A Vida no Centro

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Aquário urbano: a arte urbana que transforma o Centro de São Paulo no fundo do mar

Projeto tem aplicativo de realidade virtual e terá murais em 15 prédios, totalizando 10 mil metros quadrados de arte, o que deve colocar a iniciativa no Guinness, o livro dos recordes

Denize Bacoccina e Clayton Melo

Em meio aos prédios modernistas do Centro de São Paulo vivem criaturas do fundo do mar. São peixes, barracudas, polvos, lulas e muitas outras espécies marinhas, de cores reais e fantasiosas, colorindo o que era uma paisagem de concreto cinza. Não se trata de uma fantasia, mas do projeto Aquário Urbano, idealizado pelo produtor de arte urbana Kleber Pagú e pelo artista plástico Felipe Yung Maciel, o Flip.

Quem passa pelas imediações da Rua Bento Freitas e Major Sertório vê que um edifício já foi tomado por esses seres aquáticos. Mas o projeto é muito maior. No total, ele prevê murais em 15 prédios da região, que poderão ser vistos, a olho nu, por quem está nesta esquina – região que nos últimos dois anos viu uma onda de bares, restaurantes, baladas e lojas descoladas transformando as calçadas da região. Quem não puder aproveitar a vibe da Vila Buarque pessoalmente pode visitar o aquário virtualmente, baixando o aplicativo Aquário Urbano, que pode ser baixado na loja de aplicativos do Androide.

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O projeto começou quando os dois se conheceram, no início da gestão João Dória, quando o então prefeito apagou quilômetros de murais na Avenida 23 de Maio. Foi aí que tiveram a ideia de, aproveitando um tema que já era trabalhado por Felipe, criar uma obra que deve entrar para o Guinness, o livro dos recordes, com três feitos: a maior obra já realizada por um único artista, maior obra sem marcação e maior número de pessoas logadas simultaneamente no projeto em realidade virtual.

Pagu, que já foi produtor do muralista Kobra, tem um vasto catálogo de produção de arte urbana, inclusive já inscreveu dois trabalhos no Guinness, ambos no Rio de Janeiro.

Kleber Pagú - Aquário Urbano

Kleber Pagú na Vila Buarque, com os óculos de realidade virtual do Aquário Urbano

Flip é artista plástico e vem trabalhando com estampas camufladas e seres marinhos em vários suportes, de tecidos a murais. Sempre que viaja visita aquários e trabalha com este tema há mais de 20 anos. Já trabalhou em vários países e fez diversos murais, mas esta foi sua primeira empena. E logo uma com mais de 50 metros. “É difícil”, contou ele. Os contornos do desenho foram traçados por ele na parede a partir de uma projeção, e depois foram dois meses de trabalho até concluir a obra.

Os números do Aquário Urbano impressionam: o projeto prevê 6.720 horas de trabalho, o equivalente a 560 dias, ou 18 meses. No total, serão usados 25,4 mil litros de tinta – 8 mil latas de spray, 200 latas de 18 litros e 500 galões de 3,6 litros. Serão necessários ainda 42 balancins (elevadores externos), 5 plataformas aéreas, 6 mil metros de cabo de aço, 1,5 mil metros de corda de segurança, além de 300 pincéis e 90 rolos de pintura, com o envolvimento direto de 72 profissionais. Ufa!

Leia na entrevista exclusiva ao A Vida no Centro os detalhes da inicativa.

Como surgiu o projeto do Aquário Urbano?

Pagu – Quando teve o apagamento da obra na 23 de Maio, conheci o Flip, que acabou me trazendo para este local no Centro e me mostrou uma empena nas ruas Major Sertório com Bento Freitas, no fundo do Edifício Renata Sampaio. É um local com uma arquitetura incrível: tem o Copan, o Edifício Itália, o Hilton. Ele me disse que gostaria de pintar essa parede, que fazia uns nove anos que estava querendo fazer um mural ali. Fiquei maravilhado com a parede. Na mesma hora, como um vício de produtor, passei a olhar as paredes em volta, para entender. Quando olhei, falei para ele: “Felipe, temos aqui 15 paredes para pintar”.

Flip – Na verdade é mais. Porque tem muito mais para pintar. Vamos começar devagar.

E por que um aquário?

Pagú – Pensamos no aquário porque o Flip tem a característica de pintar o fundo do mar. Ele também faz as camuflagens. Faz em tecidos, roupas e faz madeiras com camuflagens. E o projeto tem ainda a realidade virtual, que pode ser vista por um aplicativo de celular, de qualquer lugar. É só baixar.

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Flip, você já tinha feito um mural desse tipo?

Flip – Já fiz vários murais, mas com formato horizontal. Foi a primeira desse tamanho, em empena.

Quando tempo demorou?

Flip – Poderia ser feito em um mês de trabalho direto, mas demoramos dois meses por conta das condições climáticas. Como foi no verão, houve muitos dias chuvosos. Usamos a técnica de projeção, com videomapping, para fazer as marcações. Fizemos um evento paralelo, com o estúdio Curva. Nos intervalos das marcações eles faziam animação. Durou uma noite.

Neste local, Major Sertório com a Bento Freitas, tem dois estacionamentos, o que dá uma grande área vazia no horizonte. Mas um deles já ter um prédio em breve.

Pagú – Eu acredito muito no poder de transformação da arte. A entrega que essa obra traz para a cidade é muito maior do que um prédio. Não me parece que seja algo inteligente do ponto de vista social. Se a arte tem algum poder de transformação é o de fazer com que as pessoas percebam o valor das coisas para além do valor material. Teremos mais 10 mil metros quadrados pintados. Em valor de mercado imobiliário teríamos uma obra de R$ 60 milhões. São 15 empenas, três recordes mundiais. Um deles é a pintura livre, sem marcação. Outro é o recorde de pessoas logadas na realidade virtual simultaneamente, com a distribuição de mil óculos de realidade virtual na virada do ano. O terceiro recorde é o conjunto da obra: a maior intervenção de arte urbana do mundo feita por um mesmo artista. Eu já tenho, como produtor, duas inscrições no Guinnes: um é com o Kobra, um painel de 2,8 mil metros quadrados, no Rio de Janeiro, e a outra é com Luna Buschinelli, uma escola toda pintada por fora, na Presidente Vargas, entre a Candelária e a Central do Brasil.

Como está a captação de patrocínio?

Pagú – Estamos indo para o mercado vender cotas separadas para cada painel. Primeiro, queremos que este seja um projeto de mais pessoas. Para torná-lo viável, estamos com 15 cotas. Até o momento temos o patrocínio de Sherwin Williams, da tinta. E estamos conversando com outras empresas.

E como vocês vêem essa valorização da arte urbana?

Flip – O valor é muito pessoal. É uma evolução que estava demorando para acontecer. Eu sempre bati na tecla que não existe arte mais contemporânea do que a que a gente faz. É uma arte acessível, uma arte super democrática, uma arte que você não paga ingresso. Ela está na rua.

Pagú – Algumas pessoas podem dizer: Pagú, você não acha que a arte urbana gentrifica a região? Eu digo o seguinte: a arte que está dentro do museu é uma arte excludente, porque ela já afasta as pessoas, mesmo que seja gratuita. Colocar na conta da arte urbana o que a especulação imobiliária faz ou o que a própria atividade do capital faz é um absurdo. A arte urbana vem justamente no sentido contrário. Arte urbana é tudo o que é arte, exposto na rua. O Aquário Urbano é um dos projetos, mas estamos pensando, com outras pessoas também, em outros projetos. Não existe nada mais contemporâneo do que a arte urbana.

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