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Edifício Esther, o primeiro modernista de São Paulo. Conheça a história do prédio e veja fotos

Restaurante Esther Rooftop recolocou Edifício Esther no mapa. Prédio já foi ponto badalado nas décadas de 1940 e 1950. Veja fotos

Denize Bacoccina

Quem passa para tomar um café na charmosa padaria Mundo Pão, de Olivier Anquier, ou sobe ao seu restaurante Esther Rooftop, com vista para a Praça da República, em geral se impressiona com a quantidade de árvores em pleno Centro de São Paulo. Mas poucos sabem que estão num edifício histórico, o primeiro prédio modernista da cidade. As linhas retas do Edifício Esther hoje parecem comuns para o nosso olhar do século 21. Mas elas causaram muito estranhamento na época da construção, há 80 anos.

Nas primeiras décadas do século 20, São Paulo crescia num ritmo alucinante, dobrando sua população a cada década. A cidade enriquecia com a exportação do café, começava a se industrializar e a elite que ia estudar no exterior voltava com ideias novas, queria modernizar a capital. Nas artes e na literatura o Modernismo já havia ocupado seu lugar, a partir da Semana de 22.

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Mas a arquitetura dependia de um cliente com olhar à frente, que não quisesse apenas copiar o que já vinha sendo feito, repetindo o que viam na Europa. “Normalmente o cliente gosta daquilo que ele já conhece. Tem que ser muito inovador para bancar uma coisa nova”, diz o arquiteto Herbert Holdefer, que transformou o apartamento residencial da cobertura no Esther Rooftop, mantendo e atualizando as características do modernismo.

O pioneirismo

O papel de inserir a capital paulista na arquitetura moderna coube ao empresário Paulo Nogueira. Dono da Usina Esther, produtora de açúcar no interior de São Paulo, ele queria instalar a sede da empresa em São Paulo, para mostrar o sucesso empresarial da família. Ele não queria um prédio qualquer, mas um que colocasse a companhia na vanguarda cultural da capital. Nogueira fez, como era comum na época, um concurso entre arquitetos para selecionar o projeto. A disputa foi vencida por dois arquitetos paulistas de 26 anos, Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho, que tinham ido estudar no Rio de Janeiro e já participavam de grupos que debatiam as ideias modernistas.

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O Edifício Esther, nome da usina e da esposa de Paulo Nogueira, deveria ter no máximo 10 andares e uso misto. Além da sede da usina, abrigaria salas comerciais, outros escritórios e lojas, além de apartamentos residenciais de tamanhos variados, de imóveis pequenos a duplex com cobertura.

Os arquitetos criaram um prédio de 12 pavimentos, com garagem subterrânea, 103 unidades distribuídas em 8 mil metros quadrados e 10 andares – comercial até o terceiro andar e residencial do quarto ao décimo.

Edifício Esther na época da construção, quando ainda não havia prédios altos na Avenida São Luis

Edifício Esther na época da construção, quando ainda não havia prédios altos na Avenida São Luis

Edifício Esther, o primeiro modernista

Nascia assim, em 1938, o primeiro edifício de uso misto e o primeiro prédio de arquitetura modernista de São Paulo. O modernismo seguia cinco princípios básicos, estabelecidos pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier. Os prédios tinham que ter fachada livre, para permitir liberdade para projetos diferentes; janelas em fita, ocupando todo o espaço externo e aumentando a iluminação interna; pilotis, para criar um vão livre para circulação de pessoas no térreo; terraços-jardim, criando um espaço de lazer no terraço e planta livre, dando flexibilidade às plantas internas e permitindo espaços abertos.

Edifício Esther- Prédios Modernistas

Edifício Esther

O concreto, novidade na época, permitia a construção com lajes livres, sem paredes de sustentação. Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho desenharam um prédio retangular, aproveitando igualmente todos os lados, abrindo uma rua nos fundos do terreno para permitir a entrada de luz e escondendo a garagem da avenida principal.

As linhas retas, apesar da aparência simples, escondiam um design sofisticado e detalhista, que pode ser observado até hoje na tipologia do nome do edifício ou na numeração dos elevadores, no desenho exclusivo das luminárias e em vários outros detalhes que ainda hoje chamam atenção.

Assim como nas últimas décadas do século 20, quando a classe média começou a migrar para bairros exclusivamente residenciais, distantes do Centro, o estilo modernista não agradou de imediato. A sociedade conservadora da época considerava o prédio simples demais, sem os adornos afrancesados na fachada que eram considerados sofisticados na época. Paulo e Esther Nogueira também foram questionados pela sociedade da época sobre a “decência” do edifício, considerado exposto demais à rua.  O resultado da desconfiança foi uma inauguração discreta, em 1938. Em vez de uma grande festa, houve uma cerimônia para benzer o prédio.

Mas o preconceito foi rapidamente superado e o edifício teve moradores e frequentadores ilustres, se transformando logo num ponto privilegiado de artistas, intelectuais e empresários mais antenados com a vanguarda. O pintor Emiliano Di Cavalcanti morou no Esther. O arquiteto Rino Levi, autor de importantes projetos na época, teve escritório no prédio. O próprio Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) teve sua primeira sede no subsolo do edifício antes da construção da sede própria, na esquina da Rua Bento Freitas com General Jardim, outro importante edifício modernista.

No subsolo do Esther também funcionaram o Clube dos Artistas e Amigos da Arte, conhecido como Clubinho, presidido por Tarsila do Amaral, e a boate Oásis, frequentada por empresários como Assis Chateaubriand. Entre os anos 1930 e 1960, o Edifício Esther era moderno não só em sua arquitetura, mas também nas atividades que sediava.

Os problemas começaram quando a Usina Esther, em crise, transferiu a sede para o interior para reduzir gastos. Nos anos 1970, com o fim da Sociedade Predial Esther, a empresa deixou de cuidar da manutenção do edifício até que vendeu todas as unidades, iniciando o processo de decadência do edifício. A conservação melhorou a partir do tombamento pelo Condephat (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural).

“Esses prédios contam um pouco a história da verticalização do Centro de São Paulo e a própria história da arquitetura”, diz o arquiteto Felipe Rodrigues. “No início do século 20 era preciso convencer as pessoas de que era possível morar nas alturas”. E a boa arquitetura, diz ele, traz um valor que se torna permanente e reconhecido.

A volta do uso misto

Oitenta anos depois, o terraço abriga justamente o restaurante que colocou o prédio de novo nos holofotes, o Esther Rooftop. No térreo, a padaria Mundo Pão atrai moradores e turistas, na esperança de fazer uma foto com o chef famoso. Ao lado do restaurante, um escritório de advocacia ocupa a outra metade do terraço. E, nos andares intermediários, sobrevivem usos tão distintos quanto uma barbearia, um restaurante por quilo, escritórios de arquitetura e dezenas de apartamentos residenciais, dos mais variados tamanhos.

Edifício Esther- Prédios Modernistas

Edifício Esther

Depois de décadas de separação entre bairro comercial e residencial, o que levou também a um afastamento do Centro, São Paulo volta a perceber as vantagens da região – justamente a mistura de usos e de tamanhos, que permite uma convivência mais diversa. E as lojas comerciais no térreo, que durante décadas foram consideradas deselegantes, voltam a ser vistas como fator de comodidade e segurança para os pedestres que transitam pelas calçadas.

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“Os edifícios modernistas eram alinhados às calçadas e tinham comércio no térreo, em muitos casos galerias de lojas”, diz o arquiteto César Shundi Iwamizu, líder do coletivo de arquitetos SIAA, professor da Escola da Cidade e autor do projeto do Bem Viver General Jardim, empreendimento que busca um diálogo com o entorno ao resgatar a tradição de integração entre o espaço público e privado e que terá um café aberto para a rua, além de uma calçada que entra pela área comum do edifício. “Buscamos um diálogo com a região, com algumas características que se perderam, como comércio voltado para a rua. É uma retomada de cidades mais agradáveis, em vez dos condomínios murados que se fez nas últimas décadas”, diz Shundi.

Além do Esther, vários prédios da região, até os anos 1960, tinham o térreo ocupado por galerias de lojas. Entre eles o Califórnia, o Copan e a Galeria Metrópole. São prédios que, apesar das entradas privativas nas áreas residenciais, têm ambientes comuns que podem ser percorridos pelos pedestres de passagem pelo local, como extensão da rua. “São muitos exemplos que merecem ser olhados com cuidado para utilizá-los como referência”, afirma o arquiteto.

O retorno ao glamour

Quando o chef francês Olivier Anquier  decidiu comprar seu primeiro apartamento em São Paulo, há 14 anos, foi o Esther que ele escolheu. “Lá tinha de tudo, até uma mesquita. Não era o prédio mais convidativo para se morar, mas eu sou louco e fui”, contou Olivier. “Eu sabia que o Centro de São Paulo ia mudar. Todos os centros do mundo mudaram. No Brasil um pouco mais atrasado, mas está mudando”, afirmou.

Esther Rooftop

Esther Rooftop

Pois ele se instalou na cobertura e inclusive fez lá sua festa de casamento com a atriz Adriana Alves. Mas uma infiltração persistente fez com que se mudasse para outro prédio, também na República e, em sociedade com o irmão e outro chef francês, decidiu reformar o local para instalar ali um bistrô ao estilo do país natal. Com o sucesso do empreendimento, Olivier se orgulha de atrair um público que normalmente não se anima a atravessar a Avenida Paulista. Meu maior orgulho é trazer aqui para o Centro uma clientela nova, que tem costume e tradição de só ficar do lado de lá da Paulista. Seja por medo, por desconhecimento, por preconceito, nunca pensaram em vir para o Centro. E agora estão vindo”, diz.

O arquiteto Herbert Holdefer conta que ao ver o salão, logo à saída do elevador, compreendeu que este seria o melhor lugar para o bar. “Quisemos trazer um pouco dos bistrôs franceses, de sentar à calçada, e ao mesmo tempo um respeito muito grande, especialmente à vista”, conta. Vista que, hoje, é o que atrai os que muitas vezes visitam o Centro pela primeira vez, depois de décadas de afastamento. Outra homenagem do arquiteto é o café Modernista, na Rua Major Sertório, inspirado pela obra do paisagista Roberto Burle Marx e com elementos que remetem a Le Corbusier e mobiliário do designer Sergio Rodrigues. “É muito difícil adaptar a arquitetura modernista para a gastronomia, porque um restaurante precisa de um ambiente mais aconchegante, mas no caso do Burle Marx tudo se encaixa perfeitamente”, diz ele.

Edifício Esther - Prédios Modernistas

Edifício Esther

Para Felipe Rodrigues, a boa arquitetura sempre acaba tendo seu valor reconhecido através do tempo. “Por que o aluguel do Copan é mais caro do que o do prédio do lado que tem a mesma área? A arquitetura é o diferencial que vai fazer a pessoa optar por aquele prédio em vez do outro”, responde. Olhando a herança modernista no Centro de São Paulo, é difícil discordar.

Endereço: Avenida Ipiranga, entre as ruas Sete de Abril e Basílio da Gama e Rua Gabus Mendes (fundos)

A série de reportagens “Prédios Modernistas”, produzida pelo A Vida no Centro com apoio do Bem Viver General Jardim, conta a história de alguns prédios modernistas emblemáticos no Centro de São Paulo

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