação em centro cultural

Nos anos 1980, o espaço escapa por pouco de ser vendido a empreendedores imobiliários, mas já começa a ganhar força a visão de preservação do patrimônio histórico, com a criação do Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio). Nos anos 1990, moradores do local se mobilizam para impedir a demolição e para reivindicar seus direitos. Em 2002, a área é tombada pelo Conpresp. Em 2005, ocorre o tombamento pelo Condephaat. Em 2006, com o decreto de utilidade pública e a desapropriação, e as 71 famílias que moravam no local foram alocadas em conjuntos habitacionais na região. Entre 2011 e 2013 houve a reintegração de posse e em 2013 o governo do Estado cedeu o uso do espaço à Prefeitura. Começa então a restauração da Vila Itororó com a aprovação do projeto cultural na Lei Rouanet pelo Instituto Pedra.

O espaço foi gerido pelo Instituto Pedra entre abril de 2015 e março de 2018. Após esse período, o galpão continuou aberto, por mobilização dos moradores do entorno e demais frequentadores, e sua gestão passou a ser realizada diretamente pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Veja aqui: Acervo de fotos históricas.

Veja programação de eventos.

Serviço:

Centro Cultural Vila Itororó
Rua Maestro Cardim, 60
Aberto de terça a domingo, das 10h às 19h (não é preciso reserva ou ingresso para visitação, apenas em alguns eventos culturais, por causa da lotação)
Telefone – (11) 3253 0187

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Denize Bacoccina

Denize Bacoccina é jornalista e especialista em Relações Internacionais. Foi repórter e editora de Economia e correspondente em Londres e Washington. Cofundadora do projeto A Vida no Centro, mora no Centro de São Paulo. Aqui é o espaço para discutir a cidade e como vivemos nela.