A Vida no Centro

Histórias de São paulo

Laercio Cardoso de Carvalho é guia de turismo cadastrado desde 1983. Com bastante vivência no Centro, criou vários roteiros temáticos e é o guia da Caminhada Noturna desde o seu início, em 2005. É professor no Senac nos cursos de formação de Guia de Turismo e nas Faculdades da Maturidade na PUC e na UNIP. Palestrante, é autor do livro "Quando Começou em São Paulo? 458 respostas pelo Guia de Turismo Laercio Cardoso de Carvalho”.

Santos católicos em São Paulo

São poucos os santos católicos no Brasil, mas São Paulo faz parte da história de dois deles. Saiba qual é a relação deles com a cidade

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Laércio Cardoso de Carvalho

Dia primeiro de novembro a Igreja Católica celebra o Dia de Todos os Santos. Há alguns anos a data era ponto facultativo, hoje quase não se fala dela a não ser nas igrejas em celebrações nesse dia.

Ao pensarmos em santos, vem à nossa mente aquela antiga constatação “o Brasil é um país predominantemente católico (se bem que já foi mais) e não temos nenhum santo brasileiro”. O Padre Anchieta teve um longo processo de beatificação e posterior canonização, iniciado em1597. Ele só foi beatificado em 1980, na primeira visita do Papa João Paulo II ao Brasil. E santificado somente em 5 de abril de 2014 pelo papa Francisco. Mesmo que não houvesse tanta demora não seria o primeiro santo brasileiro. O Padre Anchieta era espanhol, embora tenha vivido a maior parte de sua vida no Brasil.

Em 2002, no dia 19 de maio, na Praça São Pedro em Roma, Madre Paulina foi canonizada, mas também não era brasileira. Ela veio com 10 anos da Itália para Santa Catarina. Em 1903 chegou em São Paulo, morou aqui até falecer em 9/7/1942. Desenvolveu bela obra social pelos mais sofrido, ajudou os escravizados que foram libertados pela Lei Áurea mas não tinham para onde ir, fundou escolas. Está sepultada no colégio que construiu na Avenida Nazaré, no bairro do Ipiranga.

No dia 11 de maio de 2007, no Campo de Marte, em São Paulo, o papa Bento XVI canonizou Frei Galvão, falecido em 1822. Esse sim, brasileiro, paulista de Guaratinguetá, nascido em 1739. Assim que foi ordenado padre em 11 de julho de 1762  veio para São Paulo, para o convento dos franciscanos e ficou em nossa cidade até seu falecimento no Mosteiro da Luz em 23/12/1822, sendo sepultado na capela do mosteiro.

A primeira brasileira a ser canonizada foi Maria Rita de Souza Lopes Pontes. Esse era o nome de batismo de Irmã Dulce, canonizada pelo Papa Francisco em 13/10/2019 no Vaticano.

Talvez você esteja pensando mas por que esse assunto num site que informa sobre nossa cidade?

Alguns já devem ter percebido que se trata de mais uma particularidade de nossa cidade. Poucos são os santos brasileiros, nenhum nasceu em São Paulo, mas dos quatro que citamos, só Irmã Dulce não viveu aqui, e Madre Paulina e Frei Galvão aqui estão sepultados e do Padre Anchieta existe um pedaço do fêmur exposto na Igreja do Pátio do Colégio, igreja a ele dedicada.

Mesmo antes dele ser canonizado era denominada Igreja do Beato Anchieta, uma outra particularidade paulistana, pois as igrejas são dedicadas a santos e santas, e não a beatos. Foi uma deferência ao Padre Anchieta.

Santidade é algo importante para os católicos romanos, mas a importância dessas pessoas que foram canonizadas não se restringe aos católicos. As atividades, o trabalho desses santos que viveram em São Paulo é grande. Vejamos:

Padre Anchieta chega em São Paulo ainda como noviço, aos 19 anos. Com outros jesuítas em 25 de janeiro de 1554 celebra uma missa para  inaugurar o “Real Colégio de São Paulo de Piratininga”, data que passou a ser considerada o dia da fundação de São Paulo. Padre Anchieta é também considerado o introdutor do Teatro em São Paulo, pois foi o primeiro a utilizar atividades teatrais na catequese dos indígenas.

Frei Galvão vem para São Paulo em 11 de julho de 1762 e aqui ficou até sua morte, em 1822. Atendia espiritualmente o “Recolhimento Santa Tereza”. Lá, uma das “recolhidas”, a irmã Helena Maria do Espírito Santo, diz a ele que recebera em visões pedido para que fosse construído um outro recolhimento. Em 2 de fevereiro de 1774  Frei Galvão Funda então o novo recolhimento, “Nossa Senhora das Conceição da Divina Providência”. Projeta a igreja e o convento que conhecemos hoje como Mosteiro da Luz. Construiu em taipa de pilão. Por Frei Galvão ter projetado, construído e trabalhado como  pedreiro no espaço, no dia 25 de outubro de 2008, o CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura) outorgou “post mortem” o diploma de engenheiro e arquiteto. O conjunto é tombado pelo Patrimônio Nacional (IPHAN) desde 1943, e também em nível estadual e municipal.

Frei Galvão sempre morou no Convento Franciscano, deslocava-se todos os dias para o Mosteiro da Luz. Quando ficou doente foi alojado num quarto lá mesmo, para que as irmãs pudessem cuidar dele, onde veio a falecer. Está sepultado na capela que projetou e construiu.

Além da devoção a Frei Galvão o Mosteiro da Luz é uma importante atração turística. Nele está instalado o Museu de Arte Sacra com acervo permanente e exposições temporárias, além do Museu dos Presépios com destaque para o Presépio Napolitano.

Mais uma particularidade de São Paulo. São poucos os brasileiros que foram considerados santos pela Igreja Católica, dois deles estão sepultados na cidade, e além da sua importância dentro da religião foram pessoas bastante importantes na história de São Paulo.

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