A Vida no Centro

Edson Franco

Franquezas

Edson Franco é jornalista com passagens por Folha de S.Paulo, revistas Galileu, Ele Ela, Guitar Player Brasil, IstoÉ, portal Terra e Canal Rural. Em quase todas essas publicações escreveu sobre música, fazendo críticas e entrevistando gente que vai de Wando a B.B. King. Músico diletante, toca guitarra nas horas vagas e discoteca em baladas de música brasileira dançante. É coautor do livro “Música Popular Brasileira Hoje” (Publifolha) e editor de “Zózimo Diariamente” (editora EP&A). Música é o centro da discussão aqui.

Crônica: Qual será o segredo de Bettina?

Em seu novo post, o colunista Edson Franco escreve que muitos banqueiros lendários adorariam conhecer o segredo de Bettina, a moça do YouTube que diz ter ficado milionária a partir de R$ 1.520

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Tempo de leitura:5 minutos

Foi um bombardeio. Na semana que passou, muito frequentador do YouTube deparou com uma publicidade da Empiricus, empresa que vende assinaturas de dicas de investimentos. Na peça, uma moça bonita de 22 anos afirma que, há três anos e com apenas R$ 1.520, começou a comprar ações e hoje possui em conta R$ 1,042 milhão! A continuar assim, essa Bettina Rudolph vai longe.

O professor da GV e comentarista econômico de várias plataformas da Globo, Samy Dana, deu os números da proeza dessa catarinense que deixaria Midas com complexo. “Daqui a 15 anos, nossa heroína terá 37 anos de idade e um patrimônio de R$ 157 quintilhões: 2 milhões de vezes o PIB americano de 2018 e 316 milhões de vezes a fortuna Jeff Bezzos [dono da Amazon], homem mais rico do mundo segundo a Forbes”, contabilizou ele no Twitter.

O segredo de Bettina

A história da moça me fez pensar em vários agentes financeiros que pareciam inabaláveis, mas que se espatifaram ao longo do caminho. Quase todos contavam com especialistas, PhDs, diretores com décadas de experiência e analistas capazes de antecipar com meses de antecedência qualquer soluço no mercado. Em comum, eles deram o azar de não ter uma Bettina no seu corpo consultivo.

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Nos anos 1980, o país inteiro acompanhava o ator Toni Lopes e entoava o refrão: “O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa”. Além disso, enquanto tinha caixa, o banco patrocinava o coral de Natal no Palácio Avenida, em Curitiba. Com as primeiras sementes lançadas em 1929 por Avelino Vieira, o banco Bamerindus chegava aos anos 1980 como uma potência inexpugnável. (Sei bem. Trabalhei lá entre 1984 e 1988. Tudo ali era potente, exceto os salários.)

 

Custei a acreditar que, já em 1994, a instituição entrou num programa de reestruturação do governo. Passou os três anos seguintes virando calças de cabeça pra baixo em busca de moedas. Nenhuma estratégia conseguiu salvar o banco, que teve uma parte incorporada pelo HSBC e outra pelo Banco Central. Como consolo, sobrou o coral de Natal, agora bancado pelo Bradesco.

Muitos da minha geração tiveram a iniciação financeira com o cofrinho da Delfin. Era um tubo de papelão com as pontas em lata e um orifício para colocar moedas em uma delas. Parecia o fim dos simpáticos porquinhos de porcelana. Afinal, com o cofrinho cheio, era só se dirigir a uma agência e acompanhar maravilhado a destruição da embalagem e a contagem das moedas.

Criado pelo empresário Ronald Levinsohn, o cofrinho da Delfin teve concorrentes como o Haspa, mas era mais simpático e conquistou a confiança de 3,4 milhões de poupadores. No final de 1982, o Banco Central decretou uma intervenção na instituição, que apresentara imóveis superfaturados como garantia de empréstimos bilionários.

Não saem da memória as filas de gente com caderneta na mão esperando reaver seus depósitos corrigidos. Nem todos conseguiram. Isso na época rendeu a piada pronta de que a Delfin deu fim no dinheiro de muita gente. Levinsohn, claro, não ficou pobre e continuou exercitando sua musculatura empreendedora. Sua mais recente empreitada, segundo o jornal “O Globo”, envolvia o aluguel de imóveis para a Câmara dos Vereadores do Rio. Com valores acima dos de mercado.

Dói ver uma instituição com o nome do seu time quebrar. Foi assim que me senti em 2005, quando o Banco Santos faliu antes que eu pudesse abrir uma conta nele. Criador do grupo ainda como corretora em 1969, Edemar Cid Ferreira era um homem invejável: culto, articulado, colecionador de arte, dono de mansão espetacular.

Não podia dar errado uma instituição que crescia 18% ao ano e que saltou de 125º (em 1994) para 7º (em 2004) maior banco brasileiro. Mas Edemar não tinha nenhuma moça catarinense na sua diretoria e acumulou dívidas que chegaram a R$ 2,2 bilhões e vários correntistas em pleno ataque de nervos.

Na esperança de reparar o estrago deixado pelo banqueiro, o Tribunal de Justiça de São Paulo autorizou o leilão da casa (com as obras de arte que estão por lá) e do terreno na marginal Pinheiros onde ficava a sede do banco. Os valores estimados são de, respectivamente, R$ 76,8 milhões e R$ 50 milhões. Os interessados podem dar lances entre os dias 29 de abril e 23 de maio. Nessa, nem a Bettina consegue entrar.

Criado em 1944 pela família do ex-governador de Minas Gerais José de Magalhães Pinto, o Banco Nacional participou de várias manhãs vitoriosas do torcedor brasileiro de fórmula 1. Depois de seu desempenho nas pistas, invariavelmente Ayrton Senna dava entrevistas com um boné do banco, seu principal patrocinador. Além disso, o grupo se vangloriava de ser o primeiro anunciante do Jornal Nacional.

O ano de 1994 foi traumático para todos os brasileiros, mas em especial para o banco mineiro. No dia 1º de maio morria Senna. Naquele mesmo ano, o Nacional passava por dificuldades. Recebeu ajuda generosa do Banco Central, mas teve sua liquidação decretada no ano seguinte, após ter inflado seu patrimônio com 600 contas fictícias. E o piloto não viveu para ver o fim do seu patrocinador.

O mais próximo que Bettina tem de um precursor é o empresário libanês Naji Nahas, que hoje tem 71 anos. Ele chegou ao Brasil em 1969 com bem mais que os R$ 1.520 da moça catarinense. Empregou os US$ 50 milhões que trouxe em fábricas, seguradora, banco e na produção de coelhos. Tudo isso dava muito trabalho. Então ele resolveu investir no mesmo que Bettina: ações.

Com empréstimos tomados em bancos, Nahas comprava ações em volumes tão absurdos que chegou a responder por 80% dos negócios na Bovespa. Em 1985, a bolsa paulista conseguiu se livrar do investidor, que levou sua tática para o Rio de Janeiro. Nos anos seguintes, os banqueiros passaram a sentir um cheiro de valorização fraudulenta nas transações do libanês e cortaram seu crédito. Teve início um efeito cascata que quebrou a bolsa fluminense em 1989.

Ao lembrar esses casos, vem a inevitável pergunta: o que Bettina tem que Avelino Vieira, Ronald Levinsohn, Edemar Cid Ferreira, Magalhães Pinto e Naji Nahas não tiveram?