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“Na quarentena, as pessoas têm de escutar a si mesmas. E isso assusta”, diz psicanalista

Psicanalista Francisco Nogueira é um dos criadores de grupo de escuta, que conta com 50 profissionais voluntários, para ajudar as pessoas a manter a saúde mental na quarentena. Nesta entrevista, ele dá dicas de como manter o equilíbrio emocional durante o isolamento

Um dos criadores de um projeto de escuta, que conta com cerca de 50 psicanalistas que trabalham de forma voluntária, o psicanalista Francisco Nogueira fala nesta entrevista ao A Vida no Centro sobre como manter a saúde mental na quarentena

Denize Bacoccina e Clayton Melo

A pandemia de coronavírus mexeu com todo mundo. Medo, ansiedade, raiva, excesso de trabalho e de tarefas, mistura de ambienta profissional e pessoal. E tudo sem a possibilidade de encontrar os amigos, suar a camisa na academia, relaxar numa caminhada pela rua ou parque. Alerta para os inúmeros problemas que essas mudanças causam na saúde mental, o psicólogo e psicanalista Francisco Nogueira criou o projeto Experiência de Escuta Covid-19, dentro do projeto Relações Simplificadas, que ele já tinha montado há sete anos, oferecendo workshops para ensinar as pessoas a simplificar as relações e viver melhor.

O projeto de escuta é feito por um grupo de cerca de 50 psicanalistas, que trabalham de forma voluntária, oferecendo sessões de 30 minutos, que podem ser marcadas diretamente com o profissional, por meio deste link. Não se trata de uma sessão de psicanálise, mas de uma escuta profissional, com o objetivo de aliviar o sofrimento de pessoas que se sentem angustiadas no isolamento, seja por estar sozinha em casa ou, ao contrário, por estar o tempo todo com as mesmas pessoas, num relacionamento mais intenso do que estava acostumada na rotina anterior à pandemia. “As pessoas dizem que tem sido uma experiência muito boa. Que é bom conversar com alguém que não está na mesma casa. Elas se sentem muito gratas. E gratidão é um antídoto para o nosso ressentimento, a nossa raiva”, diz Francisco.

Saúde mental na quarentena

Nesta entrevista ao portal A Vida no Centro, Francisco conta que muita gente está se deparando com aspectos que ela mesmo desconhecia, não apenas sobre os outros, mas sobre elas mesmas. “Algumas pessoas se assustam muito com o que ouvem e veem de si mesmo. Imagina um rio que tem uma água cristalina, e você mexe o fundo e vem aquela poeira que deixa a água turva. A impressão que eu tenho é que coisas que estavam ali adormecidas na quarentena estão aparecendo. Tem muita gente muito angustiada, muita gente com muito medo, outros com raiva. Mas sobretudo muita gente se sentindo impotente”, diz ele.

OUÇA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA NO PODCAST DO A VIDA NO CENTRO

E leia abaixo os principais pontos da entrevista.

A Vida no Centro – Você tem um projeto, junto com a Nina Campos, chamado Relações Simplificadas, que faz workshops, palestras, usando as ferramentas de psicanálise e do trabalho de palhaço dela. Como é esse trabalho?

Francisco Nogueira – Ele surgiu há uns sete, de uma percepção de uma dificuldade que todo mundo tem nas relações. Eu sou psicólogo e psicanalista e tenho muitos profissionais de saúde na família. E nos almoços de domingo sempre vinham perguntar como lidar com alguns pacientes. Então a gente passava os domingos fazendo estudo de caso. E um dia fui ao dentista, numa segunda-feira, depois de um almoço desses, e sabendo que eu era psicanalista ele começou a me contar dos casos. E ele ficou uma hora, enquanto eu estava com a boca aberta, contando várias histórias de pacientes, como eles se comportavam, e eu ali, sem poder falar nada. Quando terminou, esperei que ele fosse querer a minha opinião, eu queria falar, mas ele me botou para fora do consultório, e eu fiquei com aquelas perguntas todas. Aí surgiu a ideia desse trabalho. Fiquei dois anos fazendo a curadoria para montar o workshop. E chamei a Nina, que tem este trabalho do palhaço e ela fez toda a mediação do conteúdo e a gente montou este workshop. Resolvemos fazer esse canal no You Tube para levar este conteúdo para mais pessoas e uma aplicabilidade para facilitar as relações muito grande.

Então o que você fez com o dentista, levado por ele, foi um processo de escuta, né? Já que você não podia falar nada.

Pois é. Eu até o convidei para fazer o workshop, mas nunca deu certo, nunca teve agenda. Uma das principais ferramentas para a gente cuidar das relações é a escuta. E não só a escuta do outro. Mas a escuta da gente mesmo. Vejo que tem muita gente com muita dificuldade de escutar os próprios sentimentos, as próprias emoções.

E agora neste momento de isolamento, como está o processo de escuta, o que as pessoas estão trazendo?

Só voltando um pouquinho, a gente montou o Relações Simplificadas e dentro do workshop um processo de escuta diferente de tudo o que eu tinha visto na psicanálise. E quando veio o coronavírus eu vi a experiência de outros países que já estavam vivendo isso antes e, junto com um amigo, nós tivemos a ideia de montar um grupo de escuta, com voluntários. E hoje ele funciona de forma independente do Relações Simplificadas, porque é um trabalho voluntário. Temos um grupo de cerca de 50 profissionais que proporciona isso para quem quiser participar. A gente tem observado que, no isolamento, as pessoas têm que enfrentar a escuta de si mesmo. E como a gente não tem uma educação emocional, a gente não aprende isso. Algumas pessoas se assustam muito com o que ouvem e veem de si mesmo. Imagina um rio que tem uma água cristalina, e você mexe o fundo e vem aquela poeira que deixa a água turva. A impressão que eu tenho é que coisas que estavam ali adormecidas na quarentena estão aparecendo. Tem muita gente muito angustiada, muita gente com muito medo, outros com raiva. Mas sobretudo muita gente se sentindo impotente. Diante do que está acontecendo, diante da ameaça do vírus. Tem uma variedade muito grande de fenômenos.

Você falou do silêncio que está incomodando as pessoas. Vocês também têm notado um aumento de problemas de pessoas que passaram a conviver juntas? Casais que ficavam pouco juntos e agora tem que ficar juntos tempo todo, com os filhos? Tem muitos problemas desta ordem também?

Sim. Tem muitas famílias que os filhos moravam fora e voltaram para a casa dos pais. Tem casais que estavam em processo de separação e agora ficaram no meio do caminho. E tem casais que tinham um relacionamento que parecia muito bem organizado e agora no confinamento começam a aparecer muitas brigas. Então a gente percebe o aumento também nos casos de violência doméstica. Tem famílias que estão vivendo a quarentena, mas às vezes tem um membro da família que não aceita e expõe a família. E isso gera muita angústia, muito ressentimento, e por parte de uma pessoa que é uma pessoa amada. Tudo isso é muito conflituoso. Quando a gente casa com alguém, lá no altar a gente fala o sim para a melhor versão do outro. E a gente também quer oferecer a nossa melhor versão. Mas tudo isso está em jogo agora. Na China depois da quarentena o número de divórcios aumentou muito. E a gente está preocupado que isso pode acontecer aqui. Acho que as pessoas estão descobrindo um lado das outras que talvez elas nunca viessem a conhecer se não fosse a quarentena.

Mas também um lado de si próprias, não é? O que as pessoas contam de si próprias? Quais são as principais queixas, angústias?

Muito relacionado a impotência, medo, ansiedade, muitos casos de crise de ansiedade. Mas a gente também pega a parte da população que está em maior sofrimento, as pessoas que buscam ajuda. Não sei se é representativo de toda a sociedade. Mas é isso: raiva, medo, ansiedade. E agora começam a aparecer alguns casos de depressão. Talvez por ficarem confinadas, porque as pessoas não estão conseguindo fazer exercício. Não sei se são casos mesmo de depressão ou um sentimento de tristeza.

E o que você sugere para as pessoas se cuidarem e não caírem numa depressão e reunirem forças para enfrentar este momento?

Hoje mesmo eu estava agora na varanda com a minha esposa e meu filho tomando sol. Uma das coisas, para a gente dormir bem e ter um ciclo diário de qualidade é tomar sol. Outra é se alimentar bem. Parecem coisas pequenas, mas são muito importantes. Quem está se sentindo muito mal também pode procurar um psicanalista, muitos estão atendendo por telefone. Tem também o processo de escuta, como a gente está fazendo. Às vezes a pessoa falando ela se organiza. E organizar uma rotina. A gente vê pessoas que estão com possibilidade de fazer home office dizendo que não conseguem separar a vida pessoal do trabalho. Acorda trabalhando, vai dormir trabalhando. É muito importante colocar uma roupa para trabalhar, trocar a roupa depois. A gente perdeu os ritos de passagem: sair de casa, chegar no trabalho, dar bom dia para as pessoas, voltar para casa. Esses ritos de passagem organizam o nosso mindset, o nosso mundo interno. Isso é importante. Uma pessoa me contou que montava e desmontava o espaço de trabalho dela todo dia. Uma dica que eu achei preciosa.

As pessoas reclamam mais quando estão sozinhas em casa e não tem como interagir muito, pelo menos não pessoalmente, ou quando estão em isolamento forçado com muita gente?

Eu vejo os dois reclamando do mesmo jeito. É complicado isso. Tem estudantes que dividem a casa com outras pessoas, e aí acabam ficando sozinhos porque o colega foi viajar, e se sentem mal por isso. Vejo os dois reclamando pelas mesmas razoes. Uma coisa que funciona muito é juntar os amigos numa videoconferência, fazer um jantar. Eu ouço muito as pessoas contando que isso gera um alívio.

Eu sei que tudo ainda é muito incipiente, mas você já consegue imaginar o que pode ficar depois da pandemia? Que tipo de transformações no comportamento das pessoas de uma maneira mais permanente?

No aspecto negativo, eu me preocupo muito com os processos de luto. Essa confusão no governo pode aumentar o número de casos desnecessariamente. E isso vai aumentar o número de óbitos e os processos de luto ficam muito complicados. A gente não vai poder se despedir das pessoas. Em alguns lugares o sistema funerário já entrou em colapso. Uma situação de horror. E isso está cada vez mais perto da gente. E o horror junto com o luto é uma situação que beira o insuportável. No aspecto negativo eu me preocupo com isso. Como a gente cuida da saúde mental das pessoas. E mesmo no caso de pessoas que não perderam ninguém, que estão fazendo home office a gente já vê muitos casos de burnout. Ter que dar conta do trabalho, dos filhos, da casa. A pessoa não se sente um bom profissional, uma boa mãe, um bom pai, porque não consegue fazer as coisas direito. Tem muitas empresas, muitos chefes, que ainda não entenderam isso. E vejo que as pessoas estão entrando em burnout e quando houver a abertura são essas pessoas que vão ter que trabalhar e elas não estão em condições de trabalhar.

Do lado positivo, eu vejo muitas ações de solidariedade, de tolerância, uma capacidade maior de a gente olhar para o outro, de entender a situação do outro. A gente tem visto no discurso dos grandes economistas do mundo uma mudança de postura muito interessante, de pensar que investimento em saúde, em educação, não são gastos, são investimentos. Isso pode trazer para a gente uma consciência maior de que certas coisas a gente não pode abrir mão, não pode negociar. Acho que a gente pode ter uma melhoria dos sistemas de saúde e educação, mas pode também ter um salto de qualidade humana, à medida em que as pessoas podem se cuidar melhor e cuidar melhor das relações.

E muitas ações foram tomadas agora. Por exemplo, sempre teve muita gente em situação de rua, e agora parece que as pessoas estão olhando mais para elas. Você acha que isso pode ficar depois? Você vê uma chance de mudança de longo prazo?

Por definição da minha profissão eu preciso ter esperança nas pessoas. Senão eu nem começo o tratamento. A gente cuida do luto, a gente cuida do burnout e a gente espera que haja uma tomada de consciência com essas coisas que são tão fundamentais que é o cuidado das pessoas. Aumentando o cuidado aumenta a qualidade das relações e todo mundo ganha.

E sobre sonho, as pessoas relatam que estão sonhando mais?

Sim, sim. Sonhos mais vividos. Tanto por conta de angústias, que estavam com a gente há muito tempo e que agora num momento de maior medo, de maior vulnerabilidade, o nosso aparelho psíquico bota isso para trabalhar, quanto pelas mudanças na nossa fisiologia mesmo. A gente tem tomado menos sol, feito menos exercício, caminhado menos. Baixo exercício físico e baixa exposição ao sol causam mudanças no nosso sistema hormonal. E isso causa mudanças no sono.

E são sonhos mais perturbadores?

Não necessariamente. Esta noite sonhei cinco vezes que eu estava comendo hambúrguer. E eu estava sempre com grupo de amigos. O sonho funciona sempre elaborando angústias ou realizando desejos. Muitas pessoas relatam sonhos de viajar com amigos. Outras relatam angústias. As duas coisas estão acontecendo.

E para marcar a conversa com os profissionais, como faz?

É só entrar no site, escolher o profissional, marcar o horário, uma sessão de 30 minutos, e na hora combinada o profissional entra em contato. Pode marcar quantas vezes quiser. A gente só recomenda que não seja com o mesmo profissional, para não criar um vínculo, porque esse site vai sair do ar depois que terminar o isolamento social.

E qual tem sido o feedback das pessoas que estão sendo atendidas?

Algumas dizem que tem sido uma experiência muito boa. Que é bom conversar com alguém que não está na mesma casa. Elas se sentem muito gratas. E gratidão é um antídoto para o nosso ressentimento, a nossa raiva. Elas dizem que gostaram muito e voltam a procurar. Isso é muito bacana.

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Denize Bacoccina

Denize Bacoccina

Denize Bacoccina é jornalista e especialista em Relações Internacionais. Foi repórter e editora de Economia e correspondente em Londres e Washington. Cofundadora do projeto A Vida no Centro, mora no Centro de São Paulo. Aqui é o espaço para discutir a cidade e como vivemos nela.