A Vida no Centro

Laercio Cardoso de Carvalho

Histórias de São paulo

Laercio Cardoso de Carvalho é guia de turismo cadastrado desde 1983. Com bastante vivência no Centro, criou vários roteiros temáticos e é o guia da Caminhada Noturna desde o seu início, em 2005. É professor no Senac nos cursos de formação de Guia de Turismo e nas Faculdades da Maturidade na PUC e na UNIP. Palestrante, é autor do livro "Quando Começou em São Paulo? 458 respostas pelo Guia de Turismo Laercio Cardoso de Carvalho”.

Carnaval de antigamente no Centro de São Paulo

O guia de turismo Laercio Cardoso de Carvalho conta como eram os primeiros carnavais no Centro de São Paulo no começo do século 20.

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Laercio Cardoso de Carvalho

Atualmente vários bloquinhos e blocos tradicionais desfilam no centro de São Paulo, mas, no passado, como terá sido o carnaval no Centro?

Nas primeiras décadas do século 20 o carnaval acontecia principalmente nas ruas da cidade. Na Rua Direita acontecia o corso. Inicialmente, com carruagens enfeitadas, mais tarde, com carros conversíveis. Nessa época a Rua Direita era residencial, muitas pessoas alugavam as varandas de suas casas para quem queria apreciar o desfile. O corso mais famoso, mais luxuoso, era o que acontecia na Avenida Paulista. Também era famoso o corso do Brás.

Os bailes aconteciam nos clubes, em hotéis mais luxuosos, como no Hotel Esplanada, um dos mais luxuosos do Brasil e até no Theatro Municipal. Fábio Prado, membro da tradicional família Prado, intelectual, incentivador e patrocinador da Semana de 22, foi prefeito de São Paulo de 7 de setembro de 1934 a 31 de janeiro de 1938, época da ditadura Vargas, quando prefeitos eram nomeados, e foi um grande incentivador do carnaval em São Paulo.

Em 1936 ele criou um concurso para premiar os melhores cartazes para os bailes oficiais no Theatro Municipal e para o melhor projeto de decoração. Foi algo bem luxuoso, tudo no estilo bem europeu, como a elite cafeeira apreciava. A frequência era grande, compareciam com fantasias de Pierrô e outros temas bem europeus. Havia concurso de fantasias. Em uma das edições, o Mappin ofereceu três pulseiras de brilhantes para os três primeiros colocados. Os ingressos eram vendidos com bastante antecedência, incluíam finas comidas e bebidas tanto no Theatro como no vizinho Hotel Esplanada. Esses bailes tiveram o auge na década de 1930 até início dos anos 1940. Depois não aconteceram mais. Somente em 16/02/1968 houve um baile de gala no Municipal.

Carnaval em São Paulo em 1915

Os bailes de gala de carnaval eram realizados em hotéis mais luxuosos, como o caso do Esplanada e do Hotel Terminus, e nos clubes da elite. Havia muitos clubes na região central, de vários estilos. Na esquina da Avenida São João com o Vale do Anhangabaú num belo prédio de três andares, hoje pertencente à Santa Casa, ficava o Clube Português. Ali eram realizados bailes para adultos e matinês para as crianças. A Companhia Antarctica criou um espaço para que as pessoas pudessem dançar sem precisar pagar ingresso, na Praça do Patriarca. A orquestra tocava no Theatro Municipal e transmitia a música para o local do baile.

O jornal Correio Paulistano, relatando as atividades no carnaval de 1936 menciona os clubes onde foram realizados bailes e concurso de fantasias. Até no Circo Queirolo, que ficava armado na Praça Marechal Deodoro, aconteceu um desses concursos. Relata também o desfile oficial de cordões e blocos, saindo do Largo de São Bento em direção ao Largo de São Francisco, utilizando a rua Líbero Badaró, e estampa foto de um gigante Rei Momo que ficava no início da Avenida São João, quase na praça Antônio Prado.

Outra criação do prefeito Fábio Prado foi o concurso de músicas carnavalescas, em 1935. Aconteceu no Teatro Boa Vista, que ficava junto à redação do jornal O Estado de S. Paulo. O vencedor foi Adoniran Barbosa com a música Dona Boa. Trinta anos depois, ele venceu o concurso no Carnaval do IV Centenário do Rio de Janeiro com o tão paulistano Trem das Onze.

Outro prefeito que colaborou com o carnaval paulistano foi Antônio Carlos de Assunção. Num mandato de curta duração (22/8/1933 a 6/9/1934), ele criou o primeiro desfile carnavalesco em São Paulo.

Corso na Avenida Paulista

A grande contribuição para o brilhantismo do carnaval paulistano foi do prefeito José Vicente Faria Lima, carioca de Vila Izabel. Ele editou a lei número 7.100/67, oficializando o carnaval paulistano e criando o desfile oficial das escolas de sambas. Elas já existiam em São Paulo desde a década de 1930, mas desfilavam nos bairros e no Vale do Anhangabaú. Foram instaladas arquibancadas na Avenida São João, distribuídos ingressos grátis para a população e transporte da CMTC (Companhia Municipal de Transporte Coletivo) para conduzir as escolas de samba para o local do desfile. Havia o primeiro grupo, o grupo 2 e o grupo 3.

A primeira vencedora no grupo 1 foi a Nenê de Vila Matilde, com o samba-enredo Vendaval Maravilhoso, sobre Castro Alves.

Até 1977, o desfile das escolas de samba foi realizado na Avenida São João, quando foi transferido para a Avenida Tiradentes e lá permaneceu até o carnaval de 1990. Em 1/2/1991 foi inaugurada a “passarela do samba” projetada por Niemeyer. Inicialmente era só a pista depois foram sendo construídas as arquibancadas, concluído em 1996 com capacidade para 32 mil pessoas.

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