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Conheça a Dolores Nostalgias, loja de moda e objetos dos anos 1970 no Edifício Esther

Loja cenário showroom Dolores Nostalgias traz os anos 1970 para o Edifício Esther, o primeiro modernista de São Paulo

A Dolores Nostalgias funcionará no modelo phygital, híbrido entre físico e digital

Denize Bacoccina

Na segunda-feira, dia 25 de janeiro de 1971, Dolores realizou seu sonho e finalmente abriu as portas da sua loja, Dolores Nostalgias, na icônico Edifício Esther, o primeiro prédio modernista de São Paulo. O edifício, em frente à Praça da República, era cobiçado por Dolores desde que começou a expor seus produtos na feira de artes, artesanatos e antiguidades da Praça da República, na década anterior, quando o local começou a ser frequentado por artistas e se tornou um espaço da contracultura em São Paulo.

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Todos os fatos descritos acima são verdade, exceto por Dolores. Dolores é, na verdade, um personagem criado pelos empresários Mariana Nobre e Vinicius Ribeiro, os verdadeiros donos da loja de nostalgias, que funcionará num modelo phygital, híbrido entre físico, com a loja no quarto andar do Esther, com agendamento prévio, neste link, e vendas online. Tudo o que está exposto na loja estará à venda. São roupas, objetos de decoração, mobiliário, papelaria, livros e discos. Tudo dos anos 1970, sejam originais ou novos com design da época.

Além disso, o catálogo de produtos será lançado por meio de uma fotonovela no Instagram, contando a história de Dolores – sua história como expositora da feirinha da Praça da República, como montou a loja e, claro, os produtos que vende.

Produtos que são contemporâneos de Dolores, que vive em 1971. Para complicar ainda mais essa coexistência do tempo, o calendário de 1971 é semelhante, nos dias do mês  e da semana, ao calendário de 2021. Ou seja, o dia 25 de janeiro é uma segunda-feira tanto em 2021 quanto em 1971. Portanto, haverá calendários de 1971 à venda, que podem ser usados neste ano.

Além de show room para os produtos, a loja poderá ser usada para locações de fotos, filmagens ou outras gravações. No momento, ela está ambientada como uma sala de estar, mas em outras coleções (serão quatro por ano, sempre lançados na fotonovela no Instagram) pode se transformar num quarto. No primeiro capítulo da fotonovela, Dolores posa em locações que costuma frequentar na região, como o tradicional Salão Phidias e o restaurante Churrasqueto, na 24 de Maio, fundos do Theatro Municipal, além dos corredores e saguão do Edifício Esther e o restaurante Esther Rooftop, no terraço do edifício.

Além de Mariana e Vinicius, a equipe conta com produtores associados e uma rede expandida de curadores, artistas e pessoas ligadas e este universo de garimpo de objetos antigos. Da mesma maneira que a personagem Dolores vive num universo de artistas, a loja real também transita neste universo. “Dolores, por ter vivido a época da contracultura, ficou muito amiga de artistas”, conta Mariana. Na vida real, este link também existe, já que todo o casting envolvido na produção da fotonovela, é formado por artistas. ” Estamos indo para o passado para estamos cutucando uma rede de artistas, produtores da cultura que seriam as nossas vanguardas de 2020”, diz Mariana.

O local escolhido, o Edifício Esther, primeiro edifício moderno da cidade também traz consigo uma história de vanguardas. Nele moraram Di Cavalcanti e o lendário jornalista e cronista social Marcelino de Carvalho. O arquiteto modernista Rino Levi também teve lá seu escritório. Nos anos 50, a efervescente boate Oásis, localizada no subsolo, aglutinava intelectuais. O jornalista Assis Chateaubriand era um dos frequentadores assíduos. Foi em reuniões no subsolo do Esther que idealizaram o Museu de Arte Moderna de São Paulo.

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Loja de nostalgias

A ideia de montar uma loja de nostalgias surgiu durante a pandemia. Mariana, curadora e pesquisadora de novos cenários culturais e vanguardas, já havia montado uma loja de garimpos na Rua Pedro Taques, no Baixo Augusta, há alguns anos. Quando conheceu Vinicius, seu namorado, viram que tinham um gosto compartilhado por antiguidades e, durante a quarentena, amadureceram o projeto da loja. Em outubro, alugaram o espaço e começaram a reformar.

Aliás, o nome loja de nostalgias foi inspirado no filme Meia Noite em Paris, de Woody Allen. No filme, Gil é um escritor que está trabalhando em um romance cujo protagonista trabalha em uma “loja de nostalgia”. A expressão não é compreendida pela família de sua noiva, e até vira motivo de chacota entre eles. No entanto Gil é encorajado por Ernest Hemingway (o filme traz uma reunião imaginária de vários escritores dos anos 1920) a seguir com sua ideia.

Quase dez anos depois, a expressão é resgatada ganhando outros contornos. A nostalgia tem se tornado cada vez mais presente no comportamento social e já se mostrava ser uma forte tendência antes mesmo da pandemia. Agora, se aprofundou e ganhou força com a geração Z. Cabelos, maquiagens, roupas que imitam estampas psicodélicas, discussões acerca do uso de alucinógenos, músicas, ufologia, retomada de discussões acerca da Era de Aquário, estão adentrando cada vez mais o imaginário dos centennials.

Além disso, mesmo com a tendência de menor consumismo, ganhou força uma compra mais afetiva. “O garimpo entra na compra mais afetiva. E há um prognóstico muito bom para itens de segunda mão nos próximos anos por causa da sustentabilidade”, diz Mariana.

Veja fotos da loja-cenário:

Dolores Nostalgias

R. Basílio da Gama, 29. Sala 408. Praça da República. Edifício Esther.

Com agendamento neste link.

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Denize Bacoccina

Denize Bacoccina é jornalista e especialista em Relações Internacionais. Foi repórter e editora de Economia e correspondente em Londres e Washington. Cofundadora do projeto A Vida no Centro, mora no Centro de São Paulo. Aqui é o espaço para discutir a cidade e como vivemos nela.