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A Vida no Centro

Vista externa do MASP, na avenida Paulista, 2015. Foto: Eduardo Ortega.

Quem tem medo da sexualidade na arte? O Masp não tem e organiza mostra sobre sexo

O Masp decidiu colocar a mão no vespeiro. Palmas para o museu. Saiba mais sobre a mostra “Histórias da sexualidade” e confira imagens das obras

Atualização – desde o dia 7 de novembro a exposição Histórias da sexualidade pode ser vista por menores de 18 anos, desde que acompanhados dos pais ou responsáveis. A nova classificação segue orientação de nota técnica da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, órgão do Ministério Público Federal, publicada no dia anterior.

O Masp decidiu colocar a mão no vespeiro. Palmas para o Masp. Nesses tempos em que arte está sob ataque, é preciso reforçar o seu papel civilizatório, – mesmo que para isso tenha se rendido inicialmente a uma censura de 18 anos, fato praticamente inédito para exposições de arte. Desde 2015, o Museu de Arte de São Paulo planeja um programa dedicado às questões de sexualidade e gênero, cujas exposições e atividades têm acontecido ao longo de todo o ano de 2017. O ciclo teve início em abril, com a exposição Quem tem medo de Teresinha Soares?; seguida por Wanda Pimentel: envolvimentos, aberta em maio; Toulouse-Lautrec em vermelho, Miguel Rio Branco: nada levarei quando morrer e Tracey Moffatt: montagens, em junho; Pedro Correia de Araújo: erótica, em agosto, e Guerrilla Girls: gráfica, 1985-2017, em setembro.

Juntamente com Tunga: o corpo em obras, prevista para dezembro, essas exposições monográficas de artistas brasileiros e internacionais reúnem trabalhos que levantam questionamentos sobre corpo, desejo, erotismo, feminismo, questões de gênero, entre outros temas. Eles se congregam na mostra coletiva Histórias da sexualidade, em cartaz no Masp até o dia 14 de fevereiro de 2018.

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“O objetivo é estimular um debate — urgente na atualidade —, cruzando temporalidades, geografias e meios. Episódios recentes ocorridos no Brasil e no mundo trouxeram à tona questões relativas à sexualidade e aos limites entre direitos individuais e liberdade de expressão, por meio de embates públicos, protestos e violentas manifestações nas mídias sociais”, diz um texto de Adriano Pedrosa, diretor-artístico, e Heitor Martins, diretor-presidente do Masp. “O único dado absoluto, do qual não podemos abrir mão, é o respeito ao outro, à diferença e à liberdade artística”, continua.

Histórias da sexualidade reúne cerca de 300 obras de mais de 140 artistas nacionais e internacionais de períodos e contextos diversos, com obras do acervo do MASP e de coleções brasileiras e internacionais, incluindo desenhos, pinturas, esculturas, filmes, vídeos e fotografias, além de documentos e publicações, de arte pré-colombiana, asiática, africana, europeia, latino-americana, entre outras

Histórias da Sexualidade pretende discutir esses temas a partir de uma noção ampla do termo “histórias”, com seus sentidos múltiplos e diversos, com relatos coletivos e pessoais, ficcionais e não-ficcionais.

A mostra divide-se em nove núcleos temáticos e ocupa três espaços: o primeiro andar, onde se concentra o maior número de obras, distribuídas pela sala em oito desses núcleos: Corpos nus, Totemismos, Religiosidades, Performatividades de gênero, Jogos sexuais, Mercados sexuais, Linguagens e Voyeurismos; a galeria do primeiro subsolo, com o núcleo Políticas do corpo e ativismos; e a sala de vídeo, que compõe também o núcleo Voyeurismos.

NÚCLEOS 1º ANDAR

Corpos nus — Aqui, as obras evidenciam um dos objetos de estudo e representação mais comuns na história da arte: o corpo humano. Estão expostos representações de corpos femininos, feminilizados, corpos masculinos e masculinizados, corpos trans, corpos não-binários, de múltiplas formas.

Integram esse núcleo os artistas Anita Malfatti, Balthus Chico Tabibuia, Cláudia Andujar, Édouard Manet, Eduardo Kac, Egon Schiele, Eliseu Visconti, Flávio Rezende de Carvalho, Francis Bacon, Francisco Leopoldo e Silva, Hudinilson Jr., Iris Häussler, Jean-Auguste Dominique Ingres, Juan Davila, Lionel Wendt, Maria Auxiliadora da Silva, Mickalene Thomas, Miguel Angel Rojas, Miriam Cahn, Nancy Spero, Pierre-Auguste Renoir, Rafael RG, Vicente do Rego Monteiro, Victor Meirelles

Totemismos – A seguir, pela direita, em sentido anti-horário, o visitante encontra o núcleo dedicado à representação dos órgãos sexuais. Imagens de falos, vulvas e seios vindos de diferentes culturas — pré-colombiana, ameríndia, africana tradicional, europeia, brasileira, e da dita “popular”, como ex-votos — são dispostas lado a lado.

Integram esse núcleo os artistas Alexandre Cunha, Ana Mendieta, Betty Tompkins, Cibelle Cavali Bastos, Collier Schorr, Eduardo Costa, Erika Verzutti, Ernesto Neto, Hudinilson Jr., Javier Castro Rivera, Marta Minujin, Márcia X, Moacir [Soares Faria], Paulo Bruscky, Robert Mapplethorpe, Vania Toledo, além de uma série de ex-votos e alguns objetos pré-colombianos e africanos de autoria desconhecida.

Veja fotos:

 Linguagens – O terceiro núcleo pretende destacar o uso da linguagem como uma forma igualmente privilegiada de convencionar a arte e a performatividade, com destaque para a  semiótica, a língua de sinais e a comunicação por símbolos, intervenções em meios de comunicação, diversas formas de expressão do gênero e da sexualidade.

Integram esse núcleo os artistas Almandrade, Anna Bella Geiger, Carolee Schneeman, Cristina Lucas, Dean Sameshima, Georgete Melhem, Hal Fischer, Glauco Mattoso, Jac Leirner, José Leonilson, Martha Wilson, Rivane Neuenschwander

Performatividades de gênero – Nesse núcleo, as questões de gênero são tidas como atos intencionais, histórica e socialmente construídos, capazes de produzir e reforçar sentidos.

Aqui, as obras retratam corpos com atitudes, marcas, vestimentas e outros signos que desafiam noções normativas de sexualidade e gênero.

Integram esse núcleo os artistas avaf – assume vivid astro focus, Adir Sodré, Alvaro Barrios, Carlos Leppe, Flávio Rezende de Carvalho, Giuseppe Campuzano, Graciela Iturbide, Leticia Parente, Lynda Benglis, Madalena Schwartz, Mirian Inêz da Silva, Paul Gauguin, Paz Errázuriz, Regina Vater, Teresa Margolles, Zoe Leonard

Jogos sexuais — Faz parte das muitas histórias da sexualidade a existência de práticas coletivas ou intimistas, que cruzam tempos, materialidades e espaços. A referência nesse quinto núcleo são as brincadeiras, os toques, os objetos e os jogos que integram a arqueologia do prazer e do desejo e se apresentam de muitas formas, sob vários desenhos.

Integram esse núcleo os artistas Adriana Varejão, Albino Braz, Alice Neel, Bhupen Khakhar, Carlos Zéfiro (pseudônimo de Alcides Aguiar Caminha), Cildo Meireles, Dorothy Iannone, Ellen Cantor, Eisen, Eizan, Hudinilson Jr., Hulda Gúzman, Leda Catunda, Louise Bourgeois, Miguel Ángel Cárdenas, Nicolas Poussin, Paulo Pedro Leal, Robert Mapplethorpe, Suzanne Valadon, Tracey Emin

Mercados sexuais – Nesse núcleo, a noção de mercado de sexo não é a que aprisiona as práticas sociais, sobretudo femininas, à condenação moral, à passividade e à ausência de desejo. É, sim, uma ideia ampliada, de mercados voltados à sexualidade, que incluem da prostituição aos espetáculos noturnos, bem como a repressão e violência a essas práticas.

Integram esse núcleo os artistas Cícero Dias, Descartes Gadelha, Edgar Degas, Juca Martins, Lasar Segall, Marcelo Krasilcic, Miguel Ángel Cárdenas, Philip-Lorca diCorcia, Renato de Lima, Rosa Gauditano

Religiosidades – Nesse núcleo, parte-se da ideia de que imagens religiosas são também socialmente negociadas como objetos de cortejo sexual: diversas incitam o desejo e, ao mesmo tempo, procuram conter e silenciar qualquer excitação. O exemplo mais conhecido talvez seja o corpo nu de São Sebastião, que aparece como mártir, e que foi apropriado pela iconografia homoerótica.

Integram esse núcleo os artistas Ayrson Heráclito, Carlos Martiel, José Leonilson, Léon Ferrari, Nahum B. Zenil, Pietro Perugino, Robert Mapplethorpe, Sergio Zevallos, Virgínia de Medeiros, além de obra peruana com autoria desconhecida do século 19.

Voyeurismos – Por fim, no último núcleo do 1º andar, artistas, curadores e público tornam-se voyeurs: observam, com seus olhares particulares, atos de outros corpos, localizados tanto em locais privados quanto públicos.

Integram esse núcleo os artistas Alair Gomes, Edgar Degas, François Clouet, José Antonio da Silva, Kohei Yoshiyuki, Mauricio Dias & Walter Riedweg, Miguel Angel Rojas, Moacir [Soares Faria], Pablo Picasso, Tracey Moffatt

NÚCLEO 1º SUBSOLO

Políticas do corpo e ativismos – esse núcleo apresenta um conjunto de obras sobre manifestações sociais e artísticas pela luta de direitos humanos e pela não discriminação das minorias sexuais e de gênero. Além das obras, fazem parte textos, documentação de performances, camisetas e publicações.

Integram esse núcleo os artistas Act Up!, Aleta Valente, Carlos Motta, GALF (Grupo de Ação Lésbico Feminista), Gang, General Idea, Heresies Magazine, José Celestino da Silva, Lampião da Esquina, Lyz Parayzo, Movimento de Arte Pornô, Mujeres Creando, Mulherio (Revista), Pedro Lemebel, Rafael França, Maria Galindo, Roberto Jacoby e Mariana “Kiwi” Sainz, Serigrafistas Queer, Yeguas del Apocalipsis, Valie Export, Wolfgang Tillmans, Zoe Leonard

Histórias da sexualidade tem curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP; Camila Bechelany, curadora assistente do MASP; Lilia Schwarcz, curadora-adjunta de histórias do MASP; e Pablo León de la Barra, curador-adjunto de arte latino-americana do MASP. A expografia é do Metro Arquitetos Associados.

Seminário ajudaram na curadoria

Como parte do processo de pesquisa e preparação da mostra, o MASP promoveu dois seminários internacionais sobre sexualidade e gênero, em setembro de 2016 e maio de 2017, que reuniram pesquisadores, curadores, artistas e especialistas de diferentes áreas, como história da arte, sociologia, ciências políticas e estudos de gênero. As mesas de discussões levantaram debates acerca dos direitos humanos e dos circuitos e territórios da sexualidade no espaço urbano, abrangendo temas como ativismo e esfera pública, feminismos, queer e movimento LGBT, assim como prostituição e performatividade de gênero, psicanálise e erotismo, todos em conexão com a cultura visual e a prática artística.

Publicações

Paralelamente à exposição, o MASP lança duas publicações relacionadas à mostra: o catálogo ilustrado (272 pp., R$149) com as obras da exposição, divididas por textos curatoriais de cada núcleo temático, com organização de Adriano Pedrosa e Camila Bechelany, e uma antologia de textos (432pp., R$55), com organização de Adriano Pedrosa e André Mesquita; ambos com coordenação editorial de Isabella Rjeille e Juliana Bitelli.

Programação e sexualidade

Como parte da programação de atividades relacionadas à exposição, o MASP oferece ciclos gratuitos de oficinas e filmes e vídeos para o público adulto. A organização é de Pedro Andrada e Leonardo Matsuhei, do núcleo de Mediação e Programas Públicos do MASP.

Histórias da sexualidade: oficinas

De outubro a fevereiro, são 12 oficinas, sempre aos finais de semana, que propõem trabalhar com a temática da sexualidade a partir de determinadas práticas corporais, suas transfigurações em discursos, saberes, regimes de verdade e, por conseguinte, relações de poder. Assim, metade das propostas contemplam atividades ligadas diretamente à dança e ao teatro e outras lidam ainda com ações performativas e a presença dos corpos trans, queer e feminino no espaço público.

Veja aqui a programação completa.

Histórias da sexualidade: filmes & vídeos

O programa Histórias da sexualidade: filmes & vídeos, em parceria com a Associação Cultural Videobrasil e a Cinemateca Brasileira, apresenta 34 obras distribuídas em 14 sessões. Veja aqui a programação completa.

SERVIÇO

HISTÓRIAS DA SEXUALIDADE

Até 14 de fevereiro de 2018

Endereço: Avenida Paulista, 1578, São Paulo, SP

Telefone: (11) 3149-5959

Horários: terça a domingo: das 10h às 18h (bilheteria aberta até as 17h30); quinta-feira: das 10h às 20h (bilheteria até 19h30)

Ingressos: R$30,00 (entrada); R$15,00 (meia-entrada)

Entrada gratuita às terças-feira

Estacionamento: Convênios para visitante MASP, período de até 3h. É preciso carimbar o ticket do estacionamento na bilheteria ou recepção do museu.

CAR PARK (Alameda Casa Branca, 41)

Segunda a sexta-feira, 6h-23h: R$ 14,00

Sábado, domingo e feriado, 8h-20h: R$ 13,00

PROGRESS PARK (Avenida Paulista, 1636)

Segunda a sexta-feira, 7h-23h: R$ 20,00

Sábado, domingo e feriado, 7h-18h: R$ 20,00

Acessível a deficientes físicos, ar condicionado, classificação indicativa 18 anos. Menores desta idade poderão visitar desde que acompanhados dos pais ou responsáveis.