A Vida no Centro

Denize Bacoccina

Blog da Denize Bacoccina

Denize Bacoccina é jornalista e especialista em Relações Internacionais. Foi repórter e editora de Economia e correspondente em Londres e Washington. Cofundadora do projeto A Vida no Centro, mora no Centro de São Paulo. Aqui é o espaço para discutir a cidade e como vivemos nela.

Direito à cidade?

Denize Bacoccina escreve sobre o fechamento do Vale do Anhangabaú e o retrocesso de São Paulo em relação ao espaço público

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Denize Bacoccina

As fotos que ilustram este artigo foram tiradas na manhã de sábado, dia 29 de abril. Quem passou pelo Centro Histórico no fim de semana não conseguia ver o Vale do Anhangabaú. Sequer consegue ver direito o Viaduto do Chá, já que os tapumes de metal atrapalham a vista – uma das mais bonitas do Centro, rodeadas de prédios do começo do século 20, muito bem preservados e que se tornaram um cartão postal de São Paulo.

Foto: A Vida no Centro

Os tapumes também impedem a travessia do Vale do Anhangabaú pela Avenida São João. Quem quer atravessar de um lado a outro do Centro precisa dar uma volta muito grande, passando por lugares com pouco movimento e, dependendo do horário, inseguros, longe dos postes altos com forte iluminação que foram instalados na reforma realizada entre 2018 e 2020.

Foto: A Vida no Centro

Em alguns momentos, a situação pode piorar ainda mais. No fim de semana anterior – 22 e 23 de abril –, por exemplo, também o acesso da Rua Formosa ao Shopping Light e o Theatro Municipal estava fechado.

Naquele fim de semana, moradores do outro lado da Praça da República podiam ouvir o som do palco de dentro de casa, até de madrugada. Além da falta de respeito com o silêncio durante a noite, o fechamento de todo o vale fragiliza a segurança de toda a região: talvez o local fique seguro para quem está dentro dos tapumes, mas o cercamento aumento a insegurança dos que estão do lado de fora.

Foto: A Vida no Centro

A reforma do Vale do Anhangabaú foi anunciada como uma melhoria do espaço público, que levaria mais acessibilidade, mais iluminação, mais segurança. O Anhangabaú deixaria de ser um lugar de passagem para ser um local de permanência. E, de fato, apesar de dividir opiniões, a reforma deixou o local mais aberto, mais iluminado, e potencialmente mais seguro.

Foto: A Vida no Centro

No projeto, o espaço viraria uma grande praça pública, seria utilizada pelos cidadãos no dia a dia, viraria um ponto de encontro, os quiosques seriam ocupados por bares, cafés e grandes shows seriam realizados ali. “O objetivo é trazer vida para o Centro de São Paulo, especialmente no período noturno”, disse em entrevista ao A Vida no Centro o então secretário de Urbanismo, Fernando Chucre.O novo Vale do Anhangabaú vai ser um espaço transformador, vai virar uma grande praça cívica”, disse em outra entrevista o arquiteto Mario Biselli, autor do projeto de reforma. “O miolo do Anhangabaú é um espaço cívico que vai receber grandes massas”, afirmou.

Foto: A Vida no Centro

Infelizmente, não foi esse o destino do Anhangabaú depois que a Prefeitura concedeu o espaço ao setor privado num contrato que o tornou, na prática, um espaço privado. O que temos é uma mistura de atividades de pequeno porte, aberta a todos, e grandes eventos, sejam pagos ou gratuitos, que apesar de estarem ao ar livre acontecem dentro de cercados. Na prática, o espaço público está retirado do público.

Mesmo quando os eventos são gratuitos, eles não são abertos a todos. Para conseguir um ingresso, é preciso entrar num aplicativo, informar seus dados e conseguir um ingresso virtual. São vários os problemas aqui, da exclusão digital à cessão obrigatória de dados.

E, de fato, como previsto no projeto, o Vale do Anhangabaú deixou de ser um lugar de passagem e transformou-se num lugar de permanência. Mas apenas de uns poucos. E deixou de ser passagem porque as pessoas não podem mais passar por lá livremente.

E, com exceção dos grandes eventos, com cercamento, não existe atrativo para permanecer no local no dia a dia. Os quiosques, que deveriam sediar cafés, restaurantes, e serviços como banheiros públicos, ainda não funcionam. O único trecho com uso é ao redor das pistas de skate, do lado mais próximo do Viaduto Santa Ifigênia.

A Praça das Artes, equipamento municipal ligado ao Theatro Municipal e que deveria estar integrada ao Vale, não tem mais eventos abertos e com frequência está com os portões fechados. Agora, a Prefeitura está começando outro grande projeto: a reforma de todo o calçamento do Centro Histórico. Ao mesmo tempo, vemos uma dificuldade enorme em manter os espaços limpos, em coletar o lixo adequadamente, varrer e lavar as calçadas.

E o maior problema de todos: as dezenas de milhares de pessoas em situação de rua dormindo ao relento em São Paulo, abandonadas pelas ações insuficientes do poder público.

Mas a “privatização” do Vale do Anhangabaú não é um caso isolado. No post sobre o assunto que publicamos no Instagram no fim de semana, vários leitores comentaram sobre outros locais onde o acesso ficou mais dificultado, como o Parque Villa-Lobos ou o Ibirapuera, ambos com excesso de áreas de publicidade ou comercializadas.

Direito à cidade?

Parece que São Paulo está retrocedendo neste quesito.