A Vida no Centro

Jaguar Bar - crise do coronavírus
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Venda de créditos antecipada é a saída dos restaurantes para sobreviver à crise do coronavírus

Restaurantes do Centro buscam saídas para bancar a folha de pagamento e conseguir se manter vivos no período em que ficam de portas fechadas

Denize Bacoccina

Bares e restaurantes do Centro de São Paulo, fechados ao público desde o dia 24 de março mas já com queda expressiva no movimento desde a semana anterior, estão desenvolvendo estratégias para tentar manter seus negócios e sobreviver ao período da pandemia do coronavírus.

Alguns estão se dedicando ao delivery, oferecendo desconto quando o pedido é feito diretamente ao estabelecimento, fugindo das taxas elevadas dos aplicativos. Outros fizeram um sistema de venda antecipada de créditos, para ajudar a pagar os custos, especialmente de salários, enquanto estão fechados ao público.

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A chef e proprietária do pub vietnamita Bia Hoi, Dani Borges teve a ideia de lançar os créditos ao ver um sistema semelhante em São Francisco, na Califórnia. Foi a maneira que ela encontrou para bancar os salários da equipe, que está trabalhando de forma reduzida. “Já estamos há duas semanas praticamente sem faturamento, porque já tinha sentido uma queda forte logo no primeiro fim de semana quando o governo anunciou a primeira morte. Recebemos menos de 15 clientes na semana inteira”, conta.

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Apesar de bem-sucedido desde a abertura, há quase dois anos, o restaurante é pequeno e não consegue bancar os custos da operação sem faturar. O local continua aberto exclusivamente para delivery no jantar, recebendo encomendas pelos aplicativas de entrega ou direto pelo telefone 3151-2508, mas o movimento tem sido fraco. Por isso, a ideia de antecipar o faturamento vendendo créditos que são pagos agora e podem ser consumidos num momento futuro, quando acabar o isolamento. Os descontos são progressivos. Um crédito de R$ 30 dá direito a usar R$ 40, o de R$ 50 vai valer R$ 65 e o de R$ 100 gera um crédito de R$ 140. Recursos que serão destinados exclusivamente para pagar os salários da equipe, diz Dani.

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Sistema de crédito

Luiz Campiglia, chef e proprietário do Paribar, também apostou no sistema de créditos para melhorar o faturamento do restaurante, que tem funcionado com um cardápio mais enxuto no almoço durante a semana, com foco na entrega por aplicativos ou retirada no local.

Como o Paribar fica no calçadão, uma área com alta densidade de escritórios, muitos dos quais continuam funcionando, o movimento tem sido bom na hora do almoço. “Não chega nem perto do que faturávamos antes, mas por ser um negócio novo, acho que está indo bem”, diz Luiz. A preocupação, como no caso dos outros pequenos negócios da região, é com o salário da equipe. “Tudo o que faturamos dividimos com a equipe”, conta ele.

Para garantir o fôlego até voltar a funcionar normalmente, o Paribar lançou nesta quinta, 26, um sistema de créditos que poderá ser utilizado nos fins de semana, quando o restaurante serve feijoada e peixada, aos sábados, e um concorrido brunch aos domingos. O crédito de R$ 30 dará direito a consumir R$ 40, o de R$ 40 dará direito a R$ 50 e o de R$ 100 valerá R$ 120. “100% dos recursos dos créditos será destinado a pagamento de salários dos funcionários”, diz Luiz.

Aposta no delivery

O Tubaína, bar e restaurante especializado em tubaína na Rua Haddock Lobo, também voltou toda a operação para o delivery, inclusive com entrega própria. Veronica Goyzueta, uma das sócias, conta que vem conversando com os funcionários há três semanas sobre a pandemia e seus efeitos e já fez os ajustes que precisava neste momento: dispensou alguns, deu férias a outros e organizou o transporte para os que estão trabalhando, que estão indo em dias alternados, para reduzir os riscos. O Tubaína está mantendo o cardápio normal, e opera nos aplicativos mas está oferecendo um desconto de 20% para quem pede pelo Whatsapp 94504-4541. O restaurante está funcionando das 11h às 23h.

Tubaína, de Veronica Goyzueta, opera com aplicativos e oferece desconto de 20% para quem faz pedido pelo WhatsApp

Na comunicação para lembrar que está operando com o delivery, o Tubaína destaca a importância de estimular os pequenos empreendimentos da vizinhança, com mais dificuldade para resistir a uma crise deste tipo. “Muitos vão fechar se não apoiarmos, e quando isso acabar vamos descobrir que aquele bar, aquela padaria que a gente de ir não vai estar mais lá porque não aguentou. Temos que estimular o comércio local, fazer um esforço para ligar nesses lugares, consumir com eles quando quisermos uma entrega, porque muitos podem não resistir”, diz Veronica, lembrando que o setor de gastronomia é formado por empresas de pequeno e médio porte e uma grande empregadora.

“As pessoas estão consumindo, a gente vê muito entregador de comida na rua. O que a gente pede é que as pessoas peçam direto nos restaurantes”, diz Veronica.

Financiamento coletivo

No Jaguar, restaurante especializado em milanesas no Campos Elíseos, os sócios Ronaldy Fraga e Fabio Schaberle deram folga para toda a equipe de 10 funcionários fixos e são os únicos que continuam trabalhando, operando com entrega pelos aplicativos ou aceitando encomendas para retirada, pelo WhatsApp 93150-9302, entre 12h e 15h.

Antes mesmo do fechamento pelo decreto estadual, o restaurante, que costuma ficar lotado, já tinha sentido uma queda drástica no movimento, Para bancar a folha, criaram uma campanha no Abacashi, site de financiamento coletivo, vendendo créditos que podem ser resgatados a partir de julho. Os valores maiores ainda dão direito a recompensas, como camisetas, fotos e até um drinque com seu nome no menu da casa. A arrecadação ainda está fraca, mas cada vez tem mais gente divulgando, diz Ronaldy.

Para ajudar também outros estabelecimentos que passam pelo mesmo problema, ele criou o Instagram @vamosatévocê, que divulga pequenos empreendimentos de gastronomia.

Crise do coronavírus e o setor

O setor de bares e restaurantes também vem se mobilizando para pedir ao governo isenções de tributos e auxílio para ajudar a equilibrar as contas. Estabelecimentos deste setor representavam 7,7% das empresas de São Paulo em 2016, segundo dados de uma pesquisa feita pelo Dieese por encomenda da Prefeitura de SP. São 23 mil estabelecimentos, dos quais quase 2 mil estão nos distritos da Sé, República e Consolação. Os negócios de pequeno porte são a grande maioria: 44% têm menos de quatro empregados.

 

Denize Bacoccina

Denize Bacoccina

Denize Bacoccina é jornalista e especialista em Relações Internacionais. Foi repórter e editora de Economia e correspondente em Londres e Washington. Cofundadora do projeto A Vida no Centro, mora no Centro de São Paulo. Aqui é o espaço para discutir a cidade e como vivemos nela.