A Vida no Centro

Edson Franco

Franquezas

Edson Franco é jornalista com passagens por Folha de S.Paulo, revistas Galileu, Ele Ela, Guitar Player Brasil e IstoÉ e portal Terra. Atualmente é coordenador online do Canal Rural. Em quase todas essas publicações escreveu sobre música, fazendo críticas e entrevistando gente que vai de Wando a B.B. King. Músico diletante, toca guitarra nas horas vagas e discoteca em baladas de música brasileira dançante. É coautor do livro “Música Popular Brasileira Hoje” (Publifolha) e editor de “Zózimo Diariamente” (editora EP&A). Música é o centro da discussão aqui.

Deus merece música melhor do que aquela ofertada pelos fieis

Do alto de sua nuvem, o Senhor pergunta: “Eu dei meu aval para vocês transformarem os cinemas do Centro em templos e recebo de volta essas canções enfadonhas?”

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Meu vizinho está aprendendo clarinete. E ele não tem ideia do bem que isso me faz. Ainda não tive oportunidade de dizer a ele o quanto me é prazeroso, nas tardes de domingo, ler a piauí com a cachorra no colo, enquanto entra pela janela da cozinha aquele som aconchegante que só um clarinete é capaz de proporcionar.

Nos últimos meses, venho acompanhando a sua evolução. Das primeiras escalas titubeantes, ele passou rapidamente para trechos mais melódicos, até tocar músicas inteiras. Canções que eu jamais havia ouvido.

Há cerca de duas semanas, embarquei no elevador com a mulher dele. Ela me abordou: “Você é o vizinho do 41, né? Eu e meu marido moramos no 31. Ele está aprendendo clarinete. E eu, órgão. Nós estamos incomodando?”. Respondi imediatamente que não e disse o quanto eu gostava de música. E passei a imaginar que ela deve estudar com fone de ouvido, pois jamais ouvi o som do instrumento que ela diz estudar.

Após a despedida no térreo, diagnostiquei muito rapidamente a razão pela qual eu não conhecia as melodias que saíam do clarinete do marido dela. A mulher estava com uma saia jeans dois dedos acima dos joelhos, e um coque milimetricamente arranjado coroava a sua cabeça. Sim, o casal é evangélico, e eu ignorava aquelas músicas porque elas eram cânticos de louvor.

“Aperte, não Sacuda”

Confesso que sempre impliquei com as músicas feitas para mandar mensagens para uma entidade da qual desconfio da existência. Na minha infância em Mauá, a Escola Estadual Walt Disney nos obrigava a fazer catecismo. Além de estudar textos pouco precisos escritos há 2.000 anos, fomos forçados a aprender vários hinos católicos. Cantados por crianças sem muita convicção, eram de uma chatice irritante.

Um dia, a Doris, minha irmã mais velha, apareceu em casa com o LP “Aperte, não Sacuda”, de um grupo de cantores católicos chamado Os Meninos de Deus. Na esperança de que os profissionais tornassem mais palatáveis os cânticos de louvor, ouvi o disco com sincero interesse. Fiquei ainda mais irritado do que quando entoávamos cânticos desafinados nas aulas de catecismo.

A coisa não melhorava muito no campo evangélico. Na época, eu tinha um amigo chamado Valmir, ótimo trompetista. Enquanto eu aprendia marchas e tocava saxofone na Banda Lira Mirim de Mauá, ele passava horas melhorando a sua performance em hinos evangelicamente entediantes.

Metal gospel

Apesar dessas experiências pouco animadoras, eu cresci sempre dando espaço para a possibilidade de alguém fazer música boa e, ao mesmo tempo, arrancar um sorriso de Monalisa do Senhor.

Um dos meus últimos esforços nessa direção rolou na primeira década dos anos 2000. Era um tempo em que a igreja neopentecostal Renascer estava bombando. A bispa Sônia viajava para o exterior com alguns milhares de dólares acomodados em uma versão esculpida da Bíblia, e o filho mais velho dela organizava festivais de bandas de metal gospel no Pacaembu.

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Apesar de as bandas contarem com os mais modernos equipamentos e instrumentos lançados nos EUA, pouca coisa mudou no meu tédio. Se você nunca ouviu um grupo de metal gospel, tudo o que você precisa saber é isso: pegue uma música como “Enter Sandman”, do Mettalica. Na hora de cantar os versos “Exit light, enter light”, grite “És meu Pai, és meu Pa-ai”. Pronto, isso é metal gospel.

Essa minha implicância com a música dedicada a Deus sofreu um baque fortíssimo no dia 31 de agosto de 1997. Nunca vou me esquecer desse dia porque foi quando a Lady Di morreu. Na manhã daquele domingo, eu e minha primeira ex-mulher, estávamos de férias em Nova York.

Lady Di e o Harlem

Aguardávamos o ônibus turístico que nos levaria ao Harlem, para acompanhar um culto batista. Na nossa frente, um grupo alemão (idioma que eu estudava na época) não parava de falar. Virei para a minha companheira e disse: “Amor, esses caras estão falando que a Lady Di morreu. Segure o nosso lugar na fila que eu vou no newstand e já volto”. Comprei o tabloide New York Post. Os alemães estavam certos.

Apesar do coração apertado, decidimos manter o programa. Fomos levados pelo ônibus até a First Corinthian Baptist Church, na esquina da 116 com o bulevar Adam Clayton Powell Jr. Junto com os outros turistas, fomos acomodados no andar superior da igreja. No térreo só desfilavam os fieis. E, do alto, vimos um espetáculo visual e auditivo. As mulheres, na maioria enormes, usavam vestidos com mais estampas que os sofás da Marabraz. Os homens achavam normal sair por aí de ternos roxos, turquesas ou mostardas.

Enquanto ainda nos divertíamos com os figurinos, entram o pastor, a organista e um pequeno coral. Após um sermão sobre a importância de mandar jovens negros para a universidade, o pastor dá início à cantoria. Mandava um verso, e a igreja e o coro respondiam, enquanto todos batiam palmas. Em pouco tempo, nós da marquise entramos na brincadeira, com um fervor que eu jamais havia sentido em um estabelecimento religioso. Tudo lindo, vigoroso, afinado.

Cinemas no centro

Saí da experiência com algumas convicções a respeito de Deus. A primeira é que, quando Ele quis provar a Sua existência, deu ao homem o dom de produzir música. A segunda: quando Deus resolveu curtir um som, inventou a África.

Este texto está chegando ao fim e você tem todo o direito de estar se perguntando: “O que o Centro tem a ver com tudo isso?”. E eu respondo dizendo que rezo para que os pastores que transformaram em igrejas os cinemas da região leiam este texto. E cuidem melhor da música que servem aos seus fieis. Concluo deixando três exemplos de como é possível louvar a Deus com música boa.

PS: no domingo passado, depois de tocar vários louvores, meu vizinho deixou escapar de seu clarinete o tema do desenho animado “Pica Pau”. Deus há de perdoá-lo. Afinal, quem sabe, no apartamento do andar de baixo pode estar sendo gestada a revolução que vai salvar a música feita para quem busca a salvação.

1.  Começo com essa canção na qual o espetacular grupo vocal Boyz II Men agradece ao Senhor por nunca ter dado as costas a eles.

2. Passo por essa Festa de Umbanda, em que Martinho da Vila abre caminho e quebra demanda.

3. E fecho com Evaldo Braga pedindo perdão ao Senhor por ter pensamentos pra lá de safados.