Assine nossa Newsletterfique por dentro de tudo o que rola no centro

A Vida no Centro

Lilian Varella, proprietária do Drosophyla, em casarão de 1920 totalmente restaurado.

Drosophyla: como a empresária Lilian Varella transformou uma casa em ruínas num bar badalado no centro de São Paulo

Casa de 1920 foi totalmente restaurada e virou o Drosophyla, um dos bares mais bonitos e aconchegantes de São Paulo

Por Denize Bacoccina

“Eu sempre gostei de bares off road.” Assim a empresária Lilian Malta Varella define seu estilo como empreendedora. O off road, neste caso, é apenas uma figura de linguagem, já que seu bar, o Drosophyla, está localizado bem no coração de São Paulo, na Rua Nestor Pestana, a um quarteirão de pontos badalados, como o Copan, a Avenida São Luiz e a Praça Roosevelt.

Instalado num casarão construído em 1920 e tombado pelo patrimônio histórico, este é o quinto bar que ela abre com este nome, sempre construindo o local do nada e criando uma atmosfera única, diferente do que se vê em outros lugares. Enquanto a maioria das novas casas tem optado por uma decoração clean ou com estilo industrial, o Drosophyla, ou Dro, como é chamado por ela, faz o cliente se sentir como se estivesse na casa de um amigo, com seus sofás e poltronas espalhados pelos cômodos e sua iluminação aconchegante.

A história de Lilian com bares batizados de Drosophyla (para quem não sabe, a mosquinha da fruta, um nome que ficou na sua cabeça desde que estudou o assunto num livro de Biologia) vem de 1986, quando abriu o primeiro, em Belo Horizonte, onde morava. “Era uma garaginha”, conta Lilian. “Não tinha nem banheiro, a gente pedia emprestado para o vizinho.” Quando teve que sair do ponto, ela procurou outro local fora do circuito, e instalou o segundo Drosophyla no Bairro Preto, que na época era uma região desabitada. O bar ficava no primeiro andar de um prédio, e cada quarto tinha um ambiente diferente.

O terceiro Drosophyla, em 1992, ainda na capital mineira, era um galpão de quase 600 metros, de frente para uma ferrovia. O local era simples, mas fez história. “Tinha um grande palco onde o J Quest começou a tocar. Eu era madrinha, apresentava a banda”, conta. Como o espaço era amplo, foi decorado com pouco dinheiro e muita criatividade: barris virados para baixo viraram mesas, tapetes velhos disfarçavam o chão irregular e as bebidas eram servidas em copos plásticos porque não havia estrutura para lavar a louça. “O Drosophyla já tinha esse DNA de fazer o novo, o diferente”, diz Lilian.

Decoração faz o cliente se sentir como se estivesse na casa de um amigo

Decoração faz o cliente se sentir como se estivesse na casa de um amigo

Para respeitar o tombamento, bar teve que ser encaixado sem apoio nas paredes da casa

Para respeitar o tombamento, bar teve que ser encaixado sem apoio nas paredes da casa

Mudança pra São Paulo

DNA que foi mantido quando a empresária se mudou para São Paulo cinco anos depois, quando se casou com um neozelandês, professor de Sociologia que mudou para o Brasil. Na nova cidade, Lilian, achou que era hora de mudar de vida. Tentou trabalhar em outra área. Mas não conseguiu ficar longe da agitação cultural por muito tempo.

Em 2002, lá foi ela desbravar agora a noite de São Paulo. Seu quarto Drosophyla, o primeiro na capital paulista, ficava na Rua Pedro Taques, uma rua muito central, perto do cemitério da Consolação, mas que era desconhecida da maioria dos paulistanos.

Pois Lilian colocou a região no mapa antes mesmo que ela ficasse conhecida como Baixo Augusta e se tornasse o novo point de lazer e cultura dos paulistanos descolados. “A sina do Drosophyla é essa coisa de abrir espaço”, diz sem disfarçar o orgulho.

Nova mudança

O bar fez muito sucesso e durou pouco mais de dez anos, até que o proprietário pediu o imóvel, um casarão dos anos 1940. Lilian teve que partir em busca de um novo espaço. Olhou, olhou, até que um dia encontrou na Rua Nestor Pestana um casarão construído em 1920, quando a rua ainda se chamava Florisbela.

Era ali em frente que ficava no início do século o Velódromo Paulistano, se que tornou também o primeiro estádio de futebol da cidade, construído nas propriedades de Dona Veridiana numa época em que tanto o ciclismo quanto o futebol eram esportes de elite.

Tombado e em ruínas

Era uma casa estilo cottage com influência germânica, projeto do arquiteto Adelardo soares Caiuby, autor do prédio da Curia Metropolitana, já demolida. O telhado cheio de buracos transformou o primeiro andar num ninho de pombos, mas Lilian conseguiu enxergar além e imaginar o local em sua antiga glória. “Quando eu entrei eu fiquei apaixonada“, lembra. O imóvel estava tombado pelo Conpresp, mas estava fechado havia 25 anos e só não foi demolido pelo atual proprietário, porque a mãe a a esposa dele ficaram com pena. Ele manteve o imóvel, sem uso, enquanto explorava como estacionamento o terreno ao redor.

Fechado por mais de 25 anos, casarão tinha problemas graves no telhado, que podia ruir

Fechado por mais de 25 anos, casarão tinha problemas graves no telhado, que podia ruir

Pinturas originais da época foram restauradas

A possibilidade de recriar um casarão de 1920 em meio aos prédios da região foi justamente o que atraiu Lilian, que se dedicou a restaurar o espaço. “Este é o meu último Drosophyla, afirma. “Uma casa dessas é o meu sonho. Eu queria ter vivido numa casa assim”, conta.

Como não viveu na vida real, ela criou um personagem, seu alter ego Madame Lili Wong, que viveu em Xangai, onde se casou com um alemão e se mudou para o Brasil em 1925. Artista de muitos talentos, Madame Lili teria dado festas memoráveis em sua época no casarão da Nestor Pestana. Tradição retomada, agora com Lilian como anfitriã, tratando os clientes como se fossem seus convidados. “Obrigada por, em meio a tantas opções em São Paulo, terem escolhido a minha casa”, costuma dizer ao se apresentar aos clientes.

Restauro complexo

O trabalho de restauração foi demorado, complexo e dispendioso. Durante um ano, ela ficou com uma equipe de marceneiros, arquitetos e restauradores pesquisando materiais e maneiras de trazer a casa de volta ao que era quase um século atrás – ao mesmo tempo que tentava convencer os órgãos de defesa do patrimônio histórico que queria restaurar, e não destruir o imóvel.

“Cada dia era uma coisa nova, mas um sonho é um sonho e é muito bonito trazer vida a tudo isto”, diz. Ela não revela quanto investiu, mas diz que foi muito dinheiro. E, como a reabertura da casa coincidiu com a crise econômica, ainda não conseguiu ver o retorno.

Não viu o retorno financeiro, porque o retorno emocional ela recebe cada vez que percebe um cliente olhando maravilhado para a decoração de época do lugar, composto por móveis e objetos garimpados durante suas sete viagens à China, onde buscou inspiração para a Madame Lili.

Vitral do Drosophyla, em imóvel de 1920 totalmente restaurado

Vitral do Drosophyla, em imóvel de 1920 totalmente restaurado

Decoração de época está em todos os detalhes

Decoração de época está em todos os detalhes

Parte deles está à venda numa loja estilo brechó, numa sala no andar superior. “Eu podia ter desistido. Mas eu não desisti, porque é uma alegria ver uma casa dessas assim, recuperada”, diz. Moradora da moderna Avenida Paulista, ela gostaria mesmo é de transformar o Drosophyla em sua casa de verdade. “Se um dia eu ganhar na loteria vou comprar e vir morar nesta casa.”

Nesta entrevista ao projeto A Vida no Centro, ela conta porque decidiu trazer o Drosophyla para o centro e fala das dificuldades para restaurar o casarão.

A Vida no Centro – Por que você trouxe o Drosophyla para o centro?

Lilian Malta Varella – Eu vim para o centro porque é maravilhoso. Eu tive que sair de onde eu estava e um dos motivos é que eu não faço nenhum bar que não seja perto da minha casa e como moro na Avenida Paulista aqui dá pra vir pé em menos de 30 minutos. Eu poderia ir para os Jardins, mas não é a minha cara. Desde meu primeiro bar, em Belo Horizonte, que eu brinco que eu só vou pra lugares off road, fora do circuito. Quando eu vejo tudo isso eu fico encantadíssima. Eu fico muito feliz de fazer parte disso tudo e estar aqui nesta casa lindíssima de 1920.

Quando você abriu, em 2015, esta rua ainda não era o point que é hoje.

Não. Quando eu abri já tinha a Kilt. Depois que eu abri começaram a pipocar mais coisas nesta rua e agora tem vários bares, uma pizzaria bem legal. É muito legal porque uma coisa vai atraindo a outra. Isso é maravilhoso também.

E você acha que está ajudando a trazer pessoas de outros bairros para o centro?

Eu acho que todo mundo que tem alguma coisa no centro faz isso como um bandeirante. Seria muito mais fácil se fosse em outros lugares. Mas eu faço por amor, por vontade, por achar que este é o melhor lugar que tem. Pra mim é o melhor lugar. Eu acho o centro lindo. Mas ainda tem muita gente que torce o nariz. Um dia veio um casal aqui, um casal lindo, e a menina falou: eu trouxe aqui o meu namorado pra ele ver como é lindo, porque ele não sai do Itaim. Nada contra o Itaim, mas é um outro estilo. As pessoas aqui são mais cool. É menos engessado.

Você pensa em vir morar por aqui?

Eu adoraria, pra ser honesta, era morar nesta casa. Se um dia eu ganhar na loteria eu compro esta casa pra morar aqui. Eu realmente moraria aqui tranquilamente.

Como foi a reforma? Quando você investiu?

Um monte. Não gosto nem de falar. Mas eu coloquei um bom dinheiro aqui. A casa ficou fechada mais de 25 anos. Quando eu cheguei o segundo andar era pura água, o telhado tinha caído todo. O estuque tinha caído. Tinha uma colônia de pombas. Era um nojo. Como tudo é madeira de lei, resistiu. As ferragens são francesas. Recuperamos tudo.

Como foi o processo com os órgãos de patrimônio?

É tudo bem complicado o processo. Tinha muita burocracia pra enfrentar, pra qualquer coisa. A casa é tombada interna, externamente e entremuros. Tudo tem que ter autorização. O que por um lado é bom, mas as pessoas são muito engessadinhas. Foi um ano e pouco até tudo ficar pronto. E eu pagando aluguel. Então foi complicado este lado. Eu falava: gente eu sou só uma dona de bar, não sou um banco. Meu marido é professor. Eu não queria pedir benesses, só que o processo fosse célere.

Valeu a pena?

No sentido financeiro, lógico que não, porque aí veio esta crise e não sei quando eu vou recuperar este dinheiro. Mas no sentido da alegria interior, eu digo que valeu muito. Porque eu digo que eu nasci em 1920. Foi maravilhoso dar vida a uma casa dessas. Ela quase foi derrubada. Mas quando eu estava na época de desespero, eu pensava: porque não abri uma garaginha de novo. Eu podia ter desistido. Fiquei quase dois anos parada. Mas eu não desisti, porque é uma alegria. E dá alegria ver muita gente que vem aqui e fala: nossa, que bacana, que casa linda. As pessoas sentem essa vibração.

Serviço:

Drosophyla Bar

Rua Nestor Pestana, 163

Tel (11) 3120-5535

Aberto de segunda a quinta Feira das 18h até 1h
sextas e sábados das 20h até as 3h

Leia também:

FACUNDO GUERRA, DO GRUPO VEGAS: “A RETOMADA DO CENTRO É A RETOMADA DA IDENTIDADE DO PAULISTANO”

CONHEÇA OS BARES QUE ESTÃO AGITANDO A NOITE NA GALERIA METRÓPOLE