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A Vida no Centro

Grafite no espaço cultural No Arouche. Foto: Denize Bacoccina

Economia criativa embala a retomada do centro de São Paulo

O projeto A Vida no Centro conversou com alguns dos principais empreendedores e instituições que estão transformando o centro num polo de economia criativa vibrante e dinâmico

Por Denize Bacoccina
com colaboração de Clayton Melo

Depois de quase dez anos de reforma, o Sesc 24 de Maio abriu no dia 19 de agosto sua unidade no centro de São Paulo. O Instituto Moreira Salles abre na Avenida Paulista, perto da Consolação, sua nova sede na cidade no dia 20 de setembro. O Sebrae terá a partir de outubro um centro de empreendedorismo tecnologia e economia criativa no palácio Campos Elíseos, antiga sede do governo do Estado. O edifício Altino Arantes, edifício-símbolo de São Paulo e pertencente ao Santander desde que o banco espanhol comprou o Banespa, em 2000, será reaberto em novembro como um centro voltado à cultura e à economia criativa.

O bloco de carnaval Baixo Augusto está montando na Rua da Consolação uma sede que, além de rodas de samba, vai promover cursos gratuitos ligados à economia criativa. A Galeria Metrópole, depois de passar por um período de decadência com o esvaziando do centro como local de compras, vive um novo momento, com a instalação de bares descolados, escritórios de arquitetura e lojas de design nas salas que antes só abrigavam lojinhas de turismo e câmbio.

Todos esses empreendimentos, ligados à inovação e cultura, são parte do novo momento vivido pelo centro de São Paulo. A região, que foi a mais importante da cidade até os anos 1970 e em seguida amargou três décadas de decadência, com fuga de população e de estabelecimentos comerciais vive um momento de efervescência, com renovação no comércio, novos espaços de cultura e lazer.

A mudança no perfil está alinhada com o novo espírito do tempo: redução do uso de carro ao mínimo, ocupação e uso de espaços públicos e preferência pelo acesso e busca de experiências, em vez do acúmulo de bens materiais.

Sesc 24 de Maio

O Sesc 24 de Maio atende, por um lado, a um antigo desejo da população por mais opções de lazer no centro e, por outro, por mais movimento no calçadão nos quarteirões que ficam entre o Theatro Municipal e a Praça da República. Movimentadíssima durante o dia, a região ficava vazia a partir das oito da noite e aos domingos, tornando-se um lugar evitado pelos pedestres, receosos de caminhar numa região ocupada apenas por moradores de rua.

Público lota o Sesc 24 de Maio no segundo domingo de abertura. Foto: Denize Bacoccina

Público lota o Sesc 24 de Maio no segundo domingo de abertura. Foto: Denize Bacoccina

Isso já mudou. Desde o dia 19 de agosto, quando o Sesc abriu as portas, o prédio fica lotado de gente e as ruas em volta ganharam um novo vigor. Não deve demorar até que os restaurantes da região, hoje fechados aos domingos, percebam que podem se beneficiar da longa fila que se forma na comedoria do Sesc.

O projeto de reforma elaborado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha busca justamente esta integração com o entorno. Seguindo a tendência das galerias instaladas na região nos anos 1950 e 1960, o térreo é parte da calçada, permitindo que os pedestres façam a travessia entre as ruas 24 de Maio e Dom José de Barros por dentro.

O gerente regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, diz esperar que a abertura do Sesc ajude a melhorar a região. “No centro já existe muita coisa, mas a gente espera colaborar para que o entorno se torne um pouco diferente, com uma qualidade um pouco maior”, afirma.

Galeria do Rock, agora renovada mas mantendo um público fiel. Foto: Clayton Melo

Galeria do Rock, agora renovada mas mantendo um público fiel. Foto: Clayton Melo

Galeria do Rock

A um quarteirão dali, a Galeria do Rock, que viveu um período de decadência nas décadas de 1980 e 1990, foi revigorada e hoje tem as instalações em bom estado, abriga uma série de lojas de moda, música e cultura jovem, sem perder o DNA do rock. A renovação tem muito a ver com o trabalho de Antonio de Souza Neto, o síndico da Galeria do Rock há mais de 20 anos, e que comandou um processo de recuperação do espaço e do ambiente de negócio, atraindo novas lojas e frequentadores.

Galeria Metrópole

Nos anos 1960, quando foi construída, a Galeria Metrópole era um dos centros comerciais mais luxuosos de São Paulo. Nos últimos anos, com a renovação da área central, a Metrópole foi descoberta por escritórios de arquitetura e designers, atraídos pela combinação de boa arquitetura e boa localização.  “Nitidamente se vê que o perfil da Galeria Metrópole, que tem uma tradição de escritórios agências de viagem, por exemplo, está se transformando”, afirma o produtor musical Guto Ruocco, fundador da Circus Produções Culturais, empresa criada em 2006 e que desde 2014 está sediada no terceiro andar da galeria. “A expectativa de quem está ocupando esses novos espaços é desenvolver a cena da economia criativa aqui”.

Ao lado da Circus, o advogado Norton Wells abriu há uma loja que mistura café, brechó e bar, de olho no novo perfil do frequentador do Metrópole. “Aqui tem muitos profissionais que deixaram seus trabalhos na área de atuação original para montar um negócio”, diz Norton. No Metrópole, no entanto, a administração do condomínio ainda não abraçou o novo perfil do local, e coloca restrições ao funcionamento de bares que poderiam permanecer abertos até de madrugada, ao impedir a entrada do público na galeria a partir de um determinado horário.

Facundo Guerra

Argentino nascido em Córdoba e criado no centro de São Paulo, Facundo Guerra é um dos principais nomes da cena empreendedora da cidade. Sócio de vários empreendimentos, como o Mirante 9 de Julho, Riviera Bar, Lions, Yatch, Z Carniceria e Cine Joia, ele se prepara para inaugurar mais um: o Bar Arcos, bar que ficará no subsolo do Theatro Municipal.  “A ideia é criar um bar que seja um dos 50 melhores do mundo. Vai ser o primeiro bar do mundo a ter uma programação erudita ao vivo, tirando a visão de que esse tipo de música precisa estar só no Theatro Municipal ou na Sala São Paulo”, diz Facundo nesta entrevista ao A Vida no Centro. 

“Queremos desmistificar a ideia de que bar com som ao vivo deve ter jazz ou blues, por exemplo. Por que não pode haver um quarteto de cordas? Vamos colocar o erudito dialogando com o contexto contemporâneo da música.”

Isso é Café, cafeteria no Mirante 9 de Julho. Foto: Denize Bacoccina

Isso é Café, cafeteria no Mirante 9 de Julho. Foto: Denize Bacoccina

No Arouche

Aproveitando esse novo perfil de morador da região, e à espera do projeto de reforma do Largo do Arouche, que deve começar nos próximos meses, o empresário Munir Candalaft Júnior reformou, junto com o irmão, Fabio, um imóvel da família na Rua do Arouche, para transformá-lo num espaço ligado à economia criativa.

O local, todo decorado com grafites, foi batizado de No Arouche, e terá shows e oficinas de grafites e locações temporárias para artistas ou artesãos comercializarem seus produtos. “Aproveitando essa onda de recuperação de imóveis vi que era a hora de fazer alguma coisa bacana pelo centro“, diz Munir, que investiu R$ 200 mil para recuperar o imóvel de 105 anos e deixá-lo pronto para a nova atividade.

Casa do Baixo Augusta

O início da Rua da Consolação, um movimentado entroncamento viário com baixo fluxo de pedestres deve ganhar nova vida e partir de setembro. A Casa do Baixo Augusta, novo projeto do bloco de carnaval comandado por Alê Youssef, está sendo montada no térreo e sobreloja de um prédio comercial quase em frente à igreja da Consolação, com vista para um mural patrocinado pelo bloco com a frase “A Cidade é Nossa”, lema do carnaval deste ano e símbolo desse novo pensamento que vem crescendo entre os paulistanos.

Com patrocínio da Doritos, ali serão realizados cursos de atividades artísticas, como DJs e música, e rodas de samba e outros shows abertos. O objetivo do projeto foi canalizar para um projeto social a força política do bloco, que no último carnaval levou 300 mil pessoas às ruas, defendendo o direito de ocupar os espaços públicos com cultura.

Do outro lado do Minhocão, a Vila Buarque já se transformou num dos novos polos gastronômicos de São Paulo. Num espaço de poucos quarteirões, estão instalados pontos badalados como o Holy Burger, o Armazém Álvares Tibiriçá e o Fôrno. Sem contar os bares próximos ao Mackenzie, onde centenas de jovens se concentram na calçada no início da noite.

Mais próximo à República, empresários da gastronomia como Jefferson Rueda, da Casa do Porco, e Olivier Anquier, do Esther Rooftop foram responsáveis por atrair para a região um público que não estava mais acostumado a frequentar o centro. Na Rua Nestor Pestana, a empresária Lilian Malta Varella restaurou um casarão de 1920 para instalar lá o seu Drosophyla, bar que tinha em outro endereço do centro, perto do cemitério da Consolação. “Eu acho o centro lindo. Nada contra o Itaim, mas é um outro estilo. As pessoas aqui são mais cool. É menos engessado”, afirma.

Salão principal do Drosophyla, num casarão de 1920 totalmente restaurado. Foto: Lufe Gomes

Salão principal do bar Drosophyla, num casarão de 1920 totalmente restaurado. Foto: Lufe Gomes

Esses novos empreendimentos se juntam a outros, que já se instalaram na região há algum tempo. Um deles é o Bar da Dona Onça, instalado no Copan há nove anos, e que traz gente da cidade inteira para provar a comida caseira em apresentação requintada da chef Janaina Rueda. O Teatro Porto Seguro está desde 2015 no Campos Eliseos, bem no meio da região de concentração de usuários de crack.

Mais moradores

Também ali próximo, em frente à Sala São Paulo, o governo do Estado fez uma parceria público-privada para construir um complexo que terá oito edifícios residenciais, um boulevard e a nova sede da Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim. Tudo dentro do princípio de que é preciso ampliar o número de imóveis residenciais no centro, já que a região concentra o maior volume de empregos.

Parece óbvio. Mas por muito tempo essa lógica não vigorou. Depois de diminuir nas últimas décadas do século 20, o número de moradores no centro começou a aumentar somente nos últimos 15 anos. Os números ainda mostram o enorme potencial para novas unidades habitacionais: a região central concentra cerca de 17% dos empregos da cidade, mas apenas 3% da população vivem nesta área.

Numa cidade congestionada como São Paulo, morar perto do trabalho tornou-se um dos componentes mais importantes para se ter uma boa qualidade de vida.  De olho nesta tendência, a incorporadora Setin lançou, há sete anos, dois novos prédios de um dormitório na região. Vendeu tudo em um mês e se animou a fazer cinco outros projetos. “Eu sempre quis fazer alguma coisa no centro, mas há 20 anos eu não tinha certeza se haveria demanda“, conta o dono da empresa, Antonio Setin, em entrevista ao A Vida no Centro.

Isso mudou nos últimos anos. “Há sete anos fiz um estudo e percebemos que as pessoas estavam começando a ir morar no centro e reclamavam muito que os prédios não tinham nenhuma infraestrutura, não tinha piscina e mesmo assim o condomínio era caro”, diz. Setin projetou prédios com apartamentos pequenos, para casais ou pessoas que moram sozinhas, mas querem morar num lugar com boa infraestrutura e condomínio compatível”, afirma.

A crise no mercado imobiliário desacelerou as vendas, mas ele está confiante de que o mercado está lá e vai reagir, mesmo que mais lentamente. Tanto que tinha planejado um outro prédio residencial no lugar onde será instalado o Parque Augusta – cancelado porque foi impedido de construir no local e teve que trocar por outro terreno, em Pinheiros.

Agora, com o parque, a região deve atrair ainda mais moradores. A discussão do momento no Baixo Augusta não é mais se o lugar é bom para viver. Mas o quanto a descoberta de suas qualidades por um número crescente de paulistanos vai levar a uma gentrificação do lugar. Para alguns, um processo inevitável.